Li o livro Introdução ao Pensamento Complexo do Edgar Morin. Sempre tive muita curiosidade sobre esse assunto, mas nunca achei algo do jeito que eu queria, não tinha grandes expectativas no livro e ele não é do jeito que eu imaginava, mas foi uma leitura muito interessante.
Penso diferente em alguns pontos, ou não entendi os argumentos, mas o interessante é que, como descrito pelo autor, a complexidade é composta de contradições e mal entendidos, então mesmo tendo entendido algo de modo diferente ele foi muito positivo.
Vou procurar ao máximo evitar cair em clichês para desculpar ou argumentar que tudo é complexo. O assunto é denso e me trouxe inúmeros pensamentos, então é inevitável gerar um textão, vou procurar classificar algumas ideias em parágrafos diferentes e não simplificar, como o autor tanto condena.
Morin contesta muito a simplificação, o isolamento de fatores, tanto na ciência como nas ideologias, esse reducionismo não deixa espaço para a contradição ou mesmo a confusão que assuntos complexos tendem a ter.
Sempre fui muito crítico com as contradições e ambiguidades e sempre tentei eliminá-las em mim. Através do livro consegui perceber que existem níveis de contradições. Por exemplo, um determinado produto pode ser considerado um remédio ou um veneno, ele pode curar ou matar, dependendo da dose. Então percebo que a contradição que não gosto é a simplista, a que tenta resumir tudo eliminando todas as nuances da complexidade e torna a contradição muito contrastante. O resultado são dois objetos isolados sem os pontos que as conectam, como se o produto (remédio ou veneno) fossem totalmente diferentes e a diferença não fosse somente a dose. Resumos de ideias tendem a cair na lógica simples, ou seja, “Tudo que é raro é caro, um cavalo barato é raro, logo um cavalo barato é caro”.
Usando o reducionismo do 8 ou 80 em que vivemos, ou é assim ou é assado, gera muita confusão e não leva a lugar nenhum, ou melhor leva a conflitos. Nessa escala (8 ou 80), poderíamos pensar que existem as possibilidades de 9 a 79, o livro mostra que existem escalas inferiores e superiores, além de frações e o mais importante, dependendo de outras fatores, ora pode ser um número ora outro.
Sempre me posicionei sob diversos pontos de vista e isso gera um argumento meio chato, de que sou um “isentão”, sou um “em cima do muro”, mas é assim mesmo, dificilmente tenho uma resposta digital, zero ou um, tendo a respostas em escala. Não acredito em um certo e um errado, vejo em muitas discussões dois certos ou dois errados e a maioria das vezes dois mais ou menos certos e errados. Muitos têm a necessidade de simplificar tudo a uma ou duas palavras e ao fazer isso perde-se toda a noção do fato real, do mundo real.
Não é possível ter certeza de nada, vide a ciência que tenta isolar tudo a um ambiente perfeito, as famosas “condições ideais de temperatura e pressão”. A terra já foi considerada plana, centro do universo, a física de Newton foi colocada em cheque pela quântica. Outro fator bastante abordado no livro é sobre a complexidade do macro e do micro, ou a (in)finitude do universo, no nível macro, e das sub-partículas de um átomo no âmbito micro, desde piá essas questões me perseguem. Então, se é impossível afirmar alguma coisa no mundo físico, real, imagina no mundo das ideias. Sempre faltará um fator ou ingrediente, esquecido ou isolado na densidade do complexo. O filósofo Rousseau, diz que; o homem, em essência, é bom, desde que se retire todos os fatores que causam os males. Se ninguém tiver posses ninguém invejará ou terá poder advindo de riquezas. Pensamento muito simplista é sem aplicação prática, mas é a base do pensamento de ideologias políticas. Igualdade com restrição de liberdade, supressão da vontade individual, simplificação a força.
Hoje podemos definir e medir uma cor e dizer quanto tem de vermelho, azul e amarelo no mundo orgânico; de ciano, magenta e amarelo nos impressos ou vermelho, verde e azul nos monitores de TV, computadores ou Gadgets, mas não se pode eliminar o tipo de papel, textura, luz e brilho desse mundo. A complexidade sempre tem uma variável que queremos eliminar para simplificar. E por mais que queiramos incluir tudo, sempre vai faltar uma variável, é assim, a complexidade é rebelde ela quer tudo.
O efeito Moiré é quando sobrepomos dois ou mais padrões e esses geram outros, como figuras geométricas sobrepostas de diversos tamanhos e transparentes, ou mesmo ondas sonoras combinadas. Não dá para reduzir e isolar cada padrão assim tão facilmente. Gosto dessa analogia e a aplico a música e mesmo a comportamentos, existem pessoas que se comportam de determinado modo, mas quando na presença de determinado alguém são bem diferentes, como se alguns casais que, quando juntos, parecem ser uma terceira personalidade.
O observador faz parte da complexidade de determinados fatos ou objetos. Eu percebo muitas coisas de modo diferente em instantes diferentes, ou quando estou em humores diversos e principalmente quando amplio o conhecimento sobre este fato ou objeto. Aqui caberia um pensamento um pouco confuso com o experimento do Gato de Schrödinger, mas não tenho noção de como encaixar isso de modo claro, quem já ouviu falar sobre ele, talvez entenda onde quero chegar, mas o observador acaba contaminando o ser observado.
Pode-se pensar a complexidade como um quebra cabeças sem modelo da imagem, sem a “cola”. A cada peça colocada gera um nova visão, ela não encerra a paisagem que já vislumbramos e sim abre novas paisagens que podem existir, por isso vejo que nada termina em uma nova descoberta e sim abre novos campos de pesquisa.
Como delimitar e classificar algo, afinal não da para abraçar o mundo. Temos que estipular limites ao estudar determinado assunto, temos que ter algo palpável e dados que possam dar compreensão e visão do todo. Pensando nisso imagino que esses limites não possam ser simplesmente cortes secos, eles devem ser uma espécie de degradê, um chanfro que mantém parte daquilo que não queremos ver agora, mas ele deve estar presente em um grau, menor, mas devemos lembrar que existe algo além das fronteiras que criamos. Na linguagem gráfica se usa a expressão “sangramento” para ajustar algo milimetricamente planejado ao mundo real.
Seguindo o pensamento do parágrafo anterior, o autor cita alguns ajustes necessários para permitir a “perfeição” funcionar. Quanto mais peças e quanto mais ajustados alguns mecanismos são, mais eles precisam de óleo específico e sistemas de refrigeração para funcionar. Cita os exemplos de empresas que tem regras rígidas e sem muitas alternativas de determinadas operações, elas precisam de pessoas com jogo de cintura, como se fossem o óleo lubrificante daquelas engrenagens para elas não emperrarem.
No livro é feito uma comparação entre objetos criados e autoajustáveis, essa parte não tive a compreensão total e posso estar resumindo errado. Mas se pensarmos em uma máquina ou equipamento eletrônico, a vida útil dele será dada pela fragilidade de uma determinada peça, o elo mais fraco ou MTBF (para quem já se deparou com esse cálculo de vida útil de um equipamento). Sendo assim, todas as peças devem ser calculadas para terem uma vida útil semelhante, ou todos os elos da corrente devem ter a mesma resistência. Já em um organismo autoajustável, associado aqui a entidades orgânicas. A fragilidade entre os componentes pode ser diferente, sendo que elas tem a capacidade de se autoajustar ou mesmo regenerar, ou então outros componentes poderem dar uma força aos mais desgastados ou exigidos. Pensando assim a complexidade tem um jogo de cintura bem maior do que o ser humano que quer simplificar tudo.
Uma frase muito destacada é: “A parte está no todo e o todo está nas partes”, isso pode ser um pouco subjetivo, mas eu vejo algo dos “fractais” e se pensarmos em DNA, onde todas as cadeias têm todas as possibilidades, só que as configurações foram específicas para determinada aplicação. Todas as células de um corpo poderiam assumir qualquer função, desde que tenham sido configuradas nas suas moléculas de DNA. Também lembro de um dos primeiros treinamentos corporativos que tive, onde contavam a historinha de dois trabalhadores de uma obra, a eles era perguntado: -O que você está fazendo, um dizia -Quebrando pedra, enquanto o outro dizia -Construindo um prédio.
Outro insight que tive foi sobre metáforas e porque sempre gostei delas e uso para eu compreender e também tentar explicar algumas coisas. Metáforas normalmente são utilizadas para descrever algo novo comparando-o com algo já conhecido, em vez de re-explicar algo muito complexo, pode-se tentar transferir essa complexidade do conhecido para algo desconhecido. Como herdar algo pronto e poder reutilizar sem exigir tanto tempo e estudo. Tento resumir muitas coisas com analogias e metáforas, considero um bom método para evitar muitas perdas e também transferir a complexidade necessária ao assunto.
Um aprendizado. Os conceitos de planejamento e estratégia tem um pouco do que traz o capítulo de entidades autoajustáveis. Planejamento é um pouco o conceito de equipamentos, que devem ter lubrificantes e refrigerantes para funcionarem e não emperrarem, já estratégia tem algo do ser autoajustável, tem jogo de cintura e equilibra melhor as fragilidades em nome de uma meta.
A complexidade não deve ser a desculpa para o mal feito, o inacabado, a gambiarra, o puxadinho que geram os efeitos que o mundo atual enfrenta, principalmente o Brasil, cada um isola o seu problema e quer que somente ele seja resolvido. A complexidade mostra que tudo está relacionado, muita coisa que é tratada como causa é efeito de outras variáveis e essa relação pode ser invertida em outra situação, mas a clareza, seriedade e real tentativa de resolução deve ser o norte sempre.
Devemos, dentro do possível, buscar a redução e simplificação, mas de modo consciente, sabendo que falta algo, sem a arrogância de achar que a verdade pode estar em uma palavra ou frase.
A contradição existe e ela pode estar relacionada a incompreensão, ou a pontos de vista diferente ou mesmo a interesses das partes. Nesse caso deve ser questionado o âmbito ao qual você tem autonomia, ou seja, seus próprios conceitos.
Esse livro conseguiu ajustar alguns pensamentos que eu achava contraditórios, ou pelo menos me deu mais subsídios para algo que já desconfiava. E também mais liberdade para criar fronteiras mais flexíveis para pensamentos, não querer falar tudo, talvez um dia eu volte ao assunto, mas por enquanto basta.
Frases que anotei:
Pascal: “Considero impossível conhecer as partes enquanto partes sem conhecer o todo, mas não considero menos impossível a possibilidade de conhecer o todo sem conhecer singularmente as partes.”
T.S. Eliot: “Que conhecimento nós perdemos na informação e que sabedoria perdemos no conhecimento?”