Não conhecia o blogue Ana de Amsterdam, mas ouvi falar deste livro, primeiro no fórum do BookCrossing, depois no Goodreads e por fim, uma entrevista com a autora num jornal, foi o empurrão final que me fez pegar nele. Não é um livro “feliz”, mas não me arrependi da leitura.
A Ana revela-nos a sua intimidade de uma forma que é impensável para a maioria das mulheres, daí estes relatos, apesar de incómodos, serem tão preciosos. A preguiça, o desejo, a frigidez, a masturbação, os pensamentos cáusticos acerca de terceiros, quase a roçar a arrogância, as descrições escatológicas, tudo coisas banais quando aplicadas a personagens masculinos, mas raras quando se trata de mulheres, e ainda mais quando os relatos são na forma de memórias ou diários, como é o caso.
O livro não é feliz porque está cheio de sofrimento, algumas partes são mesmo bastante perturbadoras, como as repetidas referências ao suicídio e à depressão, que me ajudaram a compreender um pouco melhor algumas amigas próximas.
Uma vez por mês, esta a exacta periodicidade da sua visita, chega-me uma tristeza grande. Não traz desespero nem pensamentos sombrios; há muito tempo que não imagino pulsos cortados, nem pés descalços sobre o parapeito de uma janela, nem o vento frio na plataforma de uma estação de comboios. A tristeza traz só tédio, escava um buraco no meu corpo, ali se aninha e descansa.
Mas também há humor, e sobretudo uma escrita forte e muito bela, em especial quando descreve as suas raízes mestiças e as vivências goesas.
É complicado ser-se de toda a parte e não se ser de sítio nenhum. É difícil ter tantas raízes. Umas compridas, que atravessam países, mares fronteiras para fundarem lá longe, perto do Rio Zuari, onde há quintais com cobras e a claridade do crepúsculo tem a cor da clara do ovo. Outras que se estendem além-Tejo, por serranias de giestas habitadas por zorras e homens que matam a sede bebendo por cochos de cortiça. Outras raízes que latejam memórias antigas, familiares, cheias de bichos: hipopótamos, jacarés, morcegos, leões, macacos, lagartas leitosas que vivem sob a minha pele. Outras ainda, imaginárias, que teço, que quero ter, que só por incompetência do destino não são minhas. São raízes que acrescento às reais, que atravessam o Atlântico para se apaziguarem num lugar onde todos, ou quase todos, são como eu, mestiços.
Apesar de principalmente centrado em si própria, como é natural num diário e ainda mais, no diário de alguém que sofre de depressão, também se encontram textos que falam das vivências de mulheres de outras gerações, de que gostei bastante.
Pela manhã, ao pequeno-almoço, li um conto da Katherine Mansfield. Nas primeiras páginas, a escritora neozelandeza descreve o alívio que as mulheres de uma família inglesa sentem quando Stanley, marido, cunhado, pai, filho, sai de manhã. (...) A casa volta a ser um lugar doce, tranquilo, feminino: as mulheres aproveitam o fresco do jardim, notam os detalhes do mundo, tomam banhos de mar, gozam o prazer de falar sem ter ninguém a perturbá-las. Até Alice, a empregada, é atingida por essa inconveniente felicidade, lava a loiça na cozinha, despreocupadamente, estouvadamente, desperdiçando água. “ Já foi? Já! Oh, que alívio, como as coisas ficavam diferentes com o homem fora de casa. Até as próprias vozes pareciam mudadas, quando se chamavam umas às outras; soavam quentes e cheias de ternura, como se estivessem a partilhar um segredo”. (...) De imediato, me aflorou ao espírito o alívio que a minha mãe sente quando o meu pai parte sozinho para Goa. Os seus olhos ganham brilho, às vezes, surpreendo-a a cantar pelos cantos da casa. Parece uma outra mulher, alegre, tranquila. A minha mãe desfruta, com discrição, dessa calma, mas, um dia, no quarto da tia Dé, depois de trocar a fralda ao João, levantou os olhos e perguntou-me “Mas por que é que eu me sinto tão bem quando o teu pai não está cá?” Logo a seguir, como se temesse a sinceridade da minha resposta, baixou os olhos e começou a rir-se nas momices do neto mais novo. A minha mãe não o confessa abertamente, mas, pela alegria das conversas, pelo brilho dos seus olhos, é evidente que se sente menos tensa quando o meu pai não está. Parece libertar-se de qualquer coisa que a sufoca lentamente. No entanto, passado algum tempo, como se se sentisse intimamente culpada por esse bem-estar, começa a insistir que tem de ir para Goa. “Tenho de ir ter com o vosso pai”, explica, “Não tem ninguém que trate dele, a Ligorina só cozinha aquelas comidas condimentados que lhe fazem mal à pancreatite”. É um discurso forçado, mas adequado à sua condição de mulher de setenta anos. Mete-se sozinha no avião e vai ao encontro do meu pai. Fica por lá três, quatro meses. É um tempo de profunda agonia e solidão. O meu pai ama a minha mãe, tem por ela um amor antigo, comovente, mas isso não significa que cuide dela, que a abrace, que lhe preste atenção. Passa os dias em bancos, repartições, conservatórias, serviços. A minha mãe nunca o acompanha nessas andanças, fica na casa de Maina, sem ter ninguém que a leve a Margão ou a Pangim. Penso nela muitas vezes. Como ocupará o tempo dessas longas horas de solidão? (...) Às vezes, a solidão da minha mãe torna-se incomportável. Telefona, choraminga, diz não aguentar as saudades dos filhos, dos netos, da irmã. Desafio-a a meter-se no avião e a voltar para perto de nós. A reacção da minha mãe é sempre igual. Emudece o choro e, num tom firme, quase irritado, responde-me: “O meu lugar é ao lado do teu pai”.