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Antologia Poética

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Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura. Antologia Poética de Miguel Torga EXCERTO "Querido Leitor: Gostaria de conversar contigo alguns momentos no pórtico desta antologia. Para já, quero que saibas que hesitei muito antes de me decidir a organizá-la. Perguntava a mim mesmo se seria legítimo desirmanar cada um dos poemas que nela agora figuram dos outros com que emparelham em livros entendidos como unidades redondas. Temia, além disso, a precariedade do critério que os escolhesse. Nem sempre um autor é bom juiz em causa própria. […] Mas como a minha vida é um extenso rol de perplexidades e nunca saí de nenhuma em perfeita paz de espírito, resolvi averbar à conta mais uma parcela e levar a empresa por diante. É que, contra todas as razões, seduzia-me a perspectiva de reviver o longo caminho órfico que iniciei às cegas, calcorreei a tactear e estou em vias de concluir de olhos abertos, no espanto de quem vê finalmente, a plena luz, a fundura dos abismos a que desceu."

491 pages, Paperback

First published January 1, 1997

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About the author

Miguel Torga

121 books214 followers
Miguel Torga, pseudonym of Adolfo Correia da Rocha was one of the greatest Portuguese writers of the 20th century. He wrote poetry, short stories, theater and a 16 volume diary.

He was born in a village in Trás-os-Montes, northern Portugal, to small-time farmer parents. After a short spell as student in a catholic seminary in Lamego, also in Trás-os-Montes, in 1920 his father sent him to Brazil where he worked on the coffee plantation of an uncle who, finding him to be a clever student, paid his high school there and afterwards his medicine graduation (1933) at the University of Coimbra, in Portugal (to where he returns in 1925).

After graduation he worked in his village and in other places in the country, publishing his books from his own pocket for a number of years. In 1941, he established himself as an otolaryngologist physician in Coimbra.
His agnostic beliefs seems to reflect in his work, that deals mainly with the nobility of the human condition in a beautiful but ruthless world where God is absent or is nothing but a passive and silent, indiferent creator.

After the value of his work was being recognized, he went on to receive several awards, as the Prémio Camões in 1989 and the Montaigne award in 1981. He was several times nominated for the Nobel Prize of Literature, being the last one in 1994, but he never won.

Source: http://en.wikipedia.org/wiki/Miguel_T...

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Displaying 1 - 11 of 11 reviews
Profile Image for Carmo.
727 reviews569 followers
July 13, 2016
São tantos e tão bonitos que eleger só um revelou-se árduo.
Usei o infalivel método de abrir o livro à toa e sejaoquedeusquiser.
Mas não resisti e juntei mais um.

FICHA

Poeta, sim, poeta...
É o meu nome.
Um nome de baptismo
Sem padrinhos...
O nome do meu próprio nascimento...
O nome que ouvi sempre nos caminhos
Por onde me levava o sofrimento...

Poeta, sem mais nada.
Sem nenhum apelido.
Um nome temerário,
Que enfrenta, solitário,
A solidão.
Uma estranha mistura
De praga e de gemido à mesma altura.
O eco de uma surda vibração.

Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.
Condição,
Profissão,
Identidade,
Numa palavra só, velha e sagrada,
Pela mão do destino, sem piedade,
Na minha própria carne tatuada.

DEPOIMENTO

Deponho no processo do meu crime.
(Sou testemunha
E réu
E vítima
E juiz).
Juro
Que havia um muro,
E na face do muro uma palavra a giz.
Merda!_lembro-me bem.
_Crianças..._ disse alguém
Que ia a passar.
Mas voltei novamente a soletrar
O vocábulo indecente,
E de repente,
Como quem adivinha,
Numa tristeza já de penitente,
Vi que a letra era minha...

Profile Image for Paulo Hora.
42 reviews12 followers
March 19, 2016
Ia escrever o quão brilhante é esta Antologia Poética e o quanto me tinha impressionado. Ia exaltar o facto de praticamente cada poema me fazer pensar que Miguel Torga foi um dos maiores génios que alguma vez pisou este solo. Mas deixo-vos com as palavras do próprio e, a meu ver, um hino ao que foi a sua poesia.

“Canta, poeta , canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.”
Profile Image for Lúcia Parreira.
98 reviews52 followers
January 5, 2024
Bom livro de Miguel Torga!💯
É uma colecção de poemas do autor que vale a pena ler. Grande poeta português!!👏👏
Profile Image for Cristina.
98 reviews
Read
July 1, 2021
Ponta Seca

Remendo o coração, como a andorinha
remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.

--------------------------------------------

Arquivo

Tão baço o teu retrato
no álbum da lembrança!
Que vaga semelhança
entre a imagem que vejo
e a dor que sinto!
Minto
se te disser
que te desejo ainda,
que o meu instinto
te reconhece e quer.
E sei que um dia me perdi
em ti
como se perde o homem na mulher,
4 reviews
October 13, 2022
Torga é magistral!
Sente-se, em cada verso, uma dor desmesurada - e mais ainda quando a derradeira hora se avizinha-, uma melancolia penetrante, e um sonho de ser eterno - parece doer-lhe mais por se saber finito.
Mesmo quando o poema não nos fala directamente, ainda assim, há um sussurro leve no nosso ouvido, onde, sem querer, a pele se arrepia.

O ambiente bucólico desenhado pelo poeta, tão característico dessa mundividência serrana portuguesa, relembra-nos outra idade, outros dias.
Aqui me foi possível imaginar o céu incerto dos seus versos e, ocasionalmente, reencontrar velhos amigos que me acenavam, talvez querendo saber se há data marcada para o reencontro.

Absolutamente fascinante o modo como a dor é cantada e tornada numa obra de arte...
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews85 followers
January 1, 2015
Pedagogia

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição.
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!
28 reviews
June 24, 2024
Não amas, e não podes
Ler o livro da vida.
Sem amor nenhuns olhos são videntes.
A tarde triste é o sol que não consentes
Ao coração.
Mundo de solidão, O que atravessas, É um deserto habitado Onde apenas tropeças
Na sombra do teu eu desencantado.

(A voz de satanas ja nesse tempo
Era humana e natural...)
Deixou de ser um mundo e foi um outro.
Foi a inocência perdida
E a minha voz acordada...
Foi a fome, a peste e a guerra.
Foi a terra
Sem mais nada.
Depois,
Sem dó nem piedade a vida começou...
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo
E, ao ver que eu era homem,
Corou…

A minha vida é uma cena triste, Dessas que se fazem numa praça
Por causa duma mulher...
Todos passam, todos olham
E sorriem da paixão...
Mas o namorado insiste:
— Minha Senhora, responda:
Sim ou não!
Sim ou não!
Ah! mas a Senhora não responde!
Porque não é resposta aquela esperança
Dada num vago talvez...
E o pobre pobre-diabo
Leva a mão ao coração
E diz:
— Minha Senhora, Mate-me duma vez...
A minha vida é isso e muito mais, Em direcção às cartas e aos sinais De aprender a namorar.
Foi tudo colhido em mim, Porque eu sou um pobre Adão
A começar...

A alota
Ao fim
Dos nove meses do prazo, Que era lógico e seguro
Ouvir cantar as sereias
Sem fazer caso...
Ah! mas isso é que não! Ninguém se iluda!
Ninguém pense que vou desanimar!
Não, senhor:
A Sagrada Teologia
Previu isto e muito mais...
Deus lá sabe
As linhas com que me cose...
Deus lá sabe
Se para meu sumo bem
Terá de aumentar a dose...

A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.
Depois, a vide do desejo enlaça Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade, Sedentos de beber na mesma taça.
É um vinho amargo que lhes cresta a boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência.
E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas, 1 queimar o que resta da inocência.

Velha lua...
Prostituta podre e nua
À porta do seu bordel...
Muda as rugas da face, Mas a velhice renasce Do musgo da tua pele!
Bem sei que na fase nova
Podes ter um namorado...
Uma ilusão que te prova
Como a um fruto da renova
De um pomar que foi podado...
Remendos de mocidade.
Lume que acende e não dura.
Não regressa a virgindade
A quem, corrupto, a procura.
Mas tens ainda maneira De te salvar, velha amiga:
É morrer numa fogueira
De ironia verdadeira
Que algum Poeta te diga...

Sobre a ponte insegura é que é passar!
Fica o rio a correr dentro das veias.
Quanta angústia levar,
Quantas areias De oiro
Ou de ilusão,
É como se nos fossem afogar
A inquietação.
Arcos de ferro ou de granito E sólidos soalhos de varanda
Não me parecem piso de quem anda A descobrir as formas imprecisas
Desta humana aventura.
Só de credo na boca vale a pena
Olhar a vida, que da sepultura
Nos acena.


O que eu espero, não vem.
Mas ficas tu, leitor, encarregado De receber o sonho.
Abre-lhe os braços, como se chegasse O teu pai, do Brasil, A tua mãe, do céu, O teu melhor amigo, da cadeia.
Abre-lhe os braços como se quisesses
Abarcar toda a luz que te rodeia.
Não lhe perguntes por que tardou tanto
E não chegou a tempo de me ver.
Uns têm a sina de sonhar a vida, Outros de a colher.

É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso, O que sinto, O que digo
E o que faço, É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.
Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.
Infeliz com loucura e sem loucura, Peço à vida outra vida, outra aventura, Outro incerto destino.
Não me dou por vencido, Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino.

Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti, como de mim.
Perde-se a vida, a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou, Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso Que perdemos.)
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


Ardia em brasa o Castelo, Tinha febre o casario;
Cada vez mais nosso e belo, O profeta do Restelo
Punha as sombras num navio...
Nas casas da Mouraria, Doirada, a prostituição
Era só melancolia;
Só longínqua nostalgia
De amor e navegação.
Os heróis verdes da História
Tinham tons de humanidade;
No bronze da sua glória
Avivava-se a memória Do preço da eternidade.
Nas ruas e avenidas, Enluaradas de espanto, Penavam, passavam vidas, Mas espectrais, diluídas
Na cor maciça do encanto.
E a carne das cantarias, Branca já de seu condão, Desmaiava em anemias De marítimas orgias
De um fado de perdição.

Porque não vens agora, que te quero, E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...
Hoje, aqui, já, neste momento, Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.

É inútil resistir.
Por detrás das muralhas da vontade
Mora o desejo, a força que as derruba.
Deixa que nasça, que avolume e suba
Esta maré de seiva e de ternura.
A grandeza do homem, criatura Que cresce enquanto ama e pode amar, É saber
Que só depois do gosto de pecar
Lhe vem o gosto de se arrepender.

Salta, discretamente, a página do amor
No Livro de Horas.
Não leias mal o que já leste bem.
Emocionado, choras
A cada passo, E tornas baço
O brilho que ela tem.
Deixa o texto arquivado na lembrança.
Passa adiante e cobre-o de pudor.
No jardim resta ainda tanta flor
Que podes desfolhar
Sem lágrimas na voz....
Quem soube ter, sabe renunciar...
Há laudas de silêncio em todos nós.


Não digas, musa,
Por quantos versos reparti o pranto
Que chorei neste mundo.
Não contes
Os mil segredos que te confiei
Nas horas de abandono.
Não reveles à vida
O amor que lhe tive
E de que foste única confidente.
Perdição consciente, Que mais ninguém me veja
Nesta triste nudez de sonhador.
Que o teu silêncio seja
O meu pudor.

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres, Nesse caminho duro
Do futuro, Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado, Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Longamente esperei.
Nenhum encontro estava combinado.
Era apenas fiado
Na intuição do amor
Que confiava.
Afinal, não vieste.
E adivinho o motivo:
O lume da velhice não aquece.
Arde e parece
Vivo, Mas arrefece.


Aceito o desafio.
Que poeta se nega
A um aceno do acaso?
Tenho o prazo
Acabado,
O que vier é ganho.
Na lonjura
Da última aventura
É que a alma revela o seu tamanho.
Extremo Oriente da inquietação, Lá vou!
A quê, não sei, Mas lá descobrirei
Que razão me levou.
Lá, onde tantos que me precederam,
Se perderam,
E aprenderam, na perdição,
Que só é verdadeiro português
Quem, um dia, a negar a humana pequenez,
Se inventa e se procura
Nas brumas de procura o e da loucura.


Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio, Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
Profile Image for Daniela Almeida.
9 reviews
January 27, 2015
It a wonderful book to read, very well organized and poems are just brilliants.
Um livro verdadeiramente fantástico, muito bem organizado e os poemas são simplesmente brilhantes.
Profile Image for Giovanne.
23 reviews3 followers
Read
August 15, 2025
"Tenho a memória cheia de poemas", estupenda antologia de Miguel Torga.

Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

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Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

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Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.

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Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai Colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


_____

Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.
Profile Image for Rita.
30 reviews18 followers
August 20, 2022
Extraordinário. O pouco que conhecia de Torga não me deixava antever a imensidão de muitos destes poemas. Para reler brevemente.
Profile Image for Diogo Carvalho.
22 reviews
November 8, 2024
Tão racional, e tão profundo.
“Guerra Civil” continua a ser, até aos dias de hoje, um dos meus poemas preferidos.
Displaying 1 - 11 of 11 reviews

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