Trata-se de um volume de 448 páginas que, além de vários inéditos, [Antemanhã, no princípio e Anteaurora, no fim], reedita os livros 'Explicação das árvores e de outros animais'; 'Homens que são como lugares mal situados'; 'Dos líquidos'; 'Uma cidade com muralha'; 'Oxálida'; e 'A casa dos ceifeiros'. A organização e o prefácio, intitulado 'Confidência', é de Vera Vouga. Revela ainda 13 poemas inéditos do espólio (dois no prefácio, cinco a abrir a sequência dos livros, seis a fechar).
DANIEL AUGUSTO DA CUNHA FARIA nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971. Licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, Porto, e em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Colaborou nas revistas Atrium, Humanística, Via Spiritus e Limiar. A partir de 1990, e durante vários anos, esteve ligado à paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses. Aí demonstrou o seu enorme potencial de sensibilidade criativa encenando, com poucos recursos, As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno. De entre os seus escritos dispersos incluem-se Oxálida(1992), A casa dos ceifeiros (1993), Explicação das árvores e de outros animais(1998) e Homens que são como lugares mal situados (1998), tendo ainda publicado o ensaio “A vida e conversão de Frei Agostinho: entre a aprendizagem e o ensino da Cruz (1999). Recebeu vários prémios literários relativos a inéditos de poesia e conto. Faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.
Entre a imensidão do Universo, o único ponto comprovadamente bafejado com o dom da vida é a Terra, o lar que recebeu nome de matéria mineral. De facto, num quase paradoxo, são os minerais os verdadeiros reis e senhores do vasto mundo. Não deixa de ser interessante atentar que eles e os seres viventes partilham de elementos químicos na sua constituição. Além do mais, a pedra marca presença em muitos momentos da história: em termos geofísicos, de rochas surgiram os planetas; em termos religiosos, cada crente é uma pedra viva dos lugares de culto; da pedra basilar se fundam as ameias de edifícios, cada vez mais possantes (numa tentativa de alcançar Deus?); a pedra tumular assume o estatuto de última morada para muitos. Confundindo conceitos, a pedra torna-se início e fim, alfa e ómega.
Guiado pela mão divina, que lhe talhou o curso da sua parca vida, Daniel Faria veste-se das mais belas vestimentas de alquimista das palavras e, como telescópio da visão de Deus, torna-se omnipresente e omnisciente, parte integrante da amálgama da Natureza-Mãe. Nos seus trabalhos de geólogo do “logos”, constrói obras de pasmar, concedendo vida dizeres descritos, que passam a existir por si, abandonando o estatuto de mineral, pelo condão de uma pedra filosofal. Esta oferenda é composta por parábolas lapidadas, numa homenagem aos textos bíblicos estudados, e episódios do quotidiano caleidoscópico, alusivos aos fotogramas patentes na memória, muitos são os elementos que se repetem – a pedra, a luz, a morte, a vida, os degraus, os peixes, as aves, os homens, as mulheres -, tudo intricado numa rede de trama fina, de modo a abarcar disparidades iniciais, que se clarificam e conectam com o avançar da leitura e a instigação a uma interpretação pessoal. Reunidas em diferentes partes (como o dia), não é de estranhar a ausência de referência à noite escura, dada a clara luz emanada destas escrituras proféticas. Apesar da magnificência como conjunto, prova feita nas marcas cravejadas não no exemplar mas no meu ser, dou especial destaque para “Últimas explicações” e “Do ciclo das Intempéries” (que inclui o magnifico “Magnólia”), pela conexão estabelecida, vivida e vivenciada em pleno – força motriz de algo belo.
Ao poisar esta “Pedra da Roseta”, sente-se um bafo de lirismo que impregna a respiração e cria uma película poética nos olhos daqueles que, brindados pela descoberta, tiveram o privilégio de navegar por este mar de símbolos. Verdade que o linguajar poético é uma constante metáfora que exige a busca do sentido figurativo, num esclarecimento de ideias. Todavia, essa tarefa encerra uma liberdade tamanha, porque as imagens obtidas são suplantadas pelas vivências unipessoais. Assim, vão surgindo diferentes pedras de um menir maior, labor de cada escultor que lhe aplicar o cinzel, para criar a sua estátua pessoal. Sem erradas nem certos, cada uma dessas estátuas representa mais um degrau, na escada metafísica da existência. No infinito último, descansarei, como Sísifo, e deixarei esta pedra – outra escada surgirá…
"Explicação do poeta
Pousa devagar a enxada sobre o ombro Já cavou muito silêncio Como punhal brilha em suas costas A lâmina contra o cansaço."
“Estranho é o sono que não te devolve. Como é estrangeiro o sossego De quem não espera recado. Essa sombra como é a alma De quem já só por dentro se ilumina E surpreende E por fora é Apenas peso de ser tarde. Como é Amargo não poder guardar-te Em chão mais próximo do coração.”
“Foram pétalas Ou olhos de deusas O que calquei?
Não Não digam
Eu sei Que foram sonhos”
“Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves Não é o serem atingidas, mas que, Uma vez atingidas, O caçador não repare na sua queda.”
"Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos E quero cair em desuso Fundir-me completamente. Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo Os focos celestes que a candeia humana não iguala Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer. Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te Voltado para mim Inclinado como a criança que quer voltar ao chão."
"Do inesgotável", Daniel Faria
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Termino o livro quando o tenho apoiado nas pernas; olho para ele ainda com espanto e só me ocorre dizer: "mas que livro incrivelmente maravilhoso". E formam-se as palavras, uma boca húmida com vontade de as cantar e de as dizer — Daniel Faria foi um dos encontros mais belos e singulares nas minhas incursões pela poesia, raras foram as vezes que senti este arrebatamento inicial (de forma tão premente, violenta e, ao mesmo tempo, tão apaziguadora). Tropecei na sua poesia durante a quarentena e comecei, aos poucos, a tocar em tudo o que lhe dizia respeito: daí até comprar o livro foram poucos passos... e agora que o li na íntegra, creio estar diante de uma nova paixão. Talvez um dia precisarei de editar a forma como me apresento e me defino, juntando à minha lista de poetas favoritos este tão luminoso ser, que escrevia como quem tem luz nas mãos e se oferece para nos guiar o caminho.
* Sou gémeo de mim e tudo O que sou é Distância. Estou sentado sobre os meus joelhos Separado. Aquilo que une É um rumor. Não descanso. Sou urgência De outro sítio. E pudesse velar-me Longe Dos homens como se neles Adormecesse. *
De veres o meu lugar. De me veres só Apagando a luz do quarto cada noite No escuro a respirar como um clarão. De me veres do lado exterior Muro, fenda no muro sem força Para esperar. De te hospedares em mim. De descobrires A posição da árvore fixa no crescimento Da árvore que agora sou circulando com dificuldade Do fruto cortado Para ocupar-me as mãos. De o veres empunhado como arma Para afastares o medo. De veres a casa. De estares à minha beira e no quarto ao lado Vazio, no vazio búzio De ocupares o vazio para o libertar. De veres a pedra branca dos meus olhos Seixo dos rins Pedra polida de tanto rebentar Primavera de si mesma. De anunciares em silêncio O nada que salva a minha mão perdida Remo à superfície teimando contra O peso ancora de fechar os olhos E inclinar O corpo afogado. De perdoares. Por ter-me apagado tão longe de ser luz De te ser lâmpada horas e horas, à noite E no Inverno. Da transparência que engana A presença do mundo Da obediência, da aceitação, do enjoo. De poderes abrir a vida como quem abre a casa Da casa que tu salvas com um sinal de sangue. De poderes arrastar a mesa para o centro da cozinha. De seres para ordenar colinas Campo cultivado Encosta declive da minha vida cobrindo-se de erva. De seres bênção, o alimento e a abundância E vasto Administrador de agua em redor dos pés Dos calcanhares, dos tornozelos Mendigo, servo, milionário no milagre. De acordares da espera Da doença, arbusto que minga sem raiz Da tua mão - a tua mão pode curar-me - Pequeno movimento De o seres às minhas redes Bunho e bulir Das folhas na paisagem. Da casa da paisagem. Estou por terra e vejo já do alto Com a saliva a saber-me Ao bolor do chão. De estar sentado e inútil - como se tudo à minha volta me cegasse - Apodrecendo a cadeira um odor da terra - como a tempestade - Cansado, cansado. Sem força para ver a tua face.
"Homens que são como lugares mal situados Homens que são como casas saqueadas Que são como sítios fora dos mapas Como pedras fora do chão Como crianças órfãs Homens sem fuso horário Homens agitados sem bússola onde repousem(...)
Homens mais voltados par um modo de ver Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro De si mesmo Homens tão impreparados tão desprevenidos Para se receber
Homens à chuva com as mãos nos olhos Imaginando relâmpagos Homens abrindo lume Para enxugar o rosto para fechar os olhos Tão impreparados tão desprevenidos Tão confusos à espera de um sistema solar Onde seja possível uma sombra maior.(...)"
"O que dói É não poder apagar a tua ausência e repetir dia após dia os mesmos gestos O que dói é o teu nome que ficou como mendigo Descoberto em cada esquina dos meus versos O que dói é tudo e mais aquilo que desteço Ao tecer para ti novos regressos"
(…) Também os corações dos homens ardem Bebem vinho, leite e água e não apagam O amor. (…) (p. 31)
Largo é o aberto abandonado E o vazio é pata que sustenta De leveza o ramo. O pássaro amanhece E o seu bico não fere o seu canto. (p. 34)
Tenho aflição por tudo o que morre. Como tenho pavor de cada noite que cai. Como fui esquecer o caminho para fora? (…) Vou pôr-me à mesa e esperar. Tenho aflição por toda a ausência não anunciada Acendi a luz por toda a casa e electrifiquei a voz. Agora posso ampliar o clarão dos gritos. (…) Vou-me sentar à mesa. Vou deixar arrefecer a comida. Fazer de conta que estou a esperar. (p. 41)
Houvesse um sinal a conduzir-nos E unicamentre ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores A incomparável paciência de procurar o alto A verde bondade de permanecer E orientar os pássaros. (p. 44)
1. Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página E aproveito o facto de teres chegado agora Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia. A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar Que digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita, Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor, Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre Apesar de nós. Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo, Mesmo que a recuses Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame, A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão. (p. 337)
Num tempo como este, que nos atola com tantas futilidades e distrações, a poesia de Daniel Faria aponta ao essencial. Lê-lo é uma verdadeira experiência espiritual.
O Daniel era um poeta exímio. Os primeiros poemas são mais poderosos, sem demérito para os últimos, mas são um outro tipo de escrita que, em comparação, parecem menos decididos.