Este é um romance habitado por homens e mulheres de várias idades, com origem em diversos contextos, de Moçambique à Venezuela, de Ponte de Lima a Oliveira de Azeméis, que têm em comum a sua condição de pacientes no Instituto Português de Oncologia do Porto. Um escritor viaja pelo mundo e, nesse turbilhão, tenta construir um romance com todas as histórias que lhe foram confiadas, até que o impensável acontece.
Do hiper-realismo, documental e autobiográfico, ao surrealismo, à alucinação e ao delírio, A Montanha é um romance de enorme ambição, que resgata momentos de profunda empatia e ternura, que revela o ser humano tanto na sua fragilidade como na sua máxima força.
Surpreendente nas múltiplas dimensões que propõe, este romance é um extraordinário tour de force literário, um marco muito alto na obra de um dos mais importantes escritores portugueses contemporâneos e, sem dúvida, uma referência inesquecível na bagagem de qualquer leitor.
O que José Luís Peixoto faz neste romance é algo novo em múltiplos sentidos. A barreira intransponível entre o hiper-realismo e o surrealismo torna-se permeável, porosa. São vários planos, uma espécie de metaverso da melancolia. É de uma concretização plena, o livro comove e sobressalta, retira-nos de um contexto do habitual, da explicação. Quero muito falar muito e com muitas pessoas sobre o que li!
uma das melhores leituras de 2025. um livro fragmentado, tenso, que instiga o leitor a sair do conforto da leitura para a procura do sentido. tal como refere "a tentativa de explicar tudo advém de mecanismos cognitivos e emocionais elementares", mas "explicar é uma tarefa que nunca termina. e nesse caminho o leitor procura o sentido. e ganha imenso na reflexão em torno do livro.
"Os doentes com cancro esperam que passe o tempo da sessão de quimioterapia, esperam que passem as semanas do tratamento, esperam que passem as manhãs, as tardes, as noites, esperam que passe o próprio cancro. Os doentes internados passam a maior parte do tempo à espera. A crença de que o cancro é uma doença incurável faz com que os doentes com cancro sintam essa espera como uma espécie de morte. Se viver é agir constantemente, ser produtivo, então esperar é estar morto."
Quando soube que o José Luís Peixoto tinha escrito um novo romance fiquei expectante para saber a sinopse do mesmo. Chegado o dia de a conhecer fiquei reticente em lê-lo, um livro sobre o cancro e com testemunhos de pessoas tratadas no IPO do Porto não seria uma leitura fácil de fazer, principalmente por uma pessoa, como eu, que tem familiares que passaram por essa terrível doença. Sempre que eu leio livros de testemunhos reais, seja de vitimas de guerra, catástrofes, doenças, etc, fico desapontada com a pouca emoção com que o escritor os transmite pois parece que "despejou" os factos. Mesmo assim arrisquei e não me arrependi. Este romance é arrebatador porque a escrita do José Luís tem alma, conecta-nos com o livro com uma profundidade incrível e deixa-nos vulneráveis e passamos a "estar" nos corredores do IPO do Porto ou no aeroporto com o Escritor. Não vos vou contar absolutamente nada sobre as histórias do Filipe, da Fátima, do João, da Alice, do Jorge ou do Daniel, têm que as descobrir.
Quem me conhece sabe que eu nunca faço os tops dos melhores e piores do ano e que nunca partilho o melhor livro do ano mas A Montanha é sem dúvida nenhuma o melhor livro que eu li em 2025. Não tenho palavras para qualificar este livro (coisa rara em mim) só me ocorre uma: SOBERBO.
Foi uma experiência de leitura recheada de muitas emoções, mas que, para mim, foi algo manchada por caminhos que o escritor tomou em determinados momentos da obra.
Apesar de ter tido alturas em que achei que me estava a defraudar as altas expectativas que criei, chego ao fim e tenho mesmo de dar 5 estrelas a este livro. Pela forma como está escrito, pela genialidade, por tudo o que DIZ! Adorei! És grande José Luís Peixoto!
"Passavam idades, assistias à erosão e, ainda assim, o fim era impensável. Tudo era tão importante e tão grande, o fim era impensável. Mas recebeste a notícia e, afinal, o fim existe, vê-se daqui"
"Os doentes com cancro esperam que passe o tempo da sessão de quimioterapia, esperam que passem as semanas do tratamento, esperam que passem as manhãs, as tardes, as noites, esperam que passe o próprio cancro."
"Achamos que conhecemos o quotidiano que nos envolve, fechamos-lhe os olhos porque acreditamos que está domado, desperdiçamos manhãs com a ingenuidade dos loucos e, de repente, acabou."
'... sente que a vida apresenta mais soluções do que problemas, as pessoas é que complicam, todas a querer ir para a faixa da esquerda, a quererem ultrapassar toda a gente."
"Os livros são tempo, pulmões a encherem-se de ar, o coração no seu ritmo, a bater, a bater, como agora, os livros são o momento em que foram escritos, o momento em que são lidos, mas também todo o tempo que passam à espera de serem abertos. As palavras dos livros são tempo guardado no silêncio. "
Comecei A Montanha com expectativas moderadas, sobretudo pela escrita reconhecida de José Luís Peixoto. Ainda assim, a experiência de leitura acabou por não resultar comigo.
Um dos pontos que menos gostei foi a narrativa fragmentada entre as conversas com os doentes oncológicos e as viagens, juntamente com o processo de escrita do autor. Esta alternância constante quebrou o ritmo e dificultou a imersão na história. Em vez de se complementarem, estes dois planos narrativos parecem desligados.
Ao longo da leitura, ficou-me muitas vezes a sensação de que este livro podia ser dois livros diferentes: um centrado nos diálogos com os doentes de cancro, com uma forte carga humana, e outro mais introspectivo, focado nas viagens e na reflexão sobre a escrita. Juntos, para mim, não funcionam de forma totalmente coesa.
A leitura é lenta e muito contemplativa, o que poderá agradar a alguns leitores, mas para mim tornou-se cansativa em vários momentos. Senti falta de maior fluidez e de uma progressão mais clara que mantivesse o meu interesse até ao fim.
É um livro que certamente encontrará o seu público, mas que, a nível pessoal, não correspondeu às minhas expectativas.
Este livro é uma verdadeira montanha de emoções. Um dos melhores livros do autor, um dos melhores que li este anos. Várias personagens (reais) que têm em comum serem pacientes no IPO. Viajamos com o autor por vários locais. Temos aqui um livro com vários estilos: hiper-realismo, documental, autobiográfico e surrealismo. Leva-nos a uma reflexão sobre a vida, tempo, fragilidade e força. JLP tem o poder de mostrar a doença como uma coragem literária e não com o pudor banal. A doença, o tempo perdido, a memória e a proximidade do fim são escritos com humanidade e beleza.
Gostei, mas... Aprecio muito a maneira de escrever do autor e muitas vezes este novo livro relembrou-me o "Morreste-me", que foi a primeira obra que li do Peixoto. Gostei que tenha colocado a palavra cancro a bold. No entanto, não sei se gosto da construção do livro, a parte fragmentária não me convenceu. Reconheço-lhe originalidade, mas não a sinto bem articulada com o restante tema do livro. Provavelmente a falha é minha e talvez não tenha escolhido a melhor altura na minha vida para ler este romance. Vou refletir sobre o livro e talvez venha a editar esta review. Seja como for, aqui fica a primeira impressão após concluir esta minha última leitura de 2025.
Mais de trinta anos depois, José Luís Peixoto regressa a "Morreste-me", aquele que continua ser, para mim, a obra mãe de toda a produção literária do escritor. E que escritor está José Luís Peixoto! Qualquer leitor que tenha acompanhado a carreira de Peixoto percebe, por um lado, a crescente e sólida qualidade literária da sua obra e, por outro, o momento exacto em que Peixoto deixou de ser um escritor para passar a ser outro, e esse momento, creio, acontece com "Livro". Ora, este seu novo projecto - chamar-lhe romance é ambicioso na mesma medida em que ambicioso é todo o projecto que deu lugar a "A montanha" - tem muito de toda a sua obra, o próprio autor faz questão de a trazer para aqui, mas tem, sobretudo, muito da sua obra pós "Livro". Não é uma obra sobre a luta humana contra o cancro sem, no entanto, deixar de o ser. É-o, na medida em que reflete sobre a dor, sobre a resiliência, sobre o amor, sobretudo sobre o amor. Mas também é uma obra sobre criação literária, sobre a condição de escritor, sobre a inconsciente metamorfose entre autor e obra escrita - metaliteratura, chamemos -lhe. Muito haveria a dizer sobre aquela segunda parte da obra, uma vez mais a recordar-nos "Livro", mas isso iria comprometer a leitura daqueles que se irão lançar sobre este objecto absolutamente literário. E na verdade, é isso: enquanto projecto literário, é a obra mais ambiciosa de José Luís Peixoto e que o afirma, definitivamente, como um dos melhores escritores da actualidade, para além das fronteiras da sua Galveias, do seu Alentejo, do seu país.
Gostei muito deste livro; achei-o verdadeiramente soberbo. Começo por destacar a forma bonita, sensível e original com que José Luís Peixoto dá voz e visibilidade aos doentes com cancro. Pessoas que, tantas vezes, passam a ser definidas apenas pela sua doença, aqui ganham profundidade e importância através dos detalhes das suas vidas, que nos vão sendo revelados ao longo da narrativa.
Outra nota muito relevante é o destaque dado à palavra «cancro», uma palavra que tantos de nós tememos pronunciar, quase sempre associada, de forma implícita, à ideia de morte. O autor enfrenta esse medo de frente, sem o contornar, e fá-lo com humanidade e respeito.
Este é um livro multifacetado, com vários ângulos apresentados ao leitor. Desde logo, a presença da metaliteratura, onde acompanhamos o próprio processo de escrita do autor. Ao longo de grande parte da obra, José Luís Peixoto reflete sobre a literatura, o poder das palavras e o ato de escrever, aproximando o leitor da história e do protagonista: o escritor. Um escritor que narra na primeira pessoa, mas que também observamos “de cima”, numa perspetiva quase distanciada.
A fragmentação é outro elemento constante na obra. Alternamos entre o presente do escritor e as histórias dos pacientes do IPO. Esta fragmentação não é aleatória, pelo contrário, parece-me essencial à narrativa. Não fossem os doentes com cancro pessoas cujas vidas são profundamente fragmentadas pela doença…
''O cancro separa os doentes do seu próprio corpo, deixa de pertencer-lhes. No momento do diagnóstico, a unidade divide-se em duas partes. O nome passa a ser uma sombra em busca da matéria que a sustente. O cancro fica com o corpo, é seu.''
Apesar do recurso a técnicas literárias que podem, à partida, parecer complexas, não senti essa complexidade durante a leitura. A escrita de José Luís Peixoto é belíssima, poética, carregada de melancolia, mas ao mesmo tempo simples e acessível. Confesso que, depois de terminar o livro, voltei ao início para reler e sublinhar inúmeros trechos.
O final é arrebatador e profundamente comovente, daqueles que dificilmente nos largam. É um livro que, quando termina, nos deixa a olhar para o vazio durante longos momentos, num silêncio introspetivo.
Considero que ''A Montanha'' é uma bonita homenagem aos doentes com cancro, à vida e ao amor, é ainda o regresso do autor a ''Morreste-me'' e, mais uma vez, à figura do seu pai, num diálogo íntimo com a perda, a memória e a efemeridade da vida.
Por fim, deixo a nota de que poderá ser uma leitura difícil para leitores mais sensíveis, ou para quem tenha particular dificuldade em ler sobre o tema do cancro. Ainda assim, acredito que também pode ser um livro que ajuda, que conforta e que, de certa forma, abraça processos de luto.
''A vida atravessa o livro, está fora do livro e dentro do livro, a vida existe antes e depois das palavras, existe nas pausas entre as palavras, a vida cobre as palavras, entranha-se nas palavras.''
Os doentes com cancro ainda são quem eram antes de terem cancro (pag 192). Eu, Maria, como a Fátima, o Daniel, a Alice, o João, o Filipe e o Jorge, sabemos que fragmentação da nossa realidade, nem sempre perceptível aos outros ou por nós entendida, será companheira previsível durante e após o cancro, seja em que espectro de existência for. Nenhum cancro existe sem sofrimento (pág 169), ainda que não seja fisicamente visível. Os cancros, como os livros, são vida. Que se atravessam, por fora, por dentro, fragmentados antes e depois das palavras, das pausas e na ausência das mesmas.
Um romance marcante, entre os grandes da literatura da nossa língua e não só. Um romance que exige uma leitura cuidada e que, com toda a certeza, agradará a leitores exigentes, daqueles que lêem literatura. Por sua vez, um romance que deixará insatisfeito quem procura livros ligeiros para passar o tempo. Estou muito agradecida à Filó, que me conhece bem e mo ofereceu. Obrigada, maninha <3
«achamos que conhecemos o quotidiano que nos envolve, fechamos-lhe os olhos porque acreditamos que está domado, desperdiçamos manhãs com a ingenuidade dos loucos e, de repente, acabou. e ficamos com a boca cheia de mas sem préstimo: mas, mas.»
tal como foi sublinhado pelo Times Literary Supplement, José Luís Peixoto revela «uma extraordinária forma de interpretar o mundo.» e essa extraordinária forma de interpretar o mundo distingue-se das demais: tanto a forma como escolhe contar a história, como o encadeamento e a escrita são singulares e únicas. fazendo as palavras de Eduardo Prado Coelho minhas, «José Luís Peixoto tem essa qualidade notável: bastam duas linhas e entramos num continente novo, num lugar inédito do espaço literário.» este continente novo é habitado por homens e mulheres, pacientes do Instituto de Oncologia do Porto, com histórias de vida diferentes, mas com um denominador comum — o cancro — e pelo Escritor, a quem foram confiadas as memórias e histórias destes pacientes.
não é apenas um livro sobre cancro, é muito mais que isso. contudo, para manter a magia da descoberta para todos os que tenham interesse em ler este livro (leiam, por favor), penso que mais nada se deverá desvendar. o autor poderia ter transformado os testemunhos num romance normal — mas nunca banal, dada a riqueza dos mesmos —, mas fez muito mais que isso e penso que ao fazê-lo fez mais justiça a quem corajosamente partilhou a sua história.
«nas páginas escritas, Fátima continuava na berma da estrada, era sempre maio, os peregrinos saciavam sempre a sede; Filipe conduzia na estrada ou na Internet, entre carros ou entre sinónimos científicos de cancro, termos médicos de maior precisão; Daniel continuava a brincar com o filho na sala, no pavilhão do andebol, ou continuava sobre um palco com o conjunto de baile; Fátima continuava a pensar na vida, em tudo o que poderia acontecer a seguir.»
«de nada serve ao doente com cancro mudar de paisagem, mudar de ares, a luta trava-se dentro do seu corpo. uma vez que se imagina o cancro encerrado no corpo do doente, identifica-se o doente com o cancro: o doente é o cancro.»
«só através da nossa vida somos capazes de conceber a vida dos outros.»
Que dizer deste livro? Arrebatador. Com a escrita envolvente e sensível a que o José Luís Peixoto já nos habituou. Este é daqueles livros que gostava de ler outra vez sem conhecer o seu conteúdo.
Falar de cancro é difícil. É um tema que só por si dói. Fala de dor. De sofrimento. De solidão. Mas o José Luís Peixoto abordou-o neste livro com a rara sensibilidade da sua escrita. Com delicadeza. Fez com que o tema fosse menos pesado.
A convite do IPO do Porto, o autor partilha o testemunho de alguns pacientes com cancro, fazendo ao mesmo tempo uma analogia ao tempo em que o seu pai adoecera.
De repente, a realidade confunde-se com a ficção. Numa reviravolta inesperada.
Ainda estou a assimilar o final que deixou o meu coração apertado.
Arriscaria dizer que será o melhor livro do autor. Ainda que tenha medo de o fazer porque estou a tirar importância aos livros anteriores. Cada um foi bom à sua maneira. Mas sinto que este elevou a fasquia.
De uma forma arrebatadora e sublime, este livro aborda uma temática tão violenta como o cancro com uma sensibilidade extraordinária.
A delicadeza com que as histórias reais são abraçadas pela ficção resulta numa escrita leve mas muito envolvente, apesar da sua fragmentação, que nos faz escalar esta montanha de dimensões.
I thought this book would be hard to read, but it wasn’t. I expected to feel alone with the words, but instead, I felt the opposite. The novel unfolds as the writer reflects on interviews with cancer patients, alongside an oncologist and a psychologist. At its core, the book explores the dimensions within the word ‘cancer’ and the deep confrontation it evokes within yourself — everything that cancer represents. Beautifully written and profoundly powerful.
Um dos escritores portugueses que mais aprecio.A sua flexibilidade e evolução como escritor atinge neste livro uma nova forma de descrever o terrível impacto, no ser humano que contrai esta doença. Tema difícil, muito nb agarrado pelo autor.
Que livro! Como é apanágio deste autor, está muito bem escrito e bem construído. É uma história muito dura - do ponto de vista emocional, foi, seguramente, muito difícil de escrever e é, com certeza, difícil de ler. Mas é uma leitura obrigatória... A vida do autor e do seu pai entrecruza-se com as vidas de doentes oncológicos do IPO do Porto e também com alguma ficção. É uma leitura para saborear e reflectir, pois o texto inclui pensamentos de grande profundidade e delicadeza. Excelente. À qualidade do livro soma-se a louvável iniciativa (não sei se do autor, se da editora Quetzal), referida na página 6, de que parte dos lucros da venda serão entregues ao IPO e, portanto, destinam-se a ajudar os doentes oncológicos.
Este livro foi, para mim, uma leitura muito marcante, sobretudo pelo tema que aborda e pela dureza e sinceridade com que o aborda. Ainda assim, apesar de já ter lido outros livros do autor, houve momentos em que me senti perdida na narrativa. A fragmentação e os silêncios, que são também parte da força do livro, acabaram por me deixar confusa em algumas partes. Não é um livro fácil nem confortável, mas é um livro necessário e honesto, que nos confronta com uma realidade que nos faz perceber a nossa pequenez e deixa espaço para reflexão.
2✨️ este livro simplesmente não funcionou para mim a narrativa fragmentada não resultou comigo, tornou difícil criar interesse por qualquer personagem e tornou tudo de certaforma confuso. no entanto a escrita despertou-me curiosidade e planeio dar uma nova oportunidade ao autor
vi reviews a dizer que o que fica deste livro é uma vontade enorme de falar, e, talvez em homenagem à conclusão, seja exatamente isso que procuramos, subverter a sensação de ausência de explicação que paira, casada com uma explicação que não auxilía a emoção de virar a última página.
algo sobre este livro me remete para a expressão flutuar, sinto que naveguei entre histórias desoladoras, pedaços de informação, realismo puro e surrealismo tudo ao mesmo tempo, alucinação, delírio, dor, realidade. é uma experiência envolvente do início ao fim, de uma prosa belíssima e de satisfação etérea a cada momento. é uma verdadeira obra de arte, simultaneamente crua e objetiva e completamente aberta.
pareço poética e pouco clara a falar deste livro, mas não sei como o fazer de outra forma. não é absolutamente nada do que espera dele. a sinopse não prepara a história. não é um relato jornalístico de pessoas a morrer. não é uma romantização da vida dos pacientes. é simultaneamente um livro sobre cancro sem o ser, sobre vida e pureza e escrita e amor e arrependimentos e sobre finitude. sobre o fim. mas não da forma como o pensam, o que quer que pensem, não é isso. é melhor, mais surreal, mais belo. não sei explicar.
além disso, uma característica lírica que tenho que mencionar: o José Luís Peixoto é extremamente consciente do leitor, e extremamente consciente das suas ações e movimentos no ato de escrever. há parágrafos e linhas de pensamento que são um retorno à génese do próprio ato de criar, de escrever, e portanto um choque e uma realização no ato de ler, de respirar, de segurar o livro. tornamo-nos profundamente conscientes enquanto perdidos numa navegação subconsciente e não há palavras para quão bela acho essa narração.
nas palavras de outra review é um jogo espetacular e obsessivo entre reconhecimento e surpreendimento. verdade humana entrelaçada na mais pura e livre ficção.
deixo, como de costume, algumas das frases que mais me marcaram
"Tenho pena de tudo o que começo agora a perder para sempre, até os objetos mais comuns. Olho para a cama, esforço-me por vê-la. De todas as camas em que estive, tantas, esta é a última. O meu coração ainda bate, e tenho tanta pena de saber que nunca mais vou encontrar as camas em que estive, as noites que dormi em todas essas camas, as idades que não sei se valorizei." - por motivos pessoais, esta frase mudou a minha vida
"Os livros são tempo, pulmões a encherem-se de ar, o coração no seu ritmo, a bater, a bater, como agora, os livros são o momento em que foram escritos, o momento em que são lidos, mas são também todo o tempo que passam à espera de serem abertos. As palavras dos livros são tempo guardado no silêncio"
e, finalmente, e acreditem que foi difícil escolher,
"Não sei onde estou, não sei por onde estou a passar, há angústia nesse desconhecimento, mas também há indiferença, desisto ou sou obrigado a desistir. Quando Björn me segura por baixo dos braços, quando se prepara para me levantar da cadeira, penso no telemóvel, quero telefonar para Casa, quero enviar uma mensagem para Casa. Mas as mãos deixaram de existir. O vazio entope-me a garganta. Tive todas as palavras à disposição, pude usar qualquer palavra, qualquer uma, esbanjei palavras; agora, não possuo uma única; agora, só me posso conformar com o que fica por dizer."
ai... não consigo. fica mais uma para o caso de quererem uma parte mais realista
"Assim parecia e, por associação de ideias, só conseguia imaginar o cancro dos outros a partir do cancro do meu pai? Essa ideia começou por parecer-me desonesta, injusta, tanto para com Alice como para com o meu pai, tive alguma vergonha. Mas, logo depois, dando continuação ao raciocinio, seguindo lógica simples, percebi que não. Só através da nossa vida somos capazes de conceber a vida dos outros. A fluidez desta constatação confortou-me, tão natural, trouxe-me paz"
Em A Montanha, José Luís Peixoto constrói um romance denso e simbólico, fiel ao universo literário que o consagrou: um espaço rural marcado pela dureza da vida, pela solidão e por uma relação quase mística entre o ser humano e a paisagem.
A narrativa centra-se numa comunidade isolada, onde o tempo parece suspenso e a vida se rege por ciclos repetitivos de trabalho, silêncio e resistência. As personagens não surgem muitas vezes como indivíduos plenamente definidos, o que reforça a dimensão universal da história, mas cria alguma distância emocional no leitor.
A linguagem é um dos grandes pontos fortes do romance. Peixoto escreve com uma prosa poética, marcada por frases densas, imagens fortes e um ritmo lento, quase ritual. Essa escrita exige atenção e disponibilidade: não se trata de uma leitura rápida ou fácil, mas de uma experiência literária que se constrói pela repetição, pela cadência e pela sugestão. A economia de diálogos e a predominância de descrições interiores contribuem para uma atmosfera de clausura e introspeção.
É um livro exigente e, por vezes, excessivamente pesado. A lentidão narrativa e a insistência num tom sombrio podem cansar leitores menos familiarizados com o registo do autor. Em certos momentos, a carga simbólica sobrepõe-se à ação, o que pode dar a sensação de estagnação.
O primeiro de 2026. Lido entre o Natal e o dia de hoje, maioritariamente nas madrugadas. Terminado na madrugada de hoje, às 5h53m. Considero que está terminado, apesar de me faltarem 4 páginas da "conclusão/palestra". Parei de propósito: já tenho a frase pricipal da conclusão ("Quando é dada uma só resposta a uma pergunta, trata-se sempre de uma simplificação.") e para o demais ainda tenho de criar espaço. Muito se dirá, ou não, sobre o livro, mas eu adorei. Que construção! Que subtileza nos detalhes! Está cá tudo, ainda que parte apenas nas entrelinhas e na cabeça (no coração) do Escritor. Nada disto é sobre cancro, é sobre vida(s). Não é à toa que já se disse que José Luís Peixoto tem "uma extraordinária forma de interpretar o mundo". Na dedicatória José Luís Peixoto escreveu "Muito obrigado.", mas eu é que agradeço.
Um livro composto por estórias verdadeiras de doentes do IPO do Porto + estórias autobiográficas + estórias mirabolantes que só podem nascer da pura ficção. E funciona! Tudo se conjuga e tudo faz sentido! E provoca-nos! E estimula-nos! A ambição dos projetos literários do JL Peixoto tem sido crescente e, neste livro, atinge alturas inéditas. Talvez não seja uma leitura para toda a gente, mas será que existem leituras para toda a gente? "A montanha" é um livro de Literatura, com maiúscula, tal como o Peixoto escreve Escritor. E que Escritor temos aqui! Que continue a experimentar e a evoluir por longos anos é o que desejo!
José Luís Peixoto escreve sobre 6 pacientes do IPO do Porto e sobre as diferentes formas como as suas doenças se manifestaram e afetaram as suas vidas. Escreve sobre a doença que matou o pai. Escreve sobre as suas viagens. Escreve sobre os seus encontros com leitores. Escreve sobre um tratado de literatura e o seu ir(real) autor. Escreve sobre o seu processo de escrita, as suas dúvidas, as suas dores sempre de forma fragmentada, mas tudo se encaixa. São muitos livros num só livro, muitas referências a romances anteriores, testemunhos inseridos com grande sensibilidade, um livro que nos faz pensar sobre o sentido da vida.