desembarque de Estácio de Sá e sua pequena armada no istmo do Cara de Cão. Mas o que existia aqui antes? Quem habitava o Rio? Como era a relação deles com os colonizadores portugueses? O Rio antes do Rio é um livro sobre os povos indígenas do Rio de Janeiro, os primeiros contatos com os europeus, as disputas entre portugueses e franceses, os momentos decisivos das batalhas travadas, o processo de conquista que possibilitou a ocupação da área pelos portugueses. A obra segue até 1567, quando Estácio de Sá é morto e ocorre a fundação da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Jornalistas e seus hobbies às vezes rendem resultados inusitados. Rafael Freitas da Silva, produtor do Esporte Espetacular, resolveu escrever um livro que procura retratar o Rio de Janeiro antes de sua fundação por Estácio de Sá em 1º de março de 1565. Até seus colegas se surpreenderam.
Minha mãe (que adorou o livro) disse que o único defeito é o autor não ser antropólogo. Entretanto, para relatos descritivos que exigem uma boa dose de investigação, leitura comparativa e cruzamento de dados, os profissionais de jornalismo se sentem muito à vontade e rendem bem.
O mais difícil, em uma empreitada dessa natureza, é encontrar as fontes. Os historiadores ficaram praticamente dependentes dos relatos de jesuítas e aventureiros. Mas, sobre o Rio, a maior fonte de informações é francesa. Tendo de escrever o livro paralelamente ao trabalho na Globo, ficou para a mãe do autor, Neise, a missão de vasculhar instituições e bibliotecas pelo mundo atrás de obras antigas e desaparecidas. Talvez um "making of" do livro seja tão interessante quanto o próprio.
“O Rio antes do Rio” é composto por quatro capítulos bem marcados. O primeiro é dedicado a cultura dos tupinambás. Seus rituais (principalmente o antropofágico), as relações internas das tabas, o papel do homem, da mulher, da criança, o desenvolvimento social desde a tenra infância até ser considerado um adulto completo, o nascimento, alimentação, organização política, casamento, sexo etc.
No segundo capítulo, o autor parte para a descrição das tabas existente no Rio de Janeiro na primeira metade do século XVI. São 160 páginas destinadas ao assunto, quase metade do livro. Talvez justamente a parte de interesse mais específico aos cariocas, que poderão vislumbrar como era a sua cidade antes da chegada do europeu e encontrar vestígios dessa época nos dias de hoje; e àqueles que estudam a língua tupi.
Partindo principalmente das andanças do francês Jean de Léry nos anos 50, antes da chegada de Estácio de Sá, Rafael tenta identificar a localização de cada taba no município e ao redor da baía da Guanabara, fazendo pequenas pontes com os dias atuais. Sempre que possível, conta alguma história ocorrida nela, quando dá abertura a mais informações de ordem cultural. Quase sempre, por meio do topônimo, discorre sobre a fauna e a flora local, e especula sobre as possíveis características da aldeia e do morubixaba local. Como as fontes sobre o tema são compostas mais de lacunas do que por dados, o autor tenta sempre preenchê-las analisando os significados dos termos tupis associados a cada lugar.
Estes dois primeiros capítulos são essenciais para criar a ambiência da época, transmitir ao leitor uma pálida ideia do impacto que a beleza natural do Rio provocou em franceses, portugueses e espanhóis que por aqui passaram naqueles primeiros anos. Impacto, aliás, não muito diferente daquele provocado nos próprios tupinambás, que vieram descendo a costa para expulsar os carijós que aqui viviam. Ao chegarem a essas terras, os tupinambás julgaram ter encontrado a Terra Sem Mal, o enclave do paraíso na terra, como também acreditaram alguns europeus.
Os dois capítulos seguintes se dedicam a uma deliciosa narrativa histórica. Uma vez apresentados os protagonistas e o cenário, chega a hora de apresentar o enredo.
No terceiro capítulo, são narradas todas as viagens de navegantes europeus que passaram pela baía nem que fosse para um breve "pit stop", desde a primeiríssima viagem de Américo Vespúcio até a viagem dos irmãos Martim Afonso e Pero de Sousa, e o subsequente azedamento da relação entre portugueses e tupinambás a partir do estabelecimento daqueles em São Vicente, onde vivam os rivais tupiniquins.
O quarto capítulo narra justamente a chegada dos franceses, a tentativa de colonização, e a guerra contra os portugueses, terminando com a fundação da cidade e o massacre dos tupinambás.
Aqui fica claro que a animosidade entre tupinambás e portugueses é anterior à chegada dos franceses, devido à escravização dos tupinambás em moldes bem diferentes ao culturalmente aceito por eles. Como os tupiniquins eram aliados dos portugueses, os escravos eram obtidos entre as tribos rivais, tupinambás e carijós. Até então, os tupinambás cariocas receberam bem praticamente todos os europeus que chegaram a suas costas. E não foi diferente com os franceses. Entretanto, a intolerância religiosa de Villegagnon (agindo de forma contrária a que fora instruído pela coroa francesa) levou ao total fracasso da França Antártica. Quando os portugueses chegaram à baía para combater os franceses, a colonos se encontravam divididos, seu líder havia partido para buscar reforços (que jamais obteria), muitos colonos já haviam debandado, partindo de volta com os navios que levavam pau-brasil, e o apoio dos tupinambás reduzidíssimo devido ao conflito de Villegagnon com os truchements, os órfãos franceses deixados ali 10 anos antes para conviverem com os índios. A derrota dos franceses era questão de tempo. A briga que se seguiu depois contra os tupinambás é que foi acirrada e longa. Estácio de Sá emerge dessa história como um verdadeiro herói dos portugueses, conseguindo defender um precário aldeamento com status de cidade por dois anos, contra todas as probabilidades.
Quem sai com a imagem desgastada de tudo isso é o padre José Anchieta, que se revela um empolgado articulador político em favor dos portugueses, não se importando em negociar um tratado de paz que só servia para garantir tempo aos portugueses, e que chamou as forças de Mem de Sá que massacraram os tupinambás de Paraguaçu, na Bahia, de “esquadrões de Cristo”.
Assim, “O Rio antes do Rio” alcança seu objetivo com louvor. É tanta informação concentrada que a leitura se torna lenta, mas obrigatória a todos que se interessam por história do Brasil e cultura indígena.
Capitulos 1, 3 e 4 são excelentes. Escrita muito fluida sem perder a profundidade. Capitulo 2 um tanto enfadonho por ser uma longa descriçao de todas as aldeias, explicando seus nomes e onde se localizavam. De toda sorte, consulta e usa de forma digna as fontes primárias e é um trabalho incrivel, principalmente se levarmos em consideração que é o primeiro livro de um jovem jornalista. PS Se você for do Estado do Rio de Janeiro, é uma obra obrigatória. Deveria estar nos currículos escolares.
Livro incrível para quem se interessa pelos primórdios da colonização portuguesa no território do Brasil. Em contraste à imensa maioria dos livros sobre o tema, este me deu a sensação de levar as civilizações indígenas de então a sério em seus próprios termos — não é uma leitura anacronística daquela época dado como a historia se desenrolou. Além disso, o livro é um prato cheio para quem gosta do Rio de Janeiro: é incrível descobrir o que significam / de onde vêm certos nomes, quais tribos moravam aonde, etc.