A estreia editorial de Manoel de Barros deu-se com a publicação de "Poesia concebida sem pecados", em que seu estilo único e singelo já se manifesta de modo marcante. Tanto na utilização dos elementos da natureza como matéria prima ("Foi o vento que embrulhou minhas palavras/meteu no umbigo e levou pra namorada"), como na utilização do humor como um ingrediente de suas composições ("Nada está aborrecida com o neto que foi estudar no Rio/e voltou de ateu/ - Se é pra disaprender, não precisa mais estudar").
Manoel Wenceslau Leite de Barros is a Brazilian poet. He has won many awards for his work, including twice the Prêmio Jabuti, the most important literary award in Brazil. Today he is renowned by his critics as one of the great names of contemporary Brazilian poetry, and by many authors he has been considered the greatest living poet from Brazil, like the poet Carlos Drummond de Andrade recognized Manoel de Barros as the biggest poet of Brazil.
Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era abundante de pelos no pente. A gente pagava para ver o fenômeno. A moça cobria o rosto com um lençol branco e deixava pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra cima do umbigo. Era uma romaria chimite! Na porta o pai entrevado recebendo as entradas... Um senhor respeitável disse que aquilo era uma indignidade e um desrespeito às instituições da família e da Pátria! Mas parece que era fome.
Ó passar-se invisível pela alma da alameda de casas espaçosas Imaginando a feição ideal dentro de cada uma! Ir recebendo um pouco de poesia no peito Sem lembranças do mundo, sem começo… Chegar ao fim sem saber que passou Tranquilo como as casas, Cheio de aroma como os jardins. Desaparecer. Não contar nada a ninguém. Não tentar um poema. Nem olhar o nome na placa. Esquecer. Invisível, deixar apenas que a emoção perdure Fique na nossa vida fresca e incompreensível Um mistério suave alisando para sempre o coração. Singular, tão singular…