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232 pages, Paperback
First published May 1, 2016
Hoje, ando com meia dúzia de euros no bolso. Aproveito o pão de um dia para o outro. Aponto o frasco do champô à palma da mão e meço uma noz. Não é gosto na privação nem tão pouco será ainda o dom da avareza: é horror ao desperdício. Podia ter sido a cidade a ensinar-mo. Foi o campo.
Quem me falava das estrelas era o meu avô. Punha-se no jardim a dobrar o lenço-da-mão, e fazia o seu ar pesaroso. Falava-me de Cassiopeia, das Ursas, de Andrómeda. [...] Em Lisboa era difícil ver as estrelas. Eu vinha à varanda com o gin na mão, para impressionar as raparigas, e não encontrava uma fosse. Creio que foi aí que comecei a dividir as terras entre aquelas onde se pode ver as estrelas e aquelas onde não se pode.

Quem mudou o mundo não foram os camponeses honestos, que pagaram os seus impostos e encheram a igreja da freguesia no dia em que foram a enterrar. Dos aventureiros, dos inventores e dos facínoras – deles sim, reza a História.
Por isso se inventou a literatura.
Esta semana, o meu vizinho Rogério, que é continental, descreveu-me assim os Açores: «Um lugar onde nunca se chega e de onde nunca se parte.» Quem me dera ter sido eu a escrevê-lo.