Talco de Vidro chega às livrarias brasileiras no mesmo mês em que Marcello Quintanilha participa do Salão do Livro de Paris, consolidando seu espaço no meio literário. Seu trabalho anterior, Tungstênio, lançado em 2014 pela Veneta, foi considerado o melhor quadrinho do ano pelos jornais Estado de S. Paulo e O Globo. O livro já teve seus direitos vendidos para Portugal, Espanha e França. Na Espanha, foi publicado pela La Cupula, uma das principais editoras de quadrinhos da Europa, e teve uma recepção entusiasmada da crítica, que o comparou a autores como James Elroy e Dashiell Hammett.
Em Talco de Vidro, Quintanilha cria um thriller psicológico a partir da crise existencial de Rosângela. Ela é uma dentista de Niterói, bem casada, que afunda em uma espiral de autodestruição até a beira da imoralidade e do crime.
Marcello Quintanilha nasceu em Niterói, Brasil, em 1971. Começou, ainda adolescente, por desenhar histórias sobre artes marciais com o pseudónimo de Marcello Gáu. Mais tarde, em 2003, envolve-se na série "Sept balles pour Oxford", para uma editora belga, com argumento do argentino Jorge Zentner e do espanhol Montecarlo. Estabelece-se, a partir de 2002, em Barcelona. Ilustrações suas surgem desde então nos jornais espanhóis "El País" e "Vanguardia". Ao mesmo tempo, continua a produzir álbuns para o público brasileiro. Em 2005 foi dado à estampa "Salvador". Seguiram-se "Sábado dos meus amores" (2009), "Almas públicas" (2011), "O ateneu" (2012), "Tungstênio" (2014), "Talco de vidro" (2015), "Hinário nacional" (2016) e "Luzes de Niterói" (2018). "Escuta, formosa Márcia" (2021) é o seu mais recente trabalho, em Banda Desenhada, depois de se ter estreado na ficção com o romance "Desereama" (2020). A edição francesa de "Tungstênio" foi premiada no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême (França) de 2016. Ainda em 2016 vence, no Brasil, um HQMix (categoria "Destaque Internacional") pelas edições portuguesas de "Tungsténio" e "Talco de vidro". Dose repetida um ano depois. "Tungsténio" originou um filme, realizado por Heitor Dhalia.
Marcello Quintanilha, o brasileiro que faz quadrinhos sobre brasileiros de verdade. Acompanhamos aqui a história de Rosângela, uma dentista bem sucedida, casada e com dois filhos, que vive no topo da sociedade carioca, mas que não consegue deixar de sentir inveja da sua prima, que apesar da vida miserável, parece mais feliz do que ela. Uma história espetacular sobre a fragilidade das nossas vidas e a podridão que fica à espreita. Leitura recomendada ;)
Eu não sei o que eu deveria sentir quando me deparo com esse tipo de história. Esse tipo de narrativa que segue uma pessoa rica tendo a própria vida destruída por conta dos próprios atos, consequências das suas decisões mesquinhas, consequência de uma vida regada por inveja e um sentimento de superioridade que é ameaçado por qualquer sinal de alegria vindo de "pessoas inferiores" à ela. O que eu deveria sentir ao mergulhar na mente desse indivíduo? Eu sei o quão mesquinho e cruel uma pessoa dessas pode ser, eu sei o quão infeliz uma pessoa dessas é, e o mal que ela pode causar a todas as pessoas a sua volta. O que eu estou realmente ganhando nessa narrativa? Pelo menos quando quadrinistas igual o duo Leandro Assis e Tricila Oliveira fazem isso, eles tratam de focar em no desenvolver dos acontecimentos e nas reviravoltas da história, te colocam a par de uma outra realidade além dessa, além de dar mais dimensões aos personagens. Mas "Talco de Vidro" é uma história mais contemplativa, mais presa na mente da personagem, que te leva a meditar... Mas meditar em que? O que esse tipo de história oferece que eu já não saiba? Talvez o fato de eu ser pobre e ter tido que conviver a vida vendo pessoas assim na vida real torne a minha experiência diferente da de alguém que possa encarar essa história como um "tapa na cara" para despertar, mas não sei... Eu vejo um backlash muito grande recentemente à histórias sobre gente rica tendo que lidar com "white people problems", e eu entendo de onde vem esse sentimento e acho justificável, mas sinceramente, eu preferiria mil vezes acompanhar uma Serena Van Der Woodsen vivendo dramas de comprar roupas caras e namorar modelos milionários, do que ter que acompanhar jornada de auto descobrimento de gente babaca... Pelo menos por enquanto.
O Quintanilha é foda. Não é novidade pra ninguém que o Brasil tem grandes quadrinistas, não vou listar ninguém para não esquecer alguém, mas o Quintanilha é foda. Um tempo atrás li Tungstênio e achei maravilhoso; o jogo cinematográfico das cenas, os diálogos que parecem de verdade e, algo que só grandes conseguem, uma história que fecha em todos os detalhes; na última página, um pequeno aceno à primeira. Talco de Vidro é sensacional pela sua realidade; todo mundo já foi a Rosângela, todo mundo já foi a prima da Rosângela, todo mundo já sentiu um pouquinho superior a alguém e todo mundo já se perguntou porque alguém parece tão feliz com tão pouco; porque diabos a grama é tão verde ali do lado? Claro, aqui as minhas experiências influenciam muito a leitura, um dia eu cheguei a conclusão de que as pessoas pensariam o que quisessem independente do eu fizesse, então era melhor fazer o que eu iria e se as pessoas pensarem em algo que pensem porque eu fiz o que eu queria. Evidentemente, isso causou diversos problemas na minha vida e ainda causa, não se preocupar com o que as outras pessoas vão pensar é praticamente uma ofensa em alguns círculos - ou melhor, quadrados. Por que se preocupar com o sorriso da prima? Aquela que anda de ônibus, que mora tão longe que ainda passa trem, que se separou do marido, que voltou pra casa da mãe? Por que o sorriso dela é tão mais sorriso que o meu? Eu não sei, Rô também não sabe, talvez ela só seja feliz. Felicidade parece-me algo tão raro, tão difícil, tão especial, deixa ela sorrir. Quantas vezes tu te sentiu feliz de verdade na vida? Duas? Três? Vinte? Cento e cinquenta e quatro? Deixa ela sorrir, gente feliz, não incomoda.
Amo histórias sobre obsessões. Esta é uma delas. Uma mulher que tem dinheiro, família e status vai empreender uma jornada com o objetivo de ultrapassar a prima. Num mundo onde a felicidade incomoda, tudo pode acontecer. Sensacional.
Tragedia contemporánea. Thriller emocional. Despertar de una pesadilla para encontrarte en otra. . La actual visión de éxito, en función de la posición social y económica, un bulo vacío. El estatus una mentirosa promesa de protección. Cómo vivir en un ambiente acomodado atrofia la capacidad de adaptación, la tolerancia a lugares más inhóspitos. Resiliencia raquítica. Cómo una vida socialmente perfecta te obliga a venderla como tal y en ese proceso dejas de ser tú mismo. Y se convierte en una excrecencia en tu interior, una sustancia viscosa que, tarde o temprano, tienes que expulsar. . El error es traducir el complejo de inferioridad como supremacía. Secreta insatisfacción que da lugar al peor cáncer, la envidia. La eterna comparación, la batalla perdida de antemano. La maraña en la mente, la evasión del pensamiento, la inconcreción. La confusión y el desvarío. Y de ahí al ostracismo emocional. . Brasil. El lado oscuro de las personas. Y del capitalismo. No pensaba, sentía. El lenguaje simbólico del inconsciente. El capricho del destino. Cruel instante.
Sendo honesto, não gostei desse livro. A personagem principal é asquerosa e desagradável, e apesar de eu entender que era pra ela ser assim, não muda o fato que chegou num ponto que eu nem queria mais saber dela. Sim, eu sei, essa é uma história sobre obsessão, sobre alguém que tem tudo e ainda assim sente inveja da felicidade alheia. Eu sei, eu sei. Ainda assim odiei ler, mesmo com uma narração e modo de contar a história tão esperto.
Além disso, a prometida decaída da personagem principal nem foi tão interessante assim. Ela transou com uns caras e usou drogas uma vez. E daí? Pensei que haveria mais nessa história, mas só foi...ruim.
Aparte de los hermanos Fábio Moon y Gabriel Bá y Laerte Coutinho de oídas, conozco NADA de cómic brasileño. Y acá me encuentro con un thriller muy bien escrito, la historia de una obsesión sin mayor fundamento que lentamente lleva a la protagonista a las peores decisiones posibles. Muy bien escrito y viñeteado.
Minha primeira experiência com o Quintanilha, um quadrinista nacional extremamente elogiado. Sua narrativa é parecida como uma crônica, mas intimista e psicológica. Pelas características intrínsecas do Quadrinho, isto é, a dinâmica indistinguível da palavra-imagem, Quintanilha consegue sobrepor narrativas, contrapondo o que ocorre no mundo exterior e no interior ao mesmo tempo. . A personagem vive uma espécie de transe, de vida meio nebulosa, quase onírica. Ela vive uma sensação e interpreta o que ocorre ao seu redor conforme essa sensação. Então ela não busca compreender e saber de fato seu ambiente e o que ocorre com ela, apenas se agarra a essa sensação. Essa é sua epistemologia, sua (in)suficiente epistemologia. . Essa forma entorpecente de viver influencia sua relação com o Outro, que, como em um espelho, desmascara a fragilidade dessa forma de viver. O espelho, na narrativa, é o sorriso de sua prima. Um sorriso sincero e sólido em comparação com toda a vida da personagem principal. E o quão irônico é saber que a Rô (personagem principal) é dentista. . Uma obra que permanece na crítica, mas não propõe a solução. Não vejo problema nisso, a crítica é o início de uma solução, é a abertura para o debate. Li algumas resenhas que se incomodavam com isso. Não me incomoda. Recomendo a leitura, principalmente para aqueles que tem curiosidade de conhecer a potencialidade dessa forma de arte que são os quadrinhos. .
Talco de Vidro retrata como a inveja pode degenerar o ser humano. Logo no início, vemos que Rosângela, a protagonista da história, tem uma vida que não poderia ser melhor. Ela tem uma carreira próspera, um marido apaixonado que faz tudo por ela, dois filhos que estudam nos melhores colégios, mora em um apartamento de luxo; ela nunca passou por nenhuma dificuldade na vida. Por isso ela gosta de sentir-se melhor, acima de todos, "como se pertencesse a uma camada social superior". O que a conforta é que o seu carro, sua casa, enfim, sua vida, os outros estão distantes de ter. Inclusive a prima. O problema é que ela não consegue se sentir superior à prima. Mesmo que a prima tenha tido uma vida problemática (pai alcoólatra, um casamento fracasso, a impossibilidade de concluir a graduação). Então, ela descobre que o que a impede de sentir-se superior à prima, é o sorriso da mesma. A prima é sempre linda, até mesmo nas dificuldades, ela continua linda, ainda tem uma "luz". Isso incomoda tanto Rosângela, que ela começa a mudar drasticamente sua vida em função disso, para pior, se submetendo a atitudes degradantes. Até o momento em que isso culmina no seu suicídio. O que é interessante na história, é a forma como a inveja de certa forma corroeu Rosângela por dentro. Mesmo tendo tudo o que tinha, ela não conseguia ser feliz. A prima sim. A prima era feliz, mesmo com uma vida cheia de dificuldades. Acho que na verdade era isso que Rosângela queria, mas não conseguia. E a inveja faz isso mesmo com a pessoa, por mais coisas que ela tenha, ela nunca está satisfeita. Ao longo da história eu sentia o desespero de Rosângela e isso me angustiou bastante. Não acho que isso seja um ponto negativo, muito pelo contrário. A arte muitas vezes serve pra nos causar desconforto. Rosângela foi entrando numa espiral de problemas, de degeneração, e nós a acompanhamos nisso. Inclusive os desenhos em determinado ponto da história ficam bem abstratos pra representar isso. O texto é muito interessante, e como tinha lido em algum lugar, eles são uma narrativa por si mesmos, os desenhos só os complementam. Enfim, Talco de Vidro sem dúvida foi uma leitura muito marcante e que me provocou várias reflexões.
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Este romance gráfico surpreendeu-me bastante. A sinopse dá-nos uma ideia do que esperar mas na verdade a história quase que nos esbofeteia porque é muito real. Rosângela tinha tudo para ser feliz (era casada com um homem que a amava profundamente, tinha dois filhos lindos e uma carreira bem-sucedida) mas sempre nutriu uma semente de descontentamento que se vê acentuado à medida que a sua prima, de quem ela tem uma inveja doentia, vai melhorando a sua vida. Enquanto a prima vai ecnontrando a felicidade, Rosângela tenta encontrar a sua, perdendo-a e perdendo-se pelo caminho. A descida de Rosângela por vezes parece surreal, mas ao mesmo tempo tão real. É doloroso mas não conseguimos parar de olhar. O fim é mais definitivo do que esperava, mas é estranhamente adequado. O texto que acompanha a arte parece, no início, um pouco intrusivo, mas ao fim de algum tempo habituamo-nos e acaba por ser um bom acompanhante à confusão da mente da Rosângela. Recomendo!
Rô é uma dentista muito bem-sucedida em Niterói. Tem dois filhos, muitos amigos e é casada com um médico cujo único defeito é amá-la demais. Rô não vive grandes emoções, mas uma questão assola sua vida: sua prima, que mora num lugar pobre (onde passa trem, vejam só), que teve um pai alcoólatra e se casou com um homem que a espancava, mas que ainda assim, insiste em sorrir (e seu sorriso é maravilhoso).
Muito bem pensado e muito bem escrito. A edição é caprichada também (e cara).
Talvez já tenham notado por aí que março começou com uma temática de quadrinhos. Não pretendo seguir nessa toada até o fim do mês - até porque vou reler o Esperando Godot para discussão no Clube de Leitura Bons Casmurros em 26/03, mas me deixei levar pela brincadeira de ler vários quadrinhos na sequência, para variar um pouco das leituras anteriores.
Talco de vidro tinha sido recomendado duas vezes para mim, nos dois casos com indicação de parecença entre meus contos e o quadrinho. Tentei ler uma vez, num arquivo virtual, e não deu. Agora, com o quadrinho físico, a coisa fluiu e terminei em um dia.
A história tem uma pegada de thriller psicológico e realmente tem um diálogo com meus textos por explorar uns conflitos internos um tanto imprecisos de personagens femininas. A protagonista, Rosângela, dentista de classe média-alta, é movida por um "je ne sais quoi" cujo estopim é dado pelo sorriso de sua prima, mais pobre, mas, na visão de Rosângela, mais "completa" ou mais "realizada". Existe uma espécie de inveja intensa e uma necessidade de marcar sua posição superior em relação à prima que leva Rosângela a situações as mais extremas.
Gostei muito da construção das personagens e da construção da narrativa. A única coisa que me incomodou foi a voz narradora. Vacilante e imprecisa, acho que teria me convencido mais se tivesse sido atribuída a alguém (quem, afinal, conta a história de Rosângela? Saber disso talvez me fizesse gostar mais dessa voz e da dificuldade que ela tem de dar conta do que Rosângela sente em relação à prima).
É impressionante como o Quintanilha consegue adentrar à obscuridade da psique humana ao tratar desse tema de máscaras sociais. Já tinha lido Tungstênio do mesmo autor há alguns anos e adorado, mas Talco de Vidro consegue me surpreender ainda mais. É um trabalho incrível. Eu me emocionei e me identifiquei em vários momentos.
A arte pode parecer estranha no começo, mas depois de um tempo você consegue notar como ele consegue representar emoções com facilidade. O diálogo é extremamente bem escrito, ao mesmo tempo que é coloquial e quotidiano, ele é intenso. Os personagens parecem que foram tirados de minha própria família.
Enfim, uma graphic novel que não deve nada a clássicos da literatura russa.
Não achei a arte extraordinária, mas merece 5 estrelas pelo roteiro e construção de personagens. Eu me senti como se realmente conhecesse todos eles, e a maneira como o autor criou seus pensamentos e sentimentos é fantástica.
Apesar de ser uma história bastante "negra", o autor é bastante inovador na forma de a contar e desenhar. A construção do suspense, por via da inveja da personagem que acompanhamos, é fenomenal!
The vibes are chef's kiss. It's the story of a woman that has a perfect life and how it goes down the hill from there. Never a book has put it so softly and transcribed so well my meltdowns into a not-so-relatable story. I recommend this book to everyone that daily life makes them go crazy.
Quintanilha parece ter um teclado que digita texto e imagens ao mesmo tempo. A precisão dele em escolher como construir o ritmo da leitura não-verbal e textual é de cair o cu da bunda. A classe média tem bafo e sorriso feio :)
Uma leitura ácida, refletida nas ilustrações em preto e branco. Nos faz refletir o quanto as aparências podem enganar através da vida bem sucedida de uma dentista de Niterói
O terceiro livro que leio do Marcello Quintanilha e agora consegui entender o motivo de ele ser tão bem considerado. Talco de Vidro é um dos melhores quadrinhos que você vai ler na sua vida.
Acabo de leerlo y aun con el libro en la mano y la angustia recorriéndo e el pecho, me viene a la cabeza la cosa de no entender y de preguntarme el por qué, la razón de ser de esta obra