"A vida é um pequeno espaço de luz entre duas nostalgias. A nostalgia do que ainda não vivemos e a do que já não poderemos viver."
É com estas duas frases que Rosa Montero inicia esta obra. Duas frases curtas, mas muito assertivas, que nos fazem adivinhar a qualidade da narrativa. E ao longo da leitura vamos bebendo as suas palavras com goles muito pequenos, mas que nos saciam com a sua subtil profundidade.
Soledad é uma mulher de 60 anos, atraente, sedutora, culta, sem filhos, que gosta de homens bonitos e bem mais novos.
Colecionadora de fracassos amorosos, Soledad soma mais um à sua existência e com o intuito de fazer ciúmes ao ex amante contrata um gigolô para acompanha-la a uma ópera Tristão e Isolda, de Wagner. Adam, o acompanhante é um arquétipo de perfeição para o universo feminino.
Porém, o que seria apenas uma saída sem qualquer pretensioso envolvimento, à conta de um incidente tudo mudará. E, assim, abriu-se a porta para Adam entrar na vida de Soledad.
Depois deste entrelaçar de vidas começamos a perceber que os medos de ambos são muito análogos, estigmatizados pelo abandono, pela dor e solidão.
No decorrer de toda a acção Soledad é comisária de uma exposição para a Biblioteca Nacional cuja temática é "Escritores malditos". Com este pano de fundo a autora tece algumas histórias e invoca nomes de conhecidos escritores, que se fundem magistralmente na narrativa.
Um romance que foca a pressão social em possuir uma relação amorosa, marginalizando a diferença etária e as mulheres sem filhos. Uma obra que espelha o envelhecimento, o passar do tempo, as mudanças físicas da velhice que teima em chegar. E, essencialmente, a vivência de um amor como condição necessária para se ter "vivido": "Morreria sem ter conhecido o amor. Isso é que era ser pobre, não o facto de não conseguir pagar o raio de uma fatura".
Soledad parece ver Adam como um antídoto para a sua velhice, capaz de a fazer recuperar o tempo perdido. Como se as rugas, os cabelos brancos e as carnes flácidas se dissipassem por si só, com a vivência deste amor.
Com esta obra, Rosa Montero provoca-nos uma espécie de fissura emocional quando nos deparámos com o destino trocista. É, de certa forma, um "abre olhos" para não deixarmos a vida passar ao lado como meros espectadores e sermos "enterrados em vida".
Recomendo muito esta leitura.