Depois de ler Retorno a Reims de Eribon, tomei interesse por sua obra mais teórica, empreendida antes da escrita daquela quase-autobiografia. Publicadas em português e disponíveis para venda na Amazon, encontrei apenas estas Reflexões Sobre a Questão Gay (há ainda uma publicação da biografia de Michel Foucault editada pela Cia. das Letras - que só encontrei na Estante Virtual - e um livro de entrevista entre Eribon e Levi Strauss - também disponível apenas na Estante Virtual, já que sua edição é da Cosac Naify).
As Reflexões de Eribon são ótimas. Dividindo o livro em três partes, Eribon faz um passeio pelo papel da injúria na constituição da personalidade da pessoa gay (por isso o título dado em inglês - "Insult: the making of the gay self"); pelo pensamento dos primeiros teóricos de uma cultura gay na Europa (Wilde, Proust, Gide, Pater e Symonds); e por fim pelos fatores que levaram Michel Foucault à escrita de sua História da Sexualidade, bem como os caminhos pelos quais o pensamento de Foucault se enveredou após a escrita deste texto (por fim há ainda um apêndice curto analisando a obra de Hannah Arendt e sua conexão com o movimento gay).
Apesar da aparente distância entre os três temas, creio que Eribon consegue costurar de maneira efetiva suas considerações criando uma linha que leva de um tópico a outro - bem amarrado ao final, quando o autor apresenta as ideias de Foucault sobre a construção de uma "cultura gay" e as observações de Hannah Arendt sobre os grupos difamados. (Destaco aqui que diversos tópicos, tanto do pensamento de Foucault [sobre um suposto interdito às amizades masculinas] quanto do de Arendt [so papel do filósofo ou mesmo do direito/constituição para determinar quais deveriam ser a prioridades de um movimento social], me pareceram incompletos [no mínimo] ou mal informados - isso não é demérito para o livro de Eribon, que de fato aponta todas essas deficiências).
Particularmente acredito que os tópicos iniciais (acerca da injúria) e finais (acerca do pensamento de Foucault) possam interessar um público maior do que os tópicos centrais (sobre o início de uma cultura gay no início do século XX-final do século XIX). Isso porque, os tópicos empreendidos no centro do livro (na parte "Espectros de Wilde") me pareceram um tanto europeizados, distantes das realidades do início de culturas gays para além daquele círculo europeu-intelectualizado que o autor estuda. Isso, mais uma vez não prejudica o livro, é apenas aquilo que o autor propõe. Mas vejo vantagem em pensamentos mais decoloniais da construção de uma identidade gay.
Apesar de ver a linha construtiva de Eribon como um ótimo argumento em favor do livro, e de entender a necessidade de sua construção - acredito que o argumento poderia inclusive se beneficiar da divisão das três partes em três livros distintos. O primeiro como tópico para uma auto-reflexão e/ou reflexão de grupo - Um Mundo de Injúrias. O segundo como tópico para estudiosos da cultura gay europeia - Espectros de Wilde. E o terceiro como tópico para acompanhamento de qualquer leitura que deseje ser completa da História da Sexualidade de Foucault - As Heterotopias de Michel Foucault. (Esta terceira parte me pareceu fundamental para jogar nova luz na leitura que fiz de Foucault, para compreender seu ponto de vista acerca da sexualidade e para situar a obra na sua biografia).
Cumpre destacar aqui minha preferência, sem dúvida, pela primeira parte - Um Mundo de Injúrias - e sua capacidade que me pareceu inovadora (pelo menos para mim e pelo menos para a época) e universal de contextualizar a existência gay dentro de um embate com a injúria, com o insulto, com o chiste. Embate interno e externo que se relaciona diretamente com um momento de saída do armário, um momento de coming out (ou momentos de coming out) em que a pessoa gay toma as rédeas de sua própria narrativa para abandonar o local de coisa que lhe é relegado pela cultura heteronormativa. ("Assim, o insulto e seus efeitos não se limitam a definir um horizonte exterior. O insulto também cria um foco interior de contradições, no qual, se inscrevem as dificuldades encontras por um gay antes de poder se assumir, isto é, aceitar identificar-se ou ser identificado com outros gays."- p. 89. Ou ainda, sobre o coming out: "Assim, o indivíduo que era 'objeto do olhar' é transformado em 'objeto pelo olhar' do outro, isto é, estigmatizado, reduzido ao silêncio ou à vergonha pela injúria, pela dissimetria que atribui um lugar desvalorizado à homossexualidade, pode, em contrapartida, decidir ser aquilo que esse 'olhar' fez dele. Pode escolher identificar-se com a identidade que lhe é atribuída. E, portanto, ultrapassá-la, reinterpretá-la, transformá-la. Não mais aceitar que o sentido dela seja dado do exterior, mas retomá-lo do interior. Fazer dela sua coisa, ou antes, ao contrário, arrancá-la à coisidade, à reificação, para fazer dela sua liberdade. 'Arrancar desse olhar o seu poder constituinte', diz Sartre, e retomar o poder de constituir a si mesmo como um movimento da própria liberdade. É o sentido da famosa frase frequentemente citada: 'O que importa não é o que fazem conosco, mas o que nós mesmos fazemos com aqueli que fazem de nós'." - p. 135).
Enfim, Reflexões... é um excelente livro. Serve de base para diálogos diversos sobre a identidade gay e seu relacionamento com a construção de um mundo por vir, além de se apresentar como um excelente referencial teórico para discussões acerca de temas diversos que perpassam as existências gays até hoje. A escrita de Eribon não destoa de Retorno a Reims e mais uma vez é fluida e bem organizada (veja-se os trechos citados acima). Posso dizer que, um livro que me inspirou a escrita dessa review (tão longa) vale a leitura.