Estelionatário, vigarista, mau-caráter, impostor, dissimulado, mentiroso. Em outras palavras: Freud. Sim, o Livro Negro é carinhoso desse tanto com o máximo doutor da psicanálise. É injusto? É, é injusto, mas serve como prova de que as vacas sagradas também sangram.
Um pergunta prática: Qual é o endereço da Psicanálise hoje? Segundo o Livro Negro, na França, na Argentina, e, digo eu, aqui no Brasil. E por que vive nesses lugares? Bem, para forçar um resumo, a hermenêutica pansexual deixou de ser tão atrativa como fôra aos vitorianos e sua psiquiatria cruenta; e a extração forçada ou antes o implante de recordações de abusos sexuais foi cada vez mais ficando grotesco, em uma surdez gritante para os dados que levavam em outras direções (e que outras terapias vieram a acolher). Foi quando a grande escola psicanalítica soube transmigrar da clínica pura para a clínica mestiça, também chamada extensa, e que não é outra coisa que vestir as bandeiras da militância política da moda. Isso se vê desde pelo menos o frenesi de pulsão anal francês de maio de 1968 – com Foucault, Derrida, Bourdieu, Lacan e outros – e desde então importado pelo Departamento Francês de Ultramar: as universidades federais brasileiras. E nisto os nossos hermanos até nos superaram.
O historiador Sonu Shamdasani propõe uma outra explicação para as razões da expansão freudiana: segundo ele, foi a eficácia de seu aparelho institucional (mais do que suas inovações teóricas e terapêuticas) que proporcionou à psicanálise esse sucesso mundial. Desde 1912, Freud reage à proliferação de psicanalistas não supervisionados e estabelece o sistema de "análise didática", que obriga quem quiser ser reconhecido por sua associação a fazer uma análise com ele ou com um de seus discípulos. E ademais, a psicanálise foi incessantemente reformulada e adaptada às psicologias e tradições intelectuais de cada país, de modo que, no final das contas, frequentemente ela não tem mais grande coisa a ver com a obra de Freud.
Falemos do dr. Freud:
Freud deduziu analiticamente que ela havia sido forçada durante a primeira infância a praticar felação. "Dei-lhe essa explicação", escreveu ele a Fliess em 3 de janeiro de 1897, e, quando ela exprimiu sua incredulidade, "ameacei expulsá-la" caso persistisse em seu ceticismo. Evidentemente, a rejeição de suas deduções era para Freud uma prova da "resistência" da paciente, trazendo uma confirmação suplementar da validade de sua reconstrução analítica. Vale dizer: resistir ao dr. Freud e à sua terapia, que era resistir a se tornar um objeto freudiano, era inaceitável. O paciente devia mesmo era endossar certas recordações de abusos sexuais que, por sua vez irão fundamentar, num raciocínio de cachorro tentando morder o próprio rabo, a teoria que lá enfiou essa recordação. Tudo o mais é resistência – palavrinha esta que vaga pelas ciências montada em cavalares metonímias; na fisiologia, na física, no direito, na política, etc.
De todos os textos aqui reunidos, deixo a recomendação especial para Uma Teoria Zero de Mikkel Borch-Jacobsen que à pergunta "por que a psicanálise teve tanto sucesso?" já lasca um: porque fomos enganados, para fechar esse curto e explosivo desmonte no anticlimático desvelar da magia, dizendo o que o mágico fizera na nossa cara: jamais existiu "psicanálise", apenas uma miríade de conversas terapêuticas tão diversas quanto seus participantes. A psicanálise é exatamente tudo e qualquer coisa – tudo porque qualquer coisa.
Há muito mais no livro. Coisas de arrepiar os cabelinhos das pulsões anais.
Um livro inflamatório como esse em nada obstrui o estudo da psicanálise, e a editora Civilização Brasileira o sabe muito bem. Não apenas isso, ela também sabe muito bem que, pelo contrário, estimula o debate e o consequente aprofundamento da psicanálise. E mais livros de psicanálise, claro. Então, antes de espernear, pensa. Sua escola não pode ser tão fraquinha ao ponto de desmoronar com um só livro. Se for, tem é que se arruinar mesmo.
Antes de terminar, precisamos falar daquela figurona surrealista chamada Lacan: se você não entendeu Lacan, por ele ser obscuro, enfadonho, etc., é assim mesmo. Para se entender Lacan, ao que tudo indica, temos de não entendê-lo até que se entenda que o entendimento de que algo "escapa" ao entendimento é entendê-lo. Joia!? O que se tem para entender em Lacan é que o "escape", o tal do objeto perdido, não pode ser teorizado como fazem as outras ciências, por descrição e explicação do fenômeno. Não, há de se duplicar a "escapada" fugindo de toda teoria clara, coesa e científica. Veja bem, essa seria supostamente uma teoria do inconsciente que não comunica com a minha consciência, senão uma teoria pulo-do-gato entre inconscientes, o que é de uma crendice que empolaria em vergonha ao mais campesino dos medievais (gente astuta, afinal). Leia mais no texto A exceção francesa do mesmo Mikkel.