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Ana de Amsterdam

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Ana Cássia Rebelo é uma mulher com suas horas bastante ocupadas, dividindo seu tempo entre o emprego como advogada numa repartição, os três filhos ainda pequenos e um casamento já desgastado. Nessa rotina, que oscila sempre entre o tédio da segurança e o desejo do inesperado, Ana encontra lugar para escrever. E foi assim que surgiu, em 2006, o blog Ana de Amsterdam, em que ela ia registrando esse movimento pendular entre pequenas vitórias e grandes angústias. Das postagens do blog, imensamente literárias apesar de intrinsecamente efêmeras, o jornalista e crítico português João Pedro Jorge pôde organizar uma obra que funciona como diário íntimo, em que os pequenos textos são datados, e vão desenhando uma personagem rica, um tanto misteriosa, capaz de confundir o leitor entre uma doçura maternal e uma rascante agressividade.

Com um histórico depressivo, muito inteligente e sensível, o que vemos na sucessão dos dias dessa narrativa fragmentada é o retrato subjetivo da chamada mulher moderna, esse ser quase indefinível. Ana sente desejo e nega-o, ama os filhos, mas se sente sobrecarregada, se apega à vida por detalhes, e encontra o sentido perdido no cotidiano doloroso em um pôr do sol bonito numa cidade indiana. Com parte da família em Goa, essa terra misteriosa em que a Índia fala a língua portuguesa, Ana desenha no país distante a possibilidade de descobertas – como antigos navegadores buscavam especiarias. A mesma busca se dá por uma sexualidade crua, em que não há tabus, e a frigidez, a masturbação, o desejo doente são temas tratados corriqueiramente, conceitualmente e na linguagem – limpa, crua, direta.

O resultado desse conjunto coeso de pequenas narrativas é um livro escrito em uma prosa brilhante, que se a filia a nomes como Sylvia Plath e Virginia Woolf, no que todas têm de prosadoras poderosas e marcantes – também finca o pé em certa tradição nacional portuguesa, e o conjunto de fragmentos do livro lembra o Livro do desassossego, de seu conterrâneo mais ilustre.

Que o leitor se embrenhe nessa prosa primorosa. Que descubra a literatura contemporânea portuguesa, e que, atentamente, descubra o poder da narrativa feminina.

“Uma das vozes mais aguardadas no panorama editorial português. As suas palavras não desiludem a expectativa gerada.” – O PÚBLICO

192 pages, Paperback

First published February 18, 2016

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Ana Cássia Rebelo

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Profile Image for Paula Mota.
1,680 reviews572 followers
November 30, 2021
Ando a ler, há já algum tempo, o diário da V.W. Com calma e vagar, não tenho pressa, aliás, antecipo que sentirei um certo vazio quando acabar de o ler. (...) Mas, confesso, o que mais gosto é de a acompanhar no seu dia-a-dia. No dia 7 de Julho, Virginia arrancou três dentes e, no dia 3 de Agosto, passeando pelos campos de Richmond, encontrou uma colónia de cogumelos.

Cada vez gosto mais do género diarístico, estes relatos sobre o quotidiano em que, aos poucos, vamos formando uma ideia da personalidade da pessoa, da sua vida e do seu passado.

Esta noite não fumarás. Cigarro atrás de cigarro. Até ficares com gosto e cheiro de estrebaria na boca. Esta noite não beberás. Esta noite não lerás. (...) Esta noite não escreverás. Só deve escrever quem sabe. (...) Esta noite não tomarás os compridos que escondes numa caixinha de cartolina roxa por baixo das cuecas e sutiãs. Estás demasiado cansada para morrer.

Fazem-me abrandar, seguir um ritmo que não o meu e passar alguns momentos numa cabeça que não a minha.

Pesa-me a rotina dos dias iguais. É como se os dias da minha vida tivessem sido produzidos em massa, em fábricas assépticas, reluzentes. Todos com o mesmo peso, a mesma forma, o mesmo rótulo, as mesmas cores pardacentas. Inodoros, com um sabor indefinido, aguado.

Ana Clara é jurista, vive nos subúrbios de Lisboa, tem três filhos e, por sua vez, é filha de um casal que voltou de Moçambique após a descolonização, sendo que o pai é um indiano de Goa.

Não sabia o exacto significado da palavra retornado. Sabia apenas que era uma palavra terrível. Provocava na minha casa discussão e lágrimas. (...) Porém, mesmo não sabendo exactamente o que significava ser retornado, não quis naquela tarde ser a filha do indiano retornado. (..) Eu vivia na sombra mágica da tia Dé, comunista, tão doce, mostrava-me livros, canções, falava de coisas bonitas, igualdade e liberdade. Ignorava o meu pai austero, magoado, revoltado, assumidamente salazarista.

Visitava amiúde o blogue “Ana de Amsterdam” no período abarcado por este livro, 2006-2014, mas nessa altura era ainda demasiado fresca e fofa para alcançar a alma negra de Ana Cássia Ribeiro e dar valor a alguns dos assuntos por ela abordados.

No dia em que se matou, fez canja de galinha, uma panela enorme, para que fosse servida aos que viessem velá-la. E deixou os anéis e os brincos em cima da cómoda, sobre um naperão de linha fina, para que ninguém lhos tirasse. Sempre estranhei a sua morte por ser uma mulher simples, com uma vida simples, de hábitos simples. Achava, naquele tempo, que se suicidavam apenas os escritores, os pintores, os poetas, enfim, os tolos que esperam demasiado da vida. O suicídio, parecia-me, exigia sensibilidade, e a minha tia Ercília não a tinha.

Os relatos que faz da sua intimidade são incómodos, alguns comentários são adstringentes, os seus pensamentos suicidas são muito perturbadores, mas a forma como expressa a sua depressão crónica é avassaladora.

Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei porque vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita. Petrifica-me. Torno-me um cristal baço. Uma mancha de bolor.

"Ana de Amsterdam” tem também uma vertente mais ficcional, com um punhado de histórias sobre mulheres de que gostei muito.

MARIA ADELAIDE
(...) Só quando viu o seu ar macilento, a cicatriz no lábio superior, o cabelo num desalinho, os olhos encovados, o aborrecimento de uma vida plasmado no rosto feio, percebeu o que sentia. Era frustração e vergonha. Nada mais. A sensação de que Deus a gozava. Novamente. Nascera para ser gozada.
Profile Image for Ana.
751 reviews114 followers
March 20, 2022
Não conhecia o blogue Ana de Amsterdam, mas ouvi falar deste livro, primeiro no fórum do BookCrossing, depois no Goodreads e por fim, uma entrevista com a autora num jornal, foi o empurrão final que me fez pegar nele. Não é um livro “feliz”, mas não me arrependi da leitura.

A Ana revela-nos a sua intimidade de uma forma que é impensável para a maioria das mulheres, daí estes relatos, apesar de incómodos, serem tão preciosos. A preguiça, o desejo, a frigidez, a masturbação, os pensamentos cáusticos acerca de terceiros, quase a roçar a arrogância, as descrições escatológicas, tudo coisas banais quando aplicadas a personagens masculinos, mas raras quando se trata de mulheres, e ainda mais quando os relatos são na forma de memórias ou diários, como é o caso.

O livro não é feliz porque está cheio de sofrimento, algumas partes são mesmo bastante perturbadoras, como as repetidas referências ao suicídio e à depressão, que me ajudaram a compreender um pouco melhor algumas amigas próximas.

Uma vez por mês, esta a exacta periodicidade da sua visita, chega-me uma tristeza grande. Não traz desespero nem pensamentos sombrios; há muito tempo que não imagino pulsos cortados, nem pés descalços sobre o parapeito de uma janela, nem o vento frio na plataforma de uma estação de comboios. A tristeza traz só tédio, escava um buraco no meu corpo, ali se aninha e descansa.

Mas também há humor, e sobretudo uma escrita forte e muito bela, em especial quando descreve as suas raízes mestiças e as vivências goesas.

É complicado ser-se de toda a parte e não se ser de sítio nenhum. É difícil ter tantas raízes. Umas compridas, que atravessam países, mares fronteiras para fundarem lá longe, perto do Rio Zuari, onde há quintais com cobras e a claridade do crepúsculo tem a cor da clara do ovo. Outras que se estendem além-Tejo, por serranias de giestas habitadas por zorras e homens que matam a sede bebendo por cochos de cortiça. Outras raízes que latejam memórias antigas, familiares, cheias de bichos: hipopótamos, jacarés, morcegos, leões, macacos, lagartas leitosas que vivem sob a minha pele. Outras ainda, imaginárias, que teço, que quero ter, que só por incompetência do destino não são minhas. São raízes que acrescento às reais, que atravessam o Atlântico para se apaziguarem num lugar onde todos, ou quase todos, são como eu, mestiços.

Apesar de principalmente centrado em si própria, como é natural num diário e ainda mais, no diário de alguém que sofre de depressão, também se encontram textos que falam das vivências de mulheres de outras gerações, de que gostei bastante.

Pela manhã, ao pequeno-almoço, li um conto da Katherine Mansfield. Nas primeiras páginas, a escritora neozelandeza descreve o alívio que as mulheres de uma família inglesa sentem quando Stanley, marido, cunhado, pai, filho, sai de manhã. (...) A casa volta a ser um lugar doce, tranquilo, feminino: as mulheres aproveitam o fresco do jardim, notam os detalhes do mundo, tomam banhos de mar, gozam o prazer de falar sem ter ninguém a perturbá-las. Até Alice, a empregada, é atingida por essa inconveniente felicidade, lava a loiça na cozinha, despreocupadamente, estouvadamente, desperdiçando água. “ Já foi? Já! Oh, que alívio, como as coisas ficavam diferentes com o homem fora de casa. Até as próprias vozes pareciam mudadas, quando se chamavam umas às outras; soavam quentes e cheias de ternura, como se estivessem a partilhar um segredo”. (...) De imediato, me aflorou ao espírito o alívio que a minha mãe sente quando o meu pai parte sozinho para Goa. Os seus olhos ganham brilho, às vezes, surpreendo-a a cantar pelos cantos da casa. Parece uma outra mulher, alegre, tranquila. A minha mãe desfruta, com discrição, dessa calma, mas, um dia, no quarto da tia Dé, depois de trocar a fralda ao João, levantou os olhos e perguntou-me “Mas por que é que eu me sinto tão bem quando o teu pai não está cá?” Logo a seguir, como se temesse a sinceridade da minha resposta, baixou os olhos e começou a rir-se nas momices do neto mais novo. A minha mãe não o confessa abertamente, mas, pela alegria das conversas, pelo brilho dos seus olhos, é evidente que se sente menos tensa quando o meu pai não está. Parece libertar-se de qualquer coisa que a sufoca lentamente. No entanto, passado algum tempo, como se se sentisse intimamente culpada por esse bem-estar, começa a insistir que tem de ir para Goa. “Tenho de ir ter com o vosso pai”, explica, “Não tem ninguém que trate dele, a Ligorina só cozinha aquelas comidas condimentados que lhe fazem mal à pancreatite”. É um discurso forçado, mas adequado à sua condição de mulher de setenta anos. Mete-se sozinha no avião e vai ao encontro do meu pai. Fica por lá três, quatro meses. É um tempo de profunda agonia e solidão. O meu pai ama a minha mãe, tem por ela um amor antigo, comovente, mas isso não significa que cuide dela, que a abrace, que lhe preste atenção. Passa os dias em bancos, repartições, conservatórias, serviços. A minha mãe nunca o acompanha nessas andanças, fica na casa de Maina, sem ter ninguém que a leve a Margão ou a Pangim. Penso nela muitas vezes. Como ocupará o tempo dessas longas horas de solidão? (...) Às vezes, a solidão da minha mãe torna-se incomportável. Telefona, choraminga, diz não aguentar as saudades dos filhos, dos netos, da irmã. Desafio-a a meter-se no avião e a voltar para perto de nós. A reacção da minha mãe é sempre igual. Emudece o choro e, num tom firme, quase irritado, responde-me: “O meu lugar é ao lado do teu pai”.
Profile Image for Rita.
912 reviews190 followers
April 23, 2022
Nunca me cruzei com o blog Ana de Amsterdam, e se ouvi a música com o mesmo nome, do Caetano Veloso, passou-me bem ao lado.

O blog, e após ler este livro, parece-me a versão moderna, bem século XXI, dos antigos diários. Em outros tempos os diários eram objectos quase secretos, fechados a cadeado, longe das vistas dos curiosos, onde meninas e mulheres debitavam os seus sonhos, amores, preocupações, frustrações…enfim os pensamentos mais íntimos e pecaminosos. Depois chegou a internet, e começou-se a partilhar com o mundo aquilo que até aí era privado. Ainda bem, assim podemos observar vida alheia, embora sejam poucas as vidas que têm realmente interesse.

Em posts curtos e avulsos a autora fala de forma despudorada de problemas comuns a um sem número de mulheres: depressão, solidão, maternidade, monotonia, apatia, falta de desejo, tristeza, suicídio etc.

Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei porque vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita. Petrifica-me. Torno-me um cristal baço. Uma mancha de bolor. Uma estátua grotesca. Repelente. Torno-me uma fêmea de jacaré ou caimão. Sou uma fêmea de caimão. Sei, com precisão, onde, no meu corpo, se aloja a tristeza. Sinto-a aninhada na traqueia, perto da laringe e da faringe. Nas imediações da glote. Provoca-me náuseas. Vontade de vomitar, também. Hoje, durante o almoço, transformou-se em lágrimas e escorreu sobre a sopa de agriões.

É um livro perturbador, angustiante, que incomoda, que nos tira da zona de conforto, que nos questiona sobre o papel da mulher na sociedade.
Gosto da forma directa de abordar os temas, gosto do politicamente incorrecto, da transparência e do assumir opiniões diferentes da norma instituída.

Detesto estar grávida. Sempre detestei. Perco o controlo do meu corpo. Passo a ser um mero invólucro. Uma cabaça. Um casulo.

Alguns textos são de uma sinceridade visceral, esmagadora.

Sentada na sanita, as calças do pijama enroladas no chão, o cheiro adocicado da urina a espalhar-se pela manhã, pus-me a contá-los, setenta e um, setenta e dois, setenta e três, enfim, um coquetel de considerável letalidade. Além de antidepressivos e ansiolíticos, tenho também vários analgésicos, cinco Clonix e sete Voltaren, não servem para matar, mas sempre ajudam à festa. (…) Não tenho coragem de os tomar, mas aliviava-me saber que os tenho ali, à mão de semear, prontos a livrar-me de uma angústia maior.

A busca incessante por algo maior é constantemente marcada por decepções.

Pesa-me a rotina dos dias iguais. É como se os dias da minha vida tivessem sido produzidos em massa. Em fábricas assépticas, reluzentes. Todos com o mesmo peso, a mesma forma, o mesmo rótulo, as mesmas cores pardacentas. Inodoros, com um sabor indefinido, aguado. Pouco apetecíveis. Dias iguais. Sempre iguais. Iguais como os pacotes de leite, de farinha, de açúcar, que se enfileiram, aprumados, nas prateleiras dos supermercados. Pesam-me os silêncios, as ausências. Às vezes, tenho a sensação de que dentro do meu corpo habita um bicho voraz que se alimenta da minha tristeza. Uma espécie de tumor que cresce à medida que os dias passam iguais. E se um dia o bicho-tumor tomar conta de mim? E se um dia ele rebentar dentro de mim, espalhando, pelos meus órgãos, tecidos, artérias, pedaços putrefactos dos meus dias?

Se Ana Cássia Rebelo é Ana Clara ou vice-versa pouco importa. Ana tem uma voz muito própria, muito fora da caixa e acaba por representar-nos a todas.

Suspirava de alívio por não ter herdado as características físicas da minha avó paterna, Maria Aninhas Valadares, mas estranhava a importância que a minha mãe dava ao torneado das nossas pernas. Vivíamos num mundo de mulheres recentemente emancipadas — na certeza da legalidade escrita, as mulheres eram iguais aos homens. Proibia-se a discriminação. As mulheres tinham exactamente os mesmos direitos que os homens. Bastava-lhes o seu trabalho, o seu valor e competência para serem reconhecidas. As mulheres haviam de ser amadas apenas pelas suas ideias, pela firmeza do seu carácter, pela sua sensibilidade. A conversa da minha mãe, dando importância ao corpo, antecipando um tempo de volúpia e desejo, ofendia, e de que maneira, o meu precoce feminismo, era um retrocesso intolerável, um sinal de atavismo e ignorância. Havia, porém, muito acerto nas suas palavras. Sei-o agora, o corpo é uma arma, e uma mulher deve usá-lo em todas as ocasiões: fazer pontaria, olhar pela mira telescópica e puxar o gatilho sem misericórdia ou piedade.
Profile Image for Ana Castro.
338 reviews148 followers
January 28, 2022
Segui durante os anos áureos dos blogues este - Ana de Amsterdam - que me chamou a atenção pela maneira descontraída como a autora se expunha .
Também me aventurei nessas lides por sentir que a escrita era uma catarse que me ajudava a organizar os meus pensamentos e ideias.
No entanto só o partilhei com alguns amigos .
Ana Cássia escreve muito bem e por isso foi descoberta por João Pedro George e convidada a publicar .
Gostei de ler alguns posts que não conhecia e reler outros .
Não fica atrás das crônicas de muitos que se intitulam escritores .
Ana Cássia é uma mulher deprimida com tendências suicidas e uma tristeza que dói.
Espero que a publicação deste livro lhe tenha dado alegria de viver .

Pela minha parte acho que valeu a pena .

“Quem não tem dentro de si alguma tristeza e solidão não é gente.É personagem de anúncio de televisão. “

“Hoje não sei explicar porquê voltei a acordar triste. Não me importo que a tristeza volte. Se vier só , abro-lhe a porta, deixo-a instalar-se dentro de mim. É o desespero que me assusta “.
Profile Image for Tânia.
483 reviews
July 5, 2015
Ana Cássia Rebelo é autora do blogue Ana de Amsterdam. O livro Ana de Amsterdam reúne uma selecção de posts publicados naquela plataforma digital, ordenados cronologicamente. Nos curtos textos que compõem o livro, a autora mistura experiências autobiográficas com exercícios de ficção, sendo predominante os relatos autobiográficos, quase em tom confessional e de diário. Neles fala de temas tão sensíveis como a sua depressão, a frigidez, como o facto de ser mãe de três de filhos não a realiza como mulher, com os episódios de desespero e vontade de cometer suicídio, o seu orgulho pelos filhos, o fascínio pela sua ascendência goesa.
Acho que vale a pena ler o livro ou pelo menos conhecer o blogue (http://ana-de-amsterdam.blogspot.pt), pela sinceridade imprimida na escrita cuidada e incisiva, pela coragem da autora em que se expor inteira. Não acho um livro depressivo, acho um livro realista de alguém que tem consciência que está doente e que muitas vezes utiliza a ironia para relativizar isso. O primeiro post do livro é disso bom exemplo:

“É HOJE A CONSULTA COM O NOVO PSIQUIATRA. Embirro com psiquiatras, psicólogos e afins. Vai ouvir-me falar durante meia dúzia de minutos. Vou ter de resumir a minha tristeza e solidão em frases contidas, curtas, concisas. Ainda não sei se lhe hei-de falar da frigidez. Não é fácil confessar-me assim, feita de gelo. Depois de me ouvir, o senhor doutor vai dizer que estou com uma depressão profunda. Que novidade… Se calhar até vai dizer que não sou frígida coisa nenhuma, que em mim há apenas uma diminuição da libido provocada pelo estado depressivo, pela astenia física e psicológica. Em seguida, vai preencher o diário terapêutico com os medicamentos que me tratarão. Há-de lá pôr o Cipralex, o Xanax e outros medicamentos que conheço tão bem. Também me receitará um laxante. Toda a gente sabe que ansiolíticos e antidepressivos provocam obstipação feroz e de difícil alívio. Com sorte, durante a consulta, em vez do ar pesaroso, talvez faça um ar descontraído para desdramatizar a situação. No final, à despedida, aconselhar-me-á uma lista de terapeutas que deitarei no primeiro caixote do lixo que encontrar.”

E este:

“O cipralex acabou-se antes do esperado. Eu deixei andar. Dois ou três dias sem tomar o dito medicamento não faz mal a ninguém. Foi o que eu pensei. Sucede que ao terceiro dia sem cipralex comecei a sentir tonturas e náuseas. Leves, levezinhas, como um manto de gaze diáfano pairando sobre mim. Ao quarto dia, para além das tonturas e das náuseas, já evidentes, comecei a sentir tremores, tremeliques e um formigueiro que se iniciava nos dedos dos pés e, coisa estranha, estranhíssima, me saía pela boca. De imediato percebi o que se passava. Era o meu corpo que se ressentia da falta do medicamento. (…) Meti-me num táxi e rumei à primeira farmácia de serviço que encontrei. O mundo continuava a girar à minha volta, tremelicando por todos os lados, bruxuleando como a luz de um pedaço de vela. E as formigas malditas, essas não me largavam os lábios. Uma sensação, grande, de desconforto e insegurança tomava pois conta de mim. Para minha irritação, quando entrei tinha duas mulheres à minha frente. Sentei-me. A primeira pediu trifene. Bufei. Resfoleguei como os búfalos que conheceram o meu pai pequenino, lá longe, nos prados de Goa. Uma dor menstrual tem lá comparação com a ressaca provocada pela falta prolongada de um anti-depressivo? Já tive dores menstruais. Até já tive filhos sem anestesia. Não custa nada. É uma dor física que o corpo aguenta. A segunda mulher pediu palmilhas de silicone anti derrapantes para os sapatos. Aí não aguentei e reclamei que aquilo era uma farmácia de serviço, não uma para-farmácia. A farmacêutica, do outro lado do balcão, insolente, disse-me para esperar. Tive saudades, tantas, da empregada do senhor doutor, a tal Cristina, tão simpática, tão subserviente, tão senhora doutora para ali, senhora doutora para acolá. Encolhi-me. A empregada demorou imenso tempo a mostrar palmilhas de silicone à velha que estava à minha frente. Eu a morrer devagarinho. Por fim, lá se dignou a atender-me. Quando viu a minha receita, olhou-me em silêncio. Eu olhei-a de volta, prestes a desfalecer. Mal saí da farmácia meti um cipralex à boca. Passados poucos minutos o mundo parou de tremer.”

E mais este:

“A Dina trabalha há muitos anos no minimercado que fica nas traseiras do meu prédio. No início do ano lançou um romance e partilhou o acontecimento com os clientes habituais. Caí na tentação de lhe confessar que também andava a escrever um livro. Expliquei-lhe ainda que, se corresse tudo bem, o livro sairia em Setembro. Desde então temos conversas muito interessantes sobre o processo de criação literária. Acontece que, por cansaço, também falta de talento, o meu livro não saiu em Setembro. A Dina, cada vez que me apanha, insiste em querer saber quando é que será publicado. Respondo-lhe evasivamente, às vezes, finjo-me distraída e não digo nada. Há coisa de quinze dias, contou-me que escreveu um segundo romance. Sairá em Novembro. Dei-lhe os parabéns, forçando um sorriso amarelo. Enquanto ensacava as compras, notei-lhe um brilho de vaidade no olhar, como se me dissesse assim, toma lá, não consegues acabar o teu livro e eu já despachei dois. Senti-me magoada. Não mereço o despique e até lhe trouxe uma lembrança de Goa.
Ontem, numa grande livraria, procurei o livro da Dina. Encontrei-o com facilidade na bancada dos livros coloridos. Tem uma capa cheia de brilho e traz uma linda cinta a explicar que se trata de uma história de amor, com um travo picante de erotismo. Li páginas soltas e não tardei a pensar, muito aliviada, que merda, que grande merda, o que demonstra bem a minha mesquinhez e não desmerece a escrita da Dina. Li as primeiras cinquenta páginas do último livro do Coetzee, obra aclamada pela crítica – desconcertante, assombroso, alegoria não sei do quê -, e pensei exactamente o mesmo, que merda, que grande merda. Não voltei a entrar no minimercado. Não sou capaz de enfrentar a alegria da Dina e humilha-me ser confrontada com o meu fracasso. A decisão, porém, causa-me transtorno. Agora, se preciso de salsa, fiambre, pão, massa para a canja, tenho de caminhar durante dez minutos até ao grande supermercado que fica na outra ponta do bairro. Não sou propriamente rancorosa, mas penso muitas vezes que era bom que a Dina fosse despedida. Poderia dedicar-se a tempo inteiro à escrita, apurar o estilo, quem sabe até ganhar um prémio literário. Eu ganhava o minimercado de volta.”


Felizmente as plataformas digitais permitem tornar públicos muitos talentos que se dedicam ao exercício solitário da escrita no anonimato de quatro paredes. É mais um argumento a ter presente quando ouço os velhos do Restelo a discorrerem sobre os tempos actuais e os malefícios das novas tecnologias.
Profile Image for Pedro Gomes.
Author 2 books18 followers
January 15, 2024
Ana Cássia escreve muito muito bem. Como poucos.

É preciso tomar um ângulo particular, reparar na insignificância significante e iluminá-la; olhar para todas as coisas, e sobretudo para si própria, com uma crueldade doce; e, depois, cantá-lo numa prosa felina, que procura o calor do leitor.

Ana de Amsterdam e Babilónia são dois livros acutilantes, lâminas sem rombo, onde, apesar de toda a tristeza, nos encostamos com um sorriso.
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews39 followers
October 10, 2021
Aqueles que, como eu, tiveram a oportunidade de escutar Ana Cássia Rebelo numa das mesas do Festival Literário de Ovar, em Setembro passado, terão intuído nela uma mulher singular, alguém que assume frontalmente os traços de uma personalidade depressiva e que se serve da escrita “quase como uma terapia”. Marcadamente autobiográfica, a fazer fé nas suas palavras, a escrita apareceu na sua vida de forma quase acidental, mas acabou por se transformar num vício. É, se bem entendo aquilo que nos quer dizer, uma escrita verdadeira, muito auto-focada na autora e nos seus problemas, “uma devassa da intimidade”. Frontal, sem papas na língua, Ana Cássia Rebelo faz questão de mostrar o seu lado crítico, questionando a moral e os bons costumes e deixando no ar a ideia que “no dia em que deixar de escrever vai-se o meu Inferno.” Até lá, persiste. Insiste.

“Ana de Amsterdam” começou por ser nome de blogue. Na primeira entrada, um poema de Chico Buarque empresta-lhe a força e a coragem: “Sou Ana do dique e das docas / Da compra, da venda, da troca de pernas / Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas / Sou Ana das loucas / Até amanhã / Sou Ana / Da cama, da cana, fulana, bacana / Sou Ana de Amsterdam.” Abrangendo um arco temporal superior a oito anos, uma selecção desses textos encontra-se agora reunida num livro com o mesmo nome do blogue, ao encontro de “uma mulher cheia de falhas, que se expõe cruamente, não raro com uma certa dose de autoflagelação (…), uma mãe que deu mil voltas ao seu interior e tem a coragem de nos revelar espontaneamente (sem literatices, sem culto da dor, sem explicações pomposas) o seu inferno íntimo e o que de mais secreto ele tem”, como escreve João Pedro George no prefácio ao livro.

Intenso, penetrante, mordaz, tenaz, corajoso, “Ana de Amsterdam” começa por ser uma pequenina folha que rompe a terra húmida e acaba por se transformar numa densa e luxuriante floresta, cheia de cores e cheiros e sons e frescura. Nele, o banal toma o lugar do universal. Com Ana Cássia Rebelo, olhamos o “lugar comum” e percebemos o quanto de incomum pode encerrar. Ancorada na observação dos pequenos nadas que preenchem os nossos dias, a autora entreabre-nos portas da nossa própria existência, lembrando-nos o quanto certas “divisões das nossas casas” precisam urgentemente de ser arejadas. Com mais ou menos Xanax ou Cipralex, com mais ou menos angústia e solidão, “Ana de Amsterdam” é a vida como ela é, feita de consultórios assépticos, anúncios para a disfunção eréctil, duas mulheres que dançam ao som dos tangos de Carlos Gardel, peças de dominó e marmelada de pilritos.
Profile Image for Fran.
128 reviews9 followers
December 9, 2016
Dei muitas risadas lendo o livro, inclusive no transporte público, pela forma sincera como a autora coloca as coisas que a incomodam, que a distraem e, também, as que a fazem feliz. Senti uma conexão com as histórias, com os sentimentos e pensamentos... O tempo todo da leitura é quase como uma conversa, como ouví-la contar bem ali ao seu lado.

A escrita de Ana Cássia Rebelo é honesta, poética e bem humorada. Não faz firulas e trata do que é real. São causos que fazem parte do cotidiano de todos nós e também sensações que todos temos e procuramos omitir. Caracteriza bem alguém que usou da escrita como terapia, como forma de não se deixar levar pela tristeza e a vontade de dar cabo à própria vida. E, mais importante, alguém que encontrou sua voz na prosa e se fez ser ouvida através dela.
Profile Image for Helena Romera.
54 reviews16 followers
March 10, 2017
Tem tudo pra ganhar o prêmio de livro mais triste que vou ler nesse ano. Em algumas partes tive que parar e dar um respirada, pra tentar passar por cima do que estava escrito. e a escrita também é linda, faz o livro ter ainda mais sentido
Profile Image for Agostinho Matos.
189 reviews
August 31, 2020
O título deste livro que remete para a famosa canção de Chico Buarque, é uma obra literária composta por textos selecionados a partir do blogue «Ana de Amsterdam» (http://ana-de-amsterdam.blogspot.com/), e embora exista um site chamado “https://anadeamsterdam.com/”, verifica-se que não está relacionado com a autora do citado blog.
A seleção dos melhores e mais notáveis textos foi feita pela autora juntamente com o escritor João Pedro George, com objetivo de apresentar um livro tipo diário com uma escrita franca e abrasiva de Ana Cássia Rebelo, que apesar de ter o seu blog sem atualizações desde junho de 2017, mas no entanto publica pequenos textos no Facebook, e que eu faço questão de ler regularmente com prazer.
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews84 followers
July 2, 2015
"2012/12/11
Irmã

Certa vez instruí a minha irmã mais nova sobre o meu funeral. Uma mulher deve ser previdente e cuidar de todos os seus assuntos, incluindo a morte. Se há coisa que me aflige é imaginar-me enterrada num cemitério com vista para a cril ou para a crel ou para a radial de Benfica. Junto a um retail park. Pedi-lhe que me enterrasse no cemitério da aldeia, perto dos nossos avós, onde, mesmo morta, possa sentir o cheiro das figueiras e escutar o ronco das motorizadas que, pela tarde, levam os velhos de volta para os montes. Que tratasse de me arranjar uma campa rasa, com uma lápide branca, sem fotografias ou epitáfios. Que me vestisse a saia antiga, rodada, de veludo cotelê, me apanhasse o cabelo numa trança e colocasse nas orelhas as arrecadas incas que nunca fui capaz de lhe oferecer. Se for tempo das dálias e dos cravos túnicos que peça licença à vizinha Teresa e à Preciosa dos queijos, a que é belfa e usa sempre um chapelinho de palha, para os apanhar dos canteiros e os coloque numa jarrinha branca. Fi-la prometer que me enterraria sem a presença de estranhos. Quero um funeral selecto. Com quem gosto. E preciso. Pai, mãe, tia, irmãos, filhos, sobrinhos, as primas da aldeia. Mais ninguém. Pedi-lhe, ainda, que cantasse o poema: Quando eu morrer batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar chicotes, chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro ajaezado à Andaluza... A um morto nada se recusa. E eu quero por força ir de burro. Ai dela que não me faça as vontades! Pobre e querida maninha. Hei-de voltar, pior do que fui, um espectro medonho e terrível, para lhe fazer a vida negra.

(A minha irmã anda triste, a precisar de amparo. É uma novidade. Sempre foi ela que cuidou de nós.)"

https://youtu.be/IOsJqWYO3gc
Profile Image for María José.
111 reviews14 followers
June 7, 2016
Desde la primera frase del libro supe que me iba a gustar.
Me sonó tan cotidiano, tan normal, tan corriente el tono de la primera entrada que instantáneamente me interesó meterme en esta forma de ser desde el punto de vista de la persona que ES así. Ana tiene un tono sardónico y oscuro para hablar de sus rumiaciones y demonios, pero al mismo tiempo en cada entrada se vislumbra una tristeza vital que paraliza. Tanto así que me demoré dos semanas en terminarlo, porque cada vez que lo abría sentía una ola de letargo y desánimo caer sobre mí.
Sin embargo, el uso de lenguaje descriptivo de Ana que es tan simple y tan expresivo a la vez fue realmente iluminador. Nunca había leído estas cosas tan corrientes mostradas de esa forma. No sé cuántos pasajes y frases destaqué, perdí la cuenta.
Cuando pasaban y pasaban los años y al mismo tiempo no pasaba nada, la melancolía era palpable. Ni hablar del final. La tristeza misma. Recomendado.
Profile Image for Paula.
19 reviews1 follower
March 6, 2016
Daqueles livros que a gente termina de ler e fica com uma vontade de quero mais.
Escreve muito, essa mulher.

"22 de maio de 2007. Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei porque vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita. Petrifica-me. Torno-me um cristal baço. Uma mancha de bolor. Uma estátua grotesca. Repelente. Torno-me uma fêmea de jacaré ou caimão. Sou uma fêmea de caimão. Sei, com precisão, onde, no meu corpo, se aloja a tristeza. Sinto-a aninhada na traqueia, perto da laringe e da faringe. Nas imediações da glote. Provoca-me náuseas. Vontade de vomitar, também. Hoje, durante o almoço, transformou-se em lágrimas e escorreu sobre a sopa de agriões." (p. 37)
Profile Image for Inesbirrento.
132 reviews16 followers
November 13, 2018
Ana Cássia Rebelo é uma escritora fabulosa: acutilante, inteligente, provocadora, dura. Sou desde há alguns anos leitora fiel do seu blogue. Todavia, o livro não correspondeu às expectativas. Acho que o problema reside na selecção, que retira os pequenos textos do seu contexto original. A escrita fantástica da autora vive maravilhosamente no blogue, não tanto no livro.
Profile Image for Cintia Andrade.
487 reviews51 followers
March 17, 2016
Que escrita maravilhosa. Não se engane com todas as críticas que chamam a escrita de Ana de "delicada". É delicada e brutal e fala bem realisticamente sobre a depressão, maternidade, casamento, desejo de morrer, sexo. Me tocou demais.
19 reviews
November 12, 2025
Cru e mordaz.
Pensamentos inquietantes, observações duras e escrita muitas vezes impiedosa.
Maravilhosamente escrito por alguém que não teme a exposição de temas tão íntimos como a maternidade ou a sua sexualidade.
Displaying 1 - 20 of 20 reviews

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