“Alentejo Prometido” é um road movie familiar. O autor conta-nos uma história do Alentejo através de histórias familiares e memórias pessoais. O cenário é a região do Alentejo Litoral, sobretudo o concelho de Santiago de Cacém. Entre cidades e aldeias, o road movie lá vai descobrindo segredos familiares enquanto tenta lançar uma nova e implacável luz sobre uma região que se afoga há décadas em lugares-comuns. A ligar todos os quilómetros desta viagem, encontramos três temas: as mulheres, o suicídio e o complexo do desenraizado. O autor é filho de alentejanos que migraram para a Grande Lisboa nos anos 60 e sempre assumiu que encontraria a sua identidade perdida numa viagem deste estilo pelo Alentejo. Será que esse velho sonho resistiu à realidade?
Há um conflito de interesses a declarar antes de iniciar esta tentativa de opinião: sou alentejano e, quiçá por ter passado quase metade da vida fora das suas fronteiras, cada vez anseio mais por retornar a essas raízes, a essa pacatez que apenas pode ser inspirada no interior árido e seco. Devo ainda declarar, no entanto, que também tenho um costela transmontana e, nalgumas férias escolares, tive oportunidade de contactar com os usos e costumes dessas terras. Assim, tomada a decisão de de ler este livro, não o poderia fazer a não ser no sítio em questão. Deparando-me com descrições de um Alentejo inóspito, a tender para um faroeste sem lei, cresceu um sentimento de crispação por nunca me ter deparado com esse deserto de emoções, esse local de antipatia. Verdade que, entre a desertificação, a migração juvenil e o envelhecimento populacional, abundam as vestes negras, as caras cheias de rugas pela labuta ao sol, a espera à porta de casa, aguardando por algo que nem se sabe o que é nem tão pouco se virá. Neste saudosismo perdido, numa vida mergulhada no passado, surgiram problemas palpáveis: a bastardia e o incesto, para cumprir os trabalhos no campo e manter a prole, como Deus manda; o suicídio, como forma de encarar os desafios não debelados de outra forma; a violência misógina que oprime o sexo menor, à lei do punho, enredada nas batalhas travadas pelos antepassados; um individualismo radical, com a negação do sentido de família, só aflorada no carpideiro de um funeral. Contudo, considero que mais que os traços de um território, o autor foca-se em pormenores que caracterizaram o Portugal profundo, de uma determinada época, fazendo uma comparação entre os idos tempos e os actuais, com ênfase para determinadas questões sociais não tão discrepantes entre campo e cidade. Para além disso, que não se esqueça o facto de o Alentejo ter sido até há bem pouco tempo uma região esquecida pelos sucessivos governos, não apenas em termos económicos mas principalmente em termos sociais. E, quando relembrado, foi subjugado às vontades dos grandes senhores do litoral, com uma liberdade penhorada. Mas para retornar a conquistar esse bem precioso não é necessário negar o sangue que flui nas veias nem tão pouco advogar a necessidade de introduzir os meios tecnológicos, de forma massificada, nesta paisagem tão natural, onde o pôr-do-sol adquire cores que não atinge noutros locais. Não o digo por agora estar na moda, fruto da tendência para o turismo rural, mas porque o sinto todos os dias e orgulho-me dessas tradições que tenho impregnadas na pele (mais ainda quando visto o traje do Rancho e balho as modas antigas, pensadas para contrastar com as repressões escarninhas da época em que as costas vergavam ao sabor do trigo por ceifar). Sem querer aprofundar a celeuma, creio que o autor perde-se entre enumerações infundadas que enchem parágrafos, contradições e desdizeres com argumentos e contra-argumentos a roçar a bipolaridade e um sentimento de angústia face a uma história de família contada nas entrelinhas. Em certa medida, são mesmo estes segredos, escondidos na árvore genealógica, que criam um atrito entre ele e a sua terra natal, com um sabor agridoce associado e uma indefinição quanto às origens definidoras.
Fiquei muito desiludido quando acabei de ler este livro. Estava à espera que me surgisse uma raiva ou ódio viscerais que me compelissem a cometer actos de pura barbárie. Queria queimar livros, ameaçar de morte autores que exprimem a sua opinião ou simplesmente juntar-me ao coro dos indignados do facebook e soltar insultos sobre tudo e todos. Bem, nada disso aconteceu. Assim que li a última página fui até à cozinha e comi duas bolachas. Vou tentar imaginar que isto é uma forma de mostrar a minha revolta, uma espécie de grito do Ipiranga.
O que sei sobre o Alentejo é mínimo: não sou de lá, nem nunca lá fui; talvez a palavra mínimo seja um exagero e se aplique melhor o nada. Não posso negar veementemente as ideias que o Henrique Raposo apresenta sobre os alentejanos e a sua região, mas não consigo convencer-me com algumas generalizações que ele faz. Especialmente quando faz contraste com um Norte quase que idílico. Será que muito do que ele diz sobre o Alentejo, no que toca ao machismo por exemplo, não se aplica ao país inteiro?
No entanto, apreciei quando o autor desviava-se deste falar geral sobre uma região e concentrava-se mais na sua história familiar. Aí percebi o porquê deste afastamento emocional do escritor das suas raízes. Por este aspecto vale a pena ler o livro: pelo olhar cru através da sua vida para uma zona muitas vezes retratada quase como perfeita.
Sinceramente até compreendo toda a celeuma provocada pela publicação deste pequeno tomo, por parte de quem o efetivamente leu e por acaso se calhar até é orgulhosamente alentejano.
Partilho da opinião que de facto, talvez o alentejano sofra de um certo complexo de inferioridade em relação ao não alentejano Português, da mesma maneira como acredito que o Português sofre em relação ao europeu de outros países do velho continente. Quem não cresceu a ouvir as velhinhas piadas de alentejanos e quem não conhece pelo menos uma ou duas que atire a primeira pedra.
Algumas passagens e citações de facto soaram-me um pouco injustas e quiçá generalizadas mas o escritor sendo soberano; em momento algum senti malícia nas suas palavras, expressa simplesmente o seu ponto de vista a partir das suas experiências pessoais e familiares de modo a fazer perceber, penso que principalmente para ele próprio, mais que para os leitores, o seu auto denominado ‘complexo do desenraizado’.
Livro excepcional, importante, imprescindível. Mas já lá vou, primeiro um outro tipo de considerações.
Lido em papel! Além de ser o primeiro livro em português do ano, é apenas o segundo livro em papel que leio este ano, depois do “Je suis vivant et vous êtes morts” de Emmanuel Carrère, em Fevereiro, cerca de 35 livros electrónicos e livros em áudio antes. Ter de me preocupar com as condições de luminosidade para conseguir avançar numa obra literária, ter, enfim, de acender a luz para conseguir ler numa sala (ou quarto) às escuras e ter de efectivamente folhear o suporte físico secular da tradição literária, revela-se uma experiência cada vez mais nostálgica e medíocre, insatisfatória. A experiência é pior em todos os aspectos que as alternativas – mas dá para fazer.
A propósito de “fazer”, o livro inclui esta frase: “Foi preciso fazer um livro para descobrir que a minha avó…” “Fazer” um livro? Não deveria ser “escrever” um livro? Compreendo que escrever seja uma parte, não despicienda espero, de “fazer” o raio de um livro, mas a escolha do verbo no contexto desta frase parece-me estranha. Já agora, quanto a estranho: “Os alentejanos encaram a caridade como uma ofensa, recusam depender da bondade de estranhos, mesmo quando os estranhos são os filhos.” Estranhos?! Não é um bocado forçado? “Terceiros”, talvez? “Os alentejanos encaram a caridade como uma ofensa, recusam depender da bondade de terceiros, mesmo quando os terceiros são os filhos.” Não? Não teremos aqui uma escolha mais apropriada, de entre as opções proporcionadas pela língua, para o caso vertente? Sobre “ter”: páginas antes, escreve-se “só tive sexo em Lisboa, porque ter sexo aqui era quase certo ficar aqui”. “Ter” sexo? Claramente, o livro inclui umas explorações da língua que me escapam, mas penso que provavelmente há cada vez mais um imperativo (começado pelo meu conterrâneo Mia Couto? Por José Saramago?) de explorar aventurosamente as possibilidades que a língua oferece e algumas opções tendem a deixar-me perplexo.
Enfim, pormenores da treta.
Em termos estritos de escrita, a leitura revela-se um prazer genuíno, sendo que o livro está extraordinariamente bem escrito, cheio de frases notáveis como “Viver abaixo do limiar da pobreza não era aqui uma questão abstrata ou um jargão para descrever Mauritânias longínquas; significava, isso sim, passar fome, sobreviver dias e dias comendo pão com azeitonas e um pedacinho de toucinho cortado com o único talher, a navalha que todos os homens traziam no bolso. As pessoas não cresciam porque não comiam carne ou peixe. Tal como a teologia, a dieta proteica não corria forte na família.” Ou: “antes de irmos à casa de banho tínhamos de passar pelo poço; os nossos horários escatológicos eram assim do conhecimento público e pretexto para infindáveis piadas.” Ou: “Assim que estacionámos à frente do café, todos os homens que estavam à porta pararam a conversa e viraram as cabeças na nossa direcção, qual couraçado a virar as torres de artilharia.” Ou: “Há quem tenha epifanias entre raios de luz e nuvens celestiais, eu tive a minha entre minis e tremoços. É o que se arranja.” E por aí fora. Uma escrita notável, que presta um serviço digno a um tema profundo e a um retrato pessoal, muito humano, fundamentado e sentido do Alentejo e dos alentejanos.
Há uma “conclusão” óbvia, talvez não dispensável de ser reiterada, que é a de que as mulheres valem mais do que os homens, são superiores, digamos por definição, aos homens. O único problema que eu tenho com a constatação é o autor, no seu labirinto emocional, parecer querer cingi-la às mulheres alentejanas em relação aos homens alentejanos, como se não fosse este um facto universal da condição humana.
Há ainda a questão do suicídio e a forma como este é, moral e socialmente, “aceite” no Alentejo, o que suponho está na base da maior parte da “polémica”, i.e., das cretinices aventadas em relação a este livro, que é infinitamente superior à catrafezada de disparates que entretanto tive a infelicidade de ler a propósito (condenar as “generalizações”?! Mas como é que é possível escrever uma reflexão como esta sem “generalizar”? Está tudo passado dos carretos?). “Que compromisso posso então traçar com o suicídio? Posso respeitar um suicida em concreto, mas tenho o dever de rejeitar a cultura suicida que existe no Alentejo; posso admirar um sujeito de me diz a chorar que já se tentou matar várias vezes, mas não posso respeitar aqueles que dizem “é um grande homem que se matou”; posso respeitar um alentejano que se mata, mas não posso respeitar o Alentejo que que aceita esse suicídio sem sobressalto. Por outras palavras, não sou alentejano.” (Querias!: como o livro bem prova, pode-se tirar o homem do Alentejo, mas é impossível, por muito que o autor queira, tirar o Alentejo dele; mas isso é outro monte.)
Relativizemos: estamos a falar das perplexidades de um jovem urbano do Séc. XXI a propósito de uma manifestação sofisticada, extraordinariamente complexa e rica, de uma cultura centenária, senão mesmo milenar, face à morte. Não há qualquer hipótese: quem tem razão é a cultura, que o ultrapassa completamente e lhe escapa entre os dedos. Na verdade, é tocante.
Pela leitura do livro, nomeadamente as páginas sobre os funerais, mas também as muitas pistas entretanto dispensadas de uma forma mais ou menos objectiva, mas sempre honesta e frontal, é-me evidente que a reacção da sociedade perante a morte, incluindo o suicídio, no contexto do desafio impossível que foi durante séculos a fatalidade das condições de “vida” no deserto alentejano, não é uma aprovação tácita do suicídio: a mim parece-me sim o desenvolvimento secular de um código social sofisticado para tentar preservar a dignidade humana em condições extremamente adversas; ficou claríssimo que qualquer outra opção, como seja o eventual ostracismo da memória dos que se matam, fruto eventual de um ambiente e uma vida desesperantes, em que um gajo tem de pensar em se matar com maior frequência que digamos em Tondela ou Vide, teria provavelmente consequências muito piores.
Não é que não se deva tentar perceber realidades complexas; o que se passa é que a mor das vezes, é areia demais para a nossa camioneta. Como no caso vertente. Mas pelo menos, o resultado foi só um livro, e na minha opinião notável. Há casos com consequências bem mais sérias: estou-me a lembrar, por exemplo, do sistema financeiro internacional, dos extraordinários banqueiros centrais que nos caíram na rifa, a nível global, que acham que se baixarem taxas de juros desencorajam a poupança e promovem o consumo, quando obviamente todos os velhos aterrorizados por verem que as suas poupanças não dão nada, percebem logo que a única opção para terem um futuro qualquer, ainda que muito pior, é não gastarem nada para ver se ainda resta algum lá para a frente. Este livro é uma ilustração deste fenómeno: olhar para uma realidade complexa com olhos e sensibilidade formados totalmente ao lado e chegar a conclusões definitivas, que fazem todo o sentido e são totalmente erradas. (Não resisto a citar Maruja Torres: "A los hombres siempre les ha gustado mucho reunirse y discutir, y hacer ver que toman decisiones consensuadas que van a convertir el planeta en un lugar mejor. Luego viene la realidad, y les derrota.")
Quer dizer: clássico. Mas para sermos justos, este aspecto é apenas uma vertente, mesmo que estrutural, desta obra. O livro, nas suas pouco mais de 100 páginas, inclui mais e vale tudo a pena ler e considerar.
Ponto prévio: Portugal é um Estado democrático e muito pouco justifica a violência que rodeou o lançamento deste livro de Henrique Raposo. Desde pessoas a queimar exemplares, qual ‘Fahrenheit 451’, a ameaças de morte, o autor foi elevado a Salman Rushdie português, alvo de uma intifada alentejana. E porquê? Por uma razão simples. Há, em cada indivíduo, uma relação de amor-ódio em relação ao sítio em que nasceu e cresceu. Em Henrique Raposo, essa ligação natural (e natureza é uma palavra muito presente ao longo das pouco mais de cem páginas) é extremada pelo retrato que faz do seu Alentejo, povoado pelas violações, pelo suicídio, pela pobreza. No fundo, pela aridez descrita de um Alentejo que, para si, sempre foi a face secundária de um Portugal dicotómico. Para o autor, que traz Kant à conversa, a natureza alentejana é um imperativo categórico tão indissociável de toda aquela extensão quanto o suicídio. E, quanto mais números se leem pelo livro, mais fica a sensação que há uma espécie de cínica seleção darwiniana, onde sobrevive apenas o mais forte, aquele que aguenta o que o Alentejo lhe atira. “As palavras que constroem as lentes objetivas” ou “subjetivas” (págs. 83/84) não são mais do que a expressão de um olhar único, porque seu, com que olha uma realidade que conhece, um olhar que traz sempre consigo uma possibilidade de equívoco, porque nunca há apenas uma realidade. Se Henrique Raposo é duro com a terra, que descreve como infernal, que o viu nascer, é também apaixonado pelas suas próprias “memórias reais e alentejaníssimas” (pág. 101). Há pormenores evitáveis, desde gralhas (“conselho de Sines” [pág. 64]) ao “odor a haxixe dos eucaliptos” (pág. 33). Mas de todo o livro fica a noção de uma escrita clara. Não fácil, porque não é um romance, mas limpa, sem palavras desnecessárias. É, talvez, jornalismo literário. Escrito com liberdade, aquela que “é sempre um contrato entre estranhos, seja em Nova Iorque, Lisboa ou Ermidas-Sado” (pág. 28). Entre estranhos mas nem por isso passível de ser desrespeitado. Como J. Rentes de Carvalho escreveu, “arrisco-me a dizer que ‘Alentejo Prometido’ só irá cair nas graças dos que sabem ler e se dão tempo para pensar.”
(crítica publicada na edição 282 do Jornal Universitário de Coimbra - A Cabra)
Nunca tinha lido um livro numa noite. Sou lento a ler. Não consegui parar e venci o sono ao longo destas 100 páginas. Embora ache muitas das generalizações injustas ou até se calhar mais baseadas na "experiência alentejana" do autor e que diferirá em muitos campos da minha, o livro é muito bem escrito e muito interessante; ainda que de natureza opinativa ou especulativa, ter alguém a teorizar sobre a origem histórica de algumas das características "do alentejano" permite-me de certa forma respirar fundo ("ah, então é por isso, ok") mas por outro lado ainda ficar mais angustiado ("pois, por mais que tentes e dês tempo e trabalho à tua Terra, isto não sairá da cepa torta"). Quanto à realidade e veracidade dos factos, não tenho conhecimento para duvidar; o autor cita as principais fontes sobre a região e, se não inventar pelo meio, duvidar dele é como duvidar dessas fontes. Há no entanto um ou outro erro que não entendo, ainda p mais sendo o autor historiador: fala na campanha do trigo como algo iniciado no final do séc. XIX e tanto quanto sei a data de início é 1929. Também diz que taipa é terra com palha, o que me parece um erro muito básico e que qualquer pesquisa de meio tostão furado o teria esclarecido. Não fossem estes detalhes, tinha levado 5*.
Talvez este livro me tenha dito tanto por por um lado me rever na busca identitária pelo Alentejo (que é a minha Terra) do autor mas por outro mais no papel da sua prima "Marta" que quer fazer pela comunidade. Como se o Alentejo fosse agora o "velho que precisa de quem cuide dele" e que cada um que deseja por ele fazer fosse "o filho que agora tenta tratar do pai idoso que recusa ser auxiliado por outro". Pelas palavras do autor, eu podia pensar que também eu não sou alentejano por não me rever na generalidade dos traços que caracteriza este povo. Mas isso já é verdade para o país em geral: sinto-me mais nórdico em funcionamento geral que português. No entanto, isto não me faz querer abalar. Faz-me antes querer ficar e fazer por cá. Até quando? Saturar-me-ei um dia? Seguramente esta leitura era mais útil a todos os alentejanos que apenas gritar o seu "orgulho" pela região nas redes sociais enquanto no dia-a-dia e vivência geral desprezam e abandonam tudo o que é sua história e herança.
Livro interessante acerca de alguns traços culturais dos alentejanos. O autor parte da sua experiência pessoal e familiar e cruza com alguns dados estatísticos e outras obras existentes.
Embora alguns traços sejam comuns a grande parte do país rural de há um século atrás, aborda algumas temáticas de uma forma muito pertinente.
Claro que corre sempre risco de crítica pois é difícil generalizar um alentejano de Beja com outro de Portalegre - é uma região muito extensa.
Ainda assim um livro fora do políticamente correcto, que não percebi a revolta aquando do seu lançamento. Faz falta quem escreva assim o que pensa, de forma clara e desempoeirada.
"Alentejo Prometido" de Henrique Raposo lê-se rápido, sem demoras. Não é um livro maçador, mas também não é um tratado sobre o Alentejo. É acima de tudo a perspectiva do autor (a partir da experiência da sua família materna e paterna) que figura neste seu retrato desta zona do país. Por vezes, com um estilo mais mordaz, é verdade, mas parece-me que sem malícia. E esse seu estilo característico chega mesmo a conferir uma certa vivacidade à leitura em certos momentos... Pese embora haja alturas em que esse estilo possa ser em demasia para aqueles que estão a ler um trabalho seu pela primeira vez e não o conhecem de todo.)
Por outro lado, não é só sobre a sua experiência com as suas raízes do Alentejo que o autor escreve, Raposo procura encontrar reflexos em dados estatísticos, que corroboram algumas das suas percepções, bem como em outros autores que anteriormente escreveram sobre o Alentejo de forma ficcionada ou não.
Há várias ideias que aqui são abordadas e que eu já tinha ouvido ou lido em algum lado. O suicidio tantas vezes aí verificado é uma delas, mas discordo do autor quando de alguma forma parece "condenar" quem se suicida. Não sou apologista do suicidio (não resolve nada e quem o comete já primeiramente a prejudicar-se a si próprio) nem sou crítica. Respeito. O suicidio é um fuga. Uma fuga de alguém que não aguenta mais a pressão de determinada situação e cuja necessidade de ajuda/apoio passou ao lado de quem estava por perto (desantento) ou podia aproximar-se. É acima de tudo um acto de desesperado desespero. Penso que não deve ser condenado nem vangloriado. Deve, isso sim, ser evitado e será se todos passarmos a estar mais atentos a quem nos rodeia... E menos concentrados em nós mesmos.
Depois, há a aridez que se sente mais marcadamente no Verão, por exemplo, o tal cheiro a queimado sem que haja incêndio algum... A menor quantidade de água se comparado com a zona Norte do país. Isto são aspectos que Raposo refere e que, embora não conhecendo na totalidade o Alentejo (conheço melhor o Norte do país, admito), senti e constatei quando lá fui (e não conheço ainda o Litoral) nos sitios em que estive. De todas as vezes. Porém, isso não lhe tira a beleza, nem o interesse. Torna-o diferente, único. Merecedor de uma ou mais visitas.
"Alentejo prometido" pode resumir-se a isto: o olhar de Henrique Raposo sobre o Alentejo. Não é uma verdade absoluta (que não existe), é apenas a sua perspectiva. E penso que é com isto em mente que a obra deve ser lida.
* "Eram duas da tarde, e a esta hora o Alentejo não cheira nem soa a nada. O calor abafa tudo. Só sentimos o pó, na garganta já devidamente terrincado, e no rosto onde se junta o suor para formar uma película pastosa que nos envolve como uma segunda pele.(...) À tardinha o Alentejo já tem cheiro, a resina das estevas, o mel das figueiras, o odor a haxixe dos eucaliptos, o cheiro da própria terra que tem sempro um leve travo a incêndio apesar de não haver incêndios. (...)" (Raposo, 2015, pp. 17, 33 e 34)
Não basta escrever meia duzia de teses que justifiquem as teorias geradas em sonhos do Autor. Convido-o a conhecer o Alentejo ao mesmo tempo que risca as suas teses do seu livro, ao género de uma check list. Bem haja. Saudações de uma filha de Alentejanos.
"Alentejo Prometido", de Henrique Raposo, desafia a convencionalidade ao abordar não apenas a região física do Alentejo, mas também as complexidades da autoconsciência e das raízes em um contexto de neurodivergência. Raposo transcende as fronteiras geográficas ao explorar temas universais através da sua narrativa, sugerindo que o enraizamento e a identidade vão muito além das paisagens físicas. Este livro, não se limita a uma geografia específica, é uma reflexão profunda sobre o significado das origens em indivíduos que enfrentam desafios neurodivergentes, destacando a universalidade da busca pela compreensão de si mesmo e de suas raízes.
Escrito de forma acutilante e mordaz este é o Alentejo do seu autor. Esta terra de planície e de solidão permite que cada um dos seus filhos a sinta de maneira diferente e isso só por si é um elogio. A descrição detalhada e suportada com dados e estatísticas dos horrores desse "seu" Alentejo pode ajudar a compreender algo do "nosso" Alentejo. A verdade é que esta bela terra não nos recompensou a todos da mesma maneira.. Ensaio bem escrito sobre a importância das raízes para um homem e que permite uma boa reflexão (concorde-se ou não)
Uma prosa deplorável. Mais uma vez, e sendo prática comum de comentadores auto-designados "out of the box", verifica-se a introdução de conclusões ridículas para justificar uma tese criada na sua cabeça. O Alentejo de Henrique Raposo é um Alentejo que só aí existe. Recomenda-se ao autor que leia mais um bocadinho (ou que viva uns tempos no Alentejo) antes de escrever tamanha patetice.
Um misto de memórias cruzadas com um ensaio sócio-antropológico. Muito bom e elucidativo, um testemunho da complexidade do ser humano, não só como sujeito individual mas também como parte de um aglomerado de pessoas que partilham a mesma cultura e princípios. Para aprendermos mais sobre nós mesmos temos de olhar com olhos de ver os nossos ascendentes.
Henrique Raposo explora os seus sentimentos de não pertença numa viagem à sua terra Natal. Um bom livro de cariz autobiográfica, que apesar de leve, nos conta muito sobre alguns hábitos sociais e cultura no Alentejo.
O autor pegou nas suas memórias, nas memórias da sua família, em algumas estatísticas oficiais e numa narrativa de fraca qualidade destilou ódio, escárnio e xenofobia contra "o alentejano".
“Quem muito lê pouco aprende. Já dizia o meu avô” foi uma frase que ainda há pouco tempo me disseram. Uma frase proferida por um amigo com menos de 40 anos, mas que herdou toda uma mentalidade abertamente hostil ao conhecimento. Este avô poderia ter a sua razão numa altura em que o futuro dos homens passava pelo trabalho pesado da agricultura ou até pela guerra, e o conhecimento prático era mais importante para a sobrevivência do que o estímulo intelectual, visto que a existência estava denegrida ao nível semi-animal. Por outras palavras, como diz o autor deste livro, num estado ainda hobbesiano, na anarquia pré-Estado em que o leviatã não habitava ainda a cabeça do cidadão (palavra desconhecida) e este precisava de toda a sua malícia para sobreviver. No mundo atual, abundantemente tecnológico e a favor do conhecimento, este adágio, tal como muitos outros do país, serve como mecanismo de defesa aos ressentidos, especialmente dos que ainda fazem parte do mundo antigo, mas andam perdidos no novo.
Este livro parece ser O Labirinto da Saudade alentejano, recuperando algumas mitologias, mas na verdade, já foi escrito séculos antes, apenas num diferente prisma, pelo Padre António Macedo, no século XIX, intitulado Os Annaes de Santiago do Cacém. Uma leitura obrigatória para qualquer vicentino. São ambos cartas de amor ao Alentejo, porque só se critica ferozmente aquilo que mais se ama. Numa entrevista sobre o filme Raiva, baseado no livro Searas de Vento, de Manuel da Fonseca, também um santiaguense, o realizador Sérgio Tréfaut conta que o seu pai nunca se sentiu português, mas sim alentejano. No entanto, migrou para o Brasil e continuou a escrever romances acerca da sua terra natal.
Tal como os românticos redescobriram a natureza depois de a civilização a domar e castrar, fazendo dela um produto estético apelativo por estar agora sob as rédeas humanas, o Alentejo, que ultrapassou a sua fase sem lei e que está prestes a ultrapassar a ignorância e, quem sabe, até a desconfiança crónica e o cinismo, está a ser descoberto pelo mundo como um paraíso na terra. É o escape perfeito pelo silêncio, pelas paisagens, pela comida, pelas pessoas. A diferença é que estas características são qualidades quando há um porto de regresso e uma outra origem, mas uma maldição quando não há escapatória delas, daí os relatos positivos de quem foi para a guerra antes da deslocação pelo mundo ser ilimitada. A terra sem lei estagnou as planícies alentejanas, e agora que há lei, há milhões de hectares a serem descobertos por estrangeiros que se fixam entre os chaparros ancestrais. Quanto aos nativos que escaparam, afinal de contas, foram salvos daquela angústia monótona, daquela gente amorfa e sem noção de passado nem futuro, e afundada num paganismo que roçava o islamismo em termos de opressão e divisão social, especialmente no que toca às mulheres, onde muitas violações havia, sendo a palavra chave “encostei-a”.
A geração criada no virar do século foi, sem dúvida, elevada socialmente pelos meios de comunicação, nivelando o discurso ao nível da capital, fazendo até com que muitos perdessem o sotaque alentejano, mas a geração Millennial, por exemplo, democratizou-se através da internet e da cultura universal, abrindo uma porta que escapa à severa ignorância do passado e permite até afinar o tom das suas virtudes, olhando para o vizinho como realmente um vizinho, e não como uma possível ameaça, tal como a linguagem e a experiência o transmitiu de geração em geração, desde a época do Alentejo Sem Lei e dos malteses que tudo roubavam porque o Estado não tinha mão no Sul, e até muito antes disso, até ao Estado Novo e à brutalidade da PIDE que aguçaram ainda mais a desconfiança, criando uma cultura de denúncia num povo por si já desconfiado. Agora, será justo dizer que o capitalismo emprestou algum tipo de cristandade a um povo pagão? A verdade é que crescer com videojogos, com a cultura do skate que quase traz consigo Los Angeles acoplado, as bandas de Seattle e da América inteira, e também do resto da Europa noutras manifestações, é um exemplo prático da música de Rammstein “We Are All Living in Amerika” - it’s wunderbar.
Além de a prosperidade económica ser o fator essencial que elevou a moral alentejana, também os incentivos ao consumismo consumaram as tradições ocidentais. Lembro-me de a minha avó dizer que antes não celebravam aniversários, natais, nem outras ocasiões, que usavam sempre a mesma roupa. Recorda-se apenas das festas de São Romão e dos bailes, ou de irem comer amêndoas para o Livramento. E das enguias da Lagoa de Santo André, é claro. A introdução dos hábitos consumistas, para o bem ou para o mal, criou rituais de ligação entre famílias, amigos e vizinhos, obrigando assim ao exercício da cordialidade e extinguindo, aos poucos, os restantes bichos-do-mato da taberna, que ficam parados a olhar assim que entra alguém que não seja da zona. Eu próprio tive esta experiência na pandemia, em que pude voltar a casa no teletrabalho, e longe de Lisboa decidi fazer todas as caminhadas da Rota Vicentina, passando pelas terras mencionadas no livro e outras, e quando entrava num café numa qualquer aldeia perdida e queria beber uma cerveja, sentia-me observado de uma forma opressiva, sabendo que até ali não tinha havido silêncio. Quanto ao que acontece, e acontecia de forma pior às mulheres, está bem descrito no livro. Fora isso, a colonização e civilização deste povo aconteceu digitalmente, por aulas de mímica, através da arte, entretenimento, e outros meios didáticos. Não só vindos da capital, mas do estrangeiro.
Dito desta forma crua, é justificável que a sensibilidade de certos alentejanos que não se revêem nestas palavras se tenham revoltado no lançamento do livro, mas como é possível falar de uma região sem generalizar? O medo de generalizar pode ser uma censura ao conhecimento, e qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que nem toda a gente da região é assim. Na verdade, muitos até são piores. O debate intelectual deve permitir uma dialética de erro e correção que surge através da comunicação, e a generalizar, abrimos o jogo para a especificidade, contando, é claro, que o “geral” ou a “média” são considerações ponderadas e com base na realidade, fundamentadas segundo um ponto de vista. Lembro-me perfeitamente de todo o alarido e defesa do Alentejo na apresentação, e por causa disso conheci o livro, que só li anos mais tarde, longe da terra. Como diz o outro, não há má publicidade. Os protestos contra o livro só provam, ou dão mais razão, aos argumentos do autor, sendo óbvio que nenhum, ou quase nenhum, tinha lido sequer o livro. Pela minha experiência, sou obrigado a concordar com a grande maioria das descrições. Quanto às interpretações históricas, é uma questão demasiado complexa para teorizar com certezas, mas considerando a falta de informação e registos acerca da zona, algumas hipóteses parecem bastante plausíveis para explicar a índole alentejana. Protestar contra o livro de forma tão violenta, como se viu nas redes sociais, é revelar a falta de atitude crítica e de autocrítica desta zona. Mas a verdade é que este cronista já não tinha boa fama antes por escrever textos inflamatórios.
As maiores nações e regiões são as maiores críticas de si próprias, e por isso evoluem. A alternativa é não haver crítica e varrer todos os problemas para baixo do tapete com mão de ferro, tal como Salazar bem fez, e endoutrinar para que não haja forma de comparação e que a miséria moral seja a normalidade, para que deixe de ser miséria moral. Este livro abre a conversa sobre a região deserta que se começa a descobrir e a florescer, porque tal como o livro refere, só agora o território alentejano começa a ser domado. Se parte do crescimento civilizacional é produto do território, a natureza alentejana é virgem principalmente por falta de água. As ribeiras secam facilmente e a zona retratada tem apenas dois rios, daí a criação das barragens e canais agrícolas, mas toda esta infraestrutura é demasiado recente para poder ainda dar os seus frutos significativos, além de muitas já estarem ao serviço industrial. A barragem do Alqueva é um marco neste sentido, na medida em que é uma conquista do território. Não se pode esquecer, no entanto, que nem todo ele deve ser conquistado, pois o turismo de luxo requer que os ricaços consigam meter a vista em paisagens intactas, sem rasto humano, para se fascinarem com este território alienígena onde podem ainda sonhar.
Este livro é composto de vários preconceitos, tal como a grande maioria dos testemunhos pessoais, e tem partes exageradas de alguém que parece desiludido. Esta desilusão vem do facto de o autor procurar no Alentejo uma casa e chegar à conclusão de que afinal não é alentejano, de que não se sente em casa, e que quer que as suas filhas evitem ao máximo aquela cultura de desconfiados e suicidas, e que ainda não é ali que se vai livrar do complexo do desenraizado. À medida que o livro progride, parece que se acumula uma tensão na escrita, como se transparecesse cada vez mais a emoção de que “afinal, tudo isto é uma grande merda”. Não só pelo Alentejo em si, mas por entender como estava iludido antes quando pensava que a terra de infância o iria salvar na sua identidade.
A parte do suicídio é onde os nervos estão à flor da pele e o livro se torna mais ideológico, porque o autor muda do ponto de vista mais testemunhal e antropológico para dar opiniões cristãs. No suicídio, depois dos dados estatísticos, é fornecida uma opinião acerca do tema com todos os preconceitos negativos a cavalo, todos somados, que atingem o clímax da cultura alentejana na morte. E por mais que concorde com a investigação cultural do suicídio descrita no livro, e as excelentes observações em como esta prática está não só banalizada, mas até romantizada, podemos, todavia, separar o tema em si e até reconhecer que o individualismo radical alentejano pode rivalizar, neste aspeto, com países de centro da europa. É curioso como exemplos internacionais, como a Latvia, são dados no número avultado de suicídios, mas no que toca ao valor moral do suicídio e na discussão da sua legitimidade, não há comparações com a Holanda ou a Suiça, que permitem morrer com dignidade sem julgamento. Este morrer com dignidade é também um aspeto que muitos podem considerar “avançado” em sociedades que valorizam a escolha pessoal. O livro dá o exemplo de alguém que refere a escolha de morrer como “um ato de liberdade belo e total”. Se o autor falasse com um suiço ou holandês que partilha da mesma opinião, talvez ele considerasse esta resposta como o produto de uma sociedade desenvolvida, mas como não está separada dos restantes preconceitos, não a considera positiva.
Também parece que neste capítulo a severidade e adaptação às circunstâncias não foram aprofundadas o suficiente, porque a mentalidade de desprezo pela vida teve a sua origem algures. Contudo, compreendo que as investigações psicológicas ainda sejam mais limitadas ou dúbias. Num ambiente tão historicamente opressor, numa individualidade tão radical e num paganismo tão desenfreado, não há escape para fora. O exterior é ameaça e sempre foi, porque nada de bom pode vir do exterior para um desconfiado e ultra cínico, e talvez por essas razões o alentejano implode, porque é só consigo próprio que pode contar. A sua cabeça ainda não tem a estrutura da nação e é anárquica no ponto de vista pré-civilizacional. Os que testemunham o suicídio entendem isto porque compreendem o ato. O desligamento profundo da sociedade e a falta de vínculo com a família não leva um ser humano a praticar atos drásticos para com eles, porque não se preocupa realmente com o exterior. É a atitude egoísta por excelência que permeia o resto da cultura, desde a paternidade negligenciada à posse da mulher para fins próprios ou extensão da propriedade. Viver é um fardo. É por isso que em situações extremas, resta acabar com o sofrimento de forma pragmática interiormente. O alentejano sempre esteve voltado para si próprio e apenas consigo pôde contar, e a renegação à própria vida segue a lógica da sua “self reliance” pagã.
A meu ver, Henrique Raposo fez uma investida desesperada à procura de uma âncora no mundo, talvez com expectativas irrealistas, porque a formação de memórias e hábitos é essencial para o sentimento de pertença. O autor quer pegar numa árvore exótica e plantá-la num lugar seco. Não considera capacidades de adaptação, e achou que o Alentejo da infância iria ser ainda o mesmo depois de o renegar durante anos, o que é totalmente irrealista. Não pode lá chegar e sentir a mesma conexão com a terra porque é agora uma pessoa diferente. Se quer fazer do Alentejo uma casa, é preciso lá criar memórias, mas sem sentimento de pertença será difícil. Não consigo visualizar esse complexo de desenraizado porque tenho raízes profundas no Alentejo, sendo uma espécie de doente ou fanático, e será, sem dúvida, a minha casa para sempre. Por esta razão, não preciso de fazer uma apologia do Alentejo, porque aceito todos os defeitos sem necessidade contra ataques ou defesas. Contudo, este olhar exterior numa viagem existencial de alguém que se procura foi fascinante, por mais defeitos que tenha, pois é uma oportunidade de revisitar todos os temas cruciais apontados no livro, especialmente numa altura em que o Alentejo renasce.
For such a little book, this packs a massive punch. Lisbon-based writer Henrique Raposo travels to the Alentejo (think of Portugal's version of the mid-west)to connect to his family's origins. Fascinating were the insights that make the Alentejo an enigma (even in the Portuguese context)with respect to it's history, sociology, economy, language, isolation, violence, superstition, isolation and so on. A fantastic travelogue full of insights into 1/3 of Portugal's landmass. Simply loved it!
Este foi um livro que demorou a ser lido, chegou cá a casa em 2016 e só agora senti o chamamento de o ler.
Retrata um Alentejo com o qual não me identifico, mas que o autor certamente assim o sente. Não foi de forma alguma ofensivo, apenas nos dá a conhecer a sua forma de sentir o Alentejo.
Gostei particularmente quando cruza as histórias da sua família no retrato que faz a esta zona do país, gostei de ler as suas memórias, assim como a viagem que faz para recolher mais informações necessárias para este livro assim como para si próprio.
Quem tiver curiosidade pode sempre pegar neste livro e verificar se se identifica ou não com este Alentejo.
Sendo natural de Ermidas-Sado é um livro que retrata o universo em que vivi até aos 18 anos. O retrato está muito bem tirado e, por essa razão, chocou e choca. Aqui não houve lugar a “edição de imagem“, houve, pelo contrário, um tirar da surdina que amplificou tantas historietas sussurradas. Quem quiser insistir em tapar o sol com a peneira deve fugir deste livro. Já quem quiser, em poucas páginas, vislumbrar algumas realidades inconvenientes é ler até ao fim.
Bem escrito, mas não consigo identificar-me com as generalizações do autor. Parece-me que o livro transmite mais a mentalidade urbana e elitista do autor do que qualquer aspecto social ou geográfico do Alentejo.
O livro tem uma forma engraçada de mostrar como a cultura alentejana e os costumes das pessoas são, e mudaram ao longo do tempo, utilizando uma viagem familiar em género de roadtrip ás "origens" para nos demonstrar e descrever esta região portuguesa.
📚Alentejo Prometido, Henrique Raposo 📚Fundação Francisco Manuel dos Santos
📚112pg
📚45.2024
⭐️⭐️⭐️
Apesar de inicialmente ter adquirido este ebook nas promoções da Bertrand, acabei por me decidir a procurar o livro físico, nem que fosse usado, e qual não foi a minha surpresa quando encontrei no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos e, com 50% desconto...escusado será dizer que lá veio mais um livrinho parar a casa! Sim, porque eu acho que devemos valorizar o que de bom temos em Portugal e, o Henrique Raposo, tornou-se uma das minhas referências como escritor e como cronista do Expresso. Tem aquela linguagem que parece minuciosamente estudada, para que cada palavra tenha o seu lugar certo, mas que me parece ser espontânea, sem grandes floreados, mas atingindo o seu objetivo. Neste pequeno Alentejo Prometido, temos uma saga familiar em que o narrador pretende escrever a história da sua família oriunda do Alentejo, mas cuja grande parte tinha já mudado para Lisboa. Nele são abordados temas como o êxodo rural, o suicídio, o papel da mulher pobre (por exemplo criadas de servir ou mulheres do campo) face aos senhores que usavam e abusavam destas, as frequentes violações nas mulheres de classe baixa, ficando à mercê e marcadas para o resto da vida, os segredos familiares que tentamos ocultar e esquecer, na esperança de nunca voltarem a ser falados. Vamos conhecendo aldeias alentejanas, pessoas, os seus costumes e vivências, as suas casas e os seus quotidianos e a evolução que houve ao longo das gerações. Esta é uma visão do que está certo e errado no Alentejo Litoral, em que a taxa de analfabetismo é orgulhosamente alta, onde as convicções e ideologias são rígidas, reinando a desconfiança e indiferença e a pouca vontade de evoluir. É pequenino, e sabe a pouco. Este não é um livro como As Três Mortes de Lucas Andrade, com um vasto enredo, personagens construídas profundamente, inúmeras descrições e situações abordadas. É um simples road movie, como a própria sinopse indica, mas que nos transmite uma vertente cultural de forma bastante interessante.
Citações: 📚 "(...) Os romances neorrealistas centram-se na opressão económica, mas a verdadeira opressão era sexual e íntima. O que oprimia as mulheres do campo não era a magra jorna, era o facto de serem encaradas como meras extensões privadas das casas senhoriais; não tinham um estatuto público, não eram cidadãs ou operárias, eram propriedade privada de quem tinha a terra. Passava-se o mesmo com as criadas. Numa perspetiva que saliente apenas o grau de fadiga causado pelo trabalho, poderíamos assumir que a criada vivia melhor do que a ceifeira. Mas repare-se no seguinte: dentro de quatro paredes, era ainda mais difícil recusar o assédio sexual do patrão e dos filhos do patrão. "
Começo por pontuar que achei de péssimo tom como são abordadas as questões da violência sexual e, principalmente, do suicídio. Faltou sensibilidade ao abordar estes temas. No quesito da violência sexual ao mesmo tempo que a escrita e argumento é de crítica, a descrição das mulheres, muitas vezes suas familiares, é objetificadora em algumas partes e desnecessária noutras. Quanto ao suicídio, ainda que entenda a perspectiva do autor, o juízo de valor tão condenatório é no mínimo injusto. Faltou, por A mais B, chegar à conclusão que a falta da rede de apoio (tese do próprio autor) faz com que seja mais difícil lidar em situações de aperto. Penso que olhar para a questão do suicídio como mera questão cultural e moral, e não uma questão de saúde pública, é redutora.
Falta rematar que a terra dos meus avós maternos é uma das citadas a norte para fazer o contraponto com o sul. E, ainda que concorde que haja um maior senso de comunidade, não por isso deixam de existir os mesmos "problemas" que são no fundo a representação do Portugal rural. O olhar desconfiado e a rede de vigilância informal que recebe os de fora. O anonimato permanece um privilégio dos grandes centros urbanos.
Talvez os meus problemas com este livro são pelo facto de: 1. o livro ter já 10 anos, e nesta década termos evoluído o discurso sobre estas questões, e 2. apesar também de ser filho de um migrado alentejano na Grande Lisboa, a minha relação com o Alentejo é inteiramente diferente da relatada, talvez pela região, talvez pela diferença geracional.
Como alentejana nascida nesta terra mas que não se identificava com determinados modos de vida, de pensar, de estar de falar, de viver até, que sempre me fizeram questionar até enquanto pessoa, e que quis ir para fora para ver ouvir e abrir mente, e efectivamente esteve fora durante metade da sua vida, este livro vem dar a resposta a muitos destes sentimentos controversos dentro de mim. A nostalgia da paisagem dos silêncios da luz, até do próprio coração agarrado a um estar em família concorria sempre com os amargos pesares, os fechos de portas, o feitio virado para dentro, o fatalismo. Leiam, a quem lhe interesse respostas.