A gente lê biografia por vários motivos, mas quando o biografado é alguém que você tem apenas um conhecimento superficial e o admira provalmente pelos motivos menos óbvios (como sua cachorra de 3 patas), um dos sinais de sucesso ao término da leitura é a vontade de tomar uma cerveja com ele e aprofundar suas teorias e visões de mundo e, claro, desfrutar de uma boa companhia. E o Mujica, além de ter uma cadela de 3 patas, também tem um fusca azul (soco pra tudo que é lado!).
Importante situar que essa biografia foi escrita em 2015, logo após o término de sua presidência no Uruguai, onde deixou sua marca no campo internacional e nacional (liberalização da maconha, casamento gay, etc). Já reclamava da saúde debilitada e agora, a beira dos 90 anos, parece estar se despedindo de fato.
Dito isso, os autores optaram em apontar o caminho de algumas dessas conquistas na presidência - difícil avaliar o nível do viés aqui - e, através de replicações de diálogos que tiveram com Pepe Mujica durante o curso de alguns anos, um pouco dessa visão de mundo de um ex-guerrilheiro e improvável ocupante da cadeira presidencial, a tal da ovelha negra do título.
Inútil tentar resumir aqui seus principais pensamentos, mas saio da leitura convencido de que Pepe não é um militante de esquerda típico (acha o comunismo uma experiência completamente fracassada), mas uma espécie de anarcosocialista (quase um Milei de sinal trocado), que acredita que o Estado precisa se organizar de uma maneira totalmente diferente para que possa habilitar seus cidadãos a se valerem daquilo que o capitalismo pode oferecer de melhor e utilizarem seu poder criativo.
Uma leitura super agradável e interessante!