A História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil , de Pero de Magalhães de Gândavo, foi a primeira obra publicada em língua portuguesa sobre o Brasil. Sua primeira edição data de 1576 e, além de inaugurar a historiografia e a geografia brasileiras – uma preocupação consciente de seu autor –, foi pioneira também ao apresentar a nova terra como um local aprazível e habitável, e não como um exótico palco de aventuras e perigos. Ainda hoje, é um texto saboroso, vivo e surpreendente. Trata-se do relato de um viajante do Renascimento. Homem multifacetado e empreendedor, conhecedor do latim, Gândavo foi excelente historiador, atento aos aspectos botânicos, zoológicos, etnológicos e geológicos. Descreve engenhos, vilas e aldeias indígenas, bem como elementos da fauna e da flora locais ainda fantásticos a um primeiro olhar europeu. Registra ainda expedições aos sertões em busca de ouro, caracterizando um Brasil entre o selvagem e o civilizado, em que índios, colonos e jesuítas se enfrentam no desafio de habitar a terra. Esta nova edição traz o texto modernizado – a partir do original de 1576 – por Sheila Moura Hue e Ronaldo Menegaz, responsáveis também pelas inúmeras notas esclarecedoras. Um verdadeiro esmero, completado pelo fac-símile de diversas páginas da edição original.
“(...) primorosa edição organizada por Sheila Moura Hue e Ronaldo Menegaz, com o erudito prefácio de Cleonice Berardinelli e um conjunto impressionante de notas esclarecedoras do texto.” José Mindlin, bibliófilo
“Regozijem-se, pois, os leitores em geral, pela oportunidade de poder, afinal, ter em mãos uma obra tão importante e injustamente tão pouco conhecida. (...) ‘Alvíssaras’, meus amigos!” Do prefácio de Cleonice Berardinelli
O cronista, gramático e historiador Pêro Magalhães de Gândavo, natural de Braga, foi moço de câmara de D. Sebastião e copista da Torre do Tombo, professor de Latim. Na dedicatória do seu Tratado da Província do Brasil (1568) à rainha D. Catarina, Gândavo afirma que vivera alguns anos no Brasil (talvez, entre 1558 e 1572, na capitania da Baía ou de S. Jorge de Ihéus e de S.Vicente), sendo a obra fruto da sua ‘experiência’ pessoal, e elogia, tal como outras narrativas de exortação à colonização da altura, a diversidade e a abundância do território. Por volta de 1569, o autor termina uma segunda versão dessa obra, na qual inclui um novo capítulo sobre a descoberta de minas de ouro na Baía (cf. Hélio Viana, 1953), o Tratado da Terra do Brasil, que apenas seria publicado em 1826. Em 1574 publica as Regras que Ensinam a Ortografia da Língua Portuguesa, com Um Diálogo que adiante se Segue em Defensa da Mesma Língua, a gramática que tem 3 edições e se torna a mais lida em Portugal no século XVI. Em Agosto de 1576, no ano em que termina a primeira História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil (1576) é nomeado provedor da fazenda em São Salvador da Baía, não se sabendo muito mais sobre a sua vida. Esta História da Província de Santa Cruz é dedicada a D. Leonis Pereira, com quem o autor privara no Oriente, e funde as às já referidas versões anteriores e inclui um capítulo novo sobre o quotidiano dos colonos, tendo sido eliminados alguns excertos mais ‘fantasiosos’. O livro ocupa-se da paisagem natural (fauna, flora abundantes e desconhecidas) e da paisagem humanizada (crenças e costumes dos vários grupos étnicos brasileiros) do vasto território, mas sobretudo a região costeira entre Itamaracá e São Vicente, que seria de toda a utilidade colonizar.
"História da Província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil", de Pero de Magalhães de Gândavo, pode e deve ser considerada, com justiça, a primeira obra específica sobre a história do Brasil.
Escrita durante quase 20 anos por Pero de Magalhães de Gândavo, teve sua última versão original finalizada em 1576 e levada à edição em Lisboa pela oficina tipográfica de Antônio Gonçalves (o mesmo que editou, pela primeira vez, Os Lusíadas, de Luís de Camões). Setenta e seis anos após o descobrimento, essa é a primeira obra efetivamente dedicada ao país, inaugurando sua historiografia e geografia.
Apesar disso, a obra de Gândavo permaneceu esquecida e praticamente desconhecida por quase três séculos até ser (re)descoberta pelo francês Henry Ternaux em 1837. Depois disso, em 1858, foi novamente editada em português no Brasil e em Portugal, ocasião em que obteve alguma divulgação.
Em quatorze capítulos demarcados, Gândavo traz, de forma leve, didática e clara, uma descrição historiográfica das terras, animais, índios, capitanias, capitães, plantas, aves e costumes do Brasil. Curioso, no ponto, é o fato de Gândavo não aceitar o nome "Brasil" e preferir chamar de Santa Cruz a terra que descreve em seu livro. Sua intenção explícita e expressa no livro é atrair colonos para Santa Cruz e demonstrar que ali é possível levar uma vida próspera e confortável.
A forma como descreve costumes, animais, plantas e índios dá tom ao ótimo relato de Gândavo sobre a terra ainda pouco conhecida na Europa. Uma pena que, mesmo hoje, essa joia de nossa historiografia seja tão pouco conhecida do público em geral. Leitura sensacional e obrigatória aos que gostam da história do Brasil.