Publicado em 1968, A falta que ama aprofunda questões que sempre marcaram a obra poética de Carlos Drummond de Andrade: afetos, memória e observações sobre a realidade brasileira.“Eternidade:/ os morituros te saúdam.”, escreve o mineiro em “Discurso”, poema que abre o volume. A um só tempo desencantada e sardônica, essa abordagem da finitude perpassa o livro inteiro, da forma mais drummondiana possível, com leveza e profundidade. Com posfácio de Marlene de Castro Correia, esta nova edição de A falta que ama conta com caderno de imagens e bibliografia recomendada para aqueles que quiserem mergulhar mais fundo na obra de um de nossos maiores poetas.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
No térreo se arrastam possuidores de coisas recoisificadas. No primeiro andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as remirando-as com lentes de contato. No segundo andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos. No terceiro andar- tlás tlás- a noite cria morcegos. No quarto, no sétimo, vivem amorosos sem amor, desamorando. No quinto, alguém semeou de pregos dentes de fera cacos de espelho a pista encerada para o baile das debutantes de 1848. No sexto, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem deve mudar, precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso. No oitavo, ao abandono, 255 cartas registradas não-abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika. No nono, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível. No décimo, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisóprasos na terrina. No décimo primeiro, moram (namoram?) virgens contidas em cintos de castidade. No décimo segundo, o aquário de peixes fosforescentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença. Atenção, décimo terceiro. Do vigésimo quarto baixará às 23 h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário. No décimo quarto, mora o voluntário degolado de todas as guerras em perspectiva, disposto a matar e a morrer em cinco continentes. No décimo quinto, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa. No décimo sexto, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças. No décimo sétimo, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibiótico. Não se sabe o que aconteceu ao décimo oitavo, suprimido da Torre. No décimo nono, profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico. No vigésimo, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbank trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais. No vigésimo segundo, banqueiros incineram duplicatas vencidas,e das cinzas nascem novas duplicatas. No vigésimo terceiro, celebra-se rito do boi manso, que de tão manso ganhou biografia e auréola. No vigésimo quarto, vide décimo terceiro. No vigésimo quinto, que fazes tu, morcego do terceiro? Que fazes tu, miss adormecida na passarela? No vigésimo sexto, nossas sombras despregadas dos corpos passeiam devagar, cumprimentando-se. O vigésimo sétimo é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adormecer de novo na segunda-feira. Do vigésimo oitavo, saem boatos de revolução e cruzam com outros de contrarrevolução. Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o vigésimo nono foi declarado inabitável. Excesso de lotação no trigésimo: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras. No trigésimo primeiro, A Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas. No trigésimo segundo, a Guerra dos 100 anos continua objeto de análise acuradíssima. No Trigésimo quarto, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio. No trigésimo quinto, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas. Um mosquito é, no trigésimo sexto, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões. No trigésimo sétimo, a canção filorela amarlina louliseno i flanura meliglírio omoldana plunigiário olanin. No trigésimo oitavo, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações. No trigésimo nono, a celebração ecumênica dos anjos da luz e os anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo. No quadragésimo, só há uma porta uma porta uma porta. Que se abre para o quadragésimo primeiro, deixando passar esqueletos algemados e conduzidos por fiscais do Imposto da Consciência. No quadragésimo segundo, goteiras formam um lago onde bóiam ninféias,e ninfetas executam bailados quentes. No quadragésimo terceiro, no quadragésimo quarto, no... (continua indefinidamente)
estou numa aventura de carlos em série. grande, gigante :) a falta que ama não seria diferente: 5 estrelas. gosto de ler os poemas várias vezes, muitas em voz alta, achando as miudezas. pra quem tá de férias é dos melhores passa(ganha)tempos.