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232 pages, Paperback
First published April 1, 2013
Não desistiremos de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar ao ponto em que partimos
E conhecer o lugar pela primeira vez.
Quando partir em sua viagem para Ítaca,
reze para que a estrada seja longa,
cheia de aventura, cheia de conhecimento.
Guarde sempre Ítaca em sua mente.
Chegar lá é sua meta suprema.
Mas não apresse a viagem de maneira alguma.
É melhor deixá-la durar muitos anos;
e ancorar na ilha quando você for velho,
rico com tudo que tiver ganhado no caminho,
não esperando que Ítaca vá lhe oferecer riqueza.
Ítaca lhe deu a bela viagem.
Sem ela você nunca teria partido pela estrada.
Ela nada mais tem para lhe dar.
E se a achar pobre, Ítaca não o enganou.
Sábio como se tornou, com tanta experiência,
Você já deve ter compreendido o que essas Ítacas significam.
Eles chamam toda experiência dos sentidos de mística, quando a experiência é considerada.
Assim uma maçã se torna mística quando saboreio nela
o verão e as neves, o rebuliço selvagem da terra
e a insistência do sol.
…
Se digo que saboreio essas coisas numa maçã, sou chamado de místico, o que significa um mentiroso.
A única maneira de comer uma maçã é devorá-la como um porco
e não saborear nada
isso é real.
Quanto a mim, não espero que Deus se mantenha sempre sob controle,
Cabe suportar alguns excessos
De tão grande poeta, e não se zangar
Se aquele que colore a flor do pêssego
E curva o arco-íris sobre o oceano que ele doma
Nos dá um beija-flor num dia e no outro um mastodonte!
É de seu feitio ter algum mau gosto,
E acrescentar mal a desgostos e vermes a esgotos,
E fazer tudo numa escala assombrosa,
E ser Rabelais e Michelangelo combinados.
É Deus: quanto a mim eu o aceito.
Primeiro, imagine dois tipos de pessoas que nunca se enamoraram. O primeiro tipo são os românticos, que acreditam ser possível apaixonar-se perdidamente. Em nossa analogia eles são como as pessoas religiosas que nunca experimentaram Deus. O segundo tipo são os céticos do amor, que pensam que o amor nada mais é que desejo sexual glorificado e a história fantástica dos hormônios. Eles são como os ateus.
Nós vos agradecemos, Pai, por essas estranhas mentes que nos seduzem contra vós.
Outra noite, encontrei debaixo de uma nogueira um regador cheio pela metade que um jovem jardineiro esquecera ali, e esse regador, com a água dentro dele, escondido pela sombra da árvore, com uma barata-d’água remando de uma margem à outra daquela água escura: essa combinação de trivialidade me expõe a tamanha presença do infinito, atravessando-me desde as raízes do cabelo até a base dos calcanhares, que me sinto como que explodindo em palavras que, se eu as tivesse encontrado, teriam desconcertado aqueles querubins em que não acredito.
Olho para uma vasilha cheia de azeitonas e sinto respeito. Vivemos habitualmente, todos nós, sobre os nervos, em ritmo mais acelerado que a percepção. Essa nervosidade é um sucedâneo: substitui a vida, não é a vitalidade. Vivendo com a velocidade dos nervos, a importância de uma azeitona me escapa.
A metade de nossos dias passamos na sombra da terra, e o irmão da morte cobra uma terça parte de nossas vidas.
Durante toda a sua vida deram-lhe crença após crença, e ele entornara acriticamente essa argamassa na estrutura de sua mente, como um pedreiro bêbado. Ele compreende que, se quiser construir uma estrutura permanente de conhecimento, deve primeiro demolir a estrutura de opinião preexistente. Deve destruir suas crenças por completo e começar de novo, dessa vez construindo sobre um alicerce absolutamente firme e seguindo um plano infalível.
*
Com base em boas evidências históricas, sabemos como Descartes de fato morreu. Embora seus escritos não contenham nada de obviamente subversivo com relação à política, ele com frequência estava em apuros com várias autoridades. Em um episódio particularmente notável, foi acusado pela Universidade de Utrecht de solapar a teologia ortodoxa e a filosofia tradicional, com isso desencaminhando os jovens — em suma, aquelas velhas acusações feitas a Sócrates, impiedade e corrupção da juventude. Assim, quando a rainha Cristina, que era dotada de bastante curiosidade intelectual, o convidou para ir à tolerante Suécia para ser seu professor, Descartes aceitou o convite, decidido a ser “um espectador em vez de um ator nas comédias da vida”. Infelizmente, a vida de uma rainha é exigente, e ela marcou suas aulas para o raiar do dia. Nas desagradáveis caminhadas matinais até o castelo, Descartes — que estava acostumado a dormir até o meio-dia — pegou uma pneumonia. Ele morreu num dia frio de 1650. Estranhamente apropriado, à sua maneira.
Blaise Pascal — nascido em 19 de junho de 1623 em Clermon, Auvergne — perdeu a mãe quando tinha três anos e foi criado com suas duas irmãs por um pai amoroso, um comissário fiscal. Como Descartes, Pascal foi um gênio em todos os sentidos da palavra. Aos doze anos, havia deduzido por si mesmo as 32 primeiras proposições de Euclides. Aos dezesseis, publicou um tratado sobre o “hexagrama místico”, em que expôs o que é conhecido ainda hoje como o teorema de Pascal. Descartes, quando lhe apresentaram o tratado, se recusou a acreditar que havia sido produzido por um adolescente. Aos dezenove anos Pascal tinha inventado a pascalina, uma máquina de calcular destinada a aliviar a carga de trabalho do pai. Esse computador foi ligeiramente modificado ao longo dos séculos seguintes e em 1971 tornou-se o primeiro microprocessador, esse grande símbolo do nosso tempo. (Uma das primeiras linguagens de programação computacional foi chamada de Pascal em homenagem ao inventor.) Aos 24 anos, ele subverteu 2 mil anos de pensamento sobre hidráulica em seus Novos experimentos sobre o vácuo. Ele mais ou menos inventou a prensa hidráulica e — outro símbolo de nossa era — a seringa. Aos trinta anos, publicou seu Tratado do triângulo aritmético, uma obra pioneira sobre coeficientes binomiais. No ano seguinte, estimulado pelos problemas com jogos de azar do Chevalier de Méré, seu amigo, inventou a teoria das probabilidades.
Muitas vezes recuamos ante a perspectiva de levar uma vida constantemente honrada. “É difícil demais”, tendemos a nos queixar. É verdade. Não podemos levar uma vida perfeita. Mas aqui também a filosofia de Kant é útil. Um poeta disse certa vez que a mensagem de Buda podia ser resumida em uma palavra: acorde. Em essência, toda a difícil obra de Kant pode ser resumida em uma palavra: cresça. Tome um par de questões pessoais e um par de questões públicas e decida pôr o imperativo categórico em prática. Onde fracassar, use sua imaginação para conceber uma vida em que o fracasso seja menos provável. É o falso dilema da adolescência dizer: “A perfeição ou nada.” A maturidade envolve compreender nossos limites, mas não sermos oprimidos por eles. Aliás, mudar nossa vida em geral não é tão difícil; é decidir mudar nossa vida que causa a maior parte dos problemas.
Assim como Buda chama o despertar de iluminação, Kant chama o crescimento de iluminação. Como seres racionais, temos uma infância, adolescência e — esperemos — uma maturidade. Começamos na infância aceitando tudo que as pessoas dotadas de autoridade nos dizem. Ao desencadear nossa liberdade, a adolescência nos conduz a uma encruzilhada, onde podemos nos aferrar à autoridade ou rejeitá-la. Nenhuma das duas escolhas é adequada, em última análise. Aferrar-se à autoridade é recusar-se a crescer. Rejeitar a autoridade muitas vezes simplesmente substitui uma tirania externa por uma tirania interna, uma tirania em que nossas vontades e desejos estão recém-vestidos como reis e rainhas. Mas, se levarmos nossa natureza racional até o fim, chegaremos a ver os limites de nossos poderes, tanto os nossos próprios quanto os das autoridades, e por vezes até a vislumbrar o fundamento de uma existência humana, de modo a sermos capazes de fazer julgamentos refletidos sobre os pontos em que a autoridade está de acordo com seus princípios fundadores ou se afasta deles. Como adultos, devemos nos esforçar para sermos morais, mas não egoístas; racionais, mas não estritamente dogmáticos; investigativos, mas não destrutivamente céticos; preocupados com a nossa virtude e com a felicidade dos outros, não com a nossa felicidade e a virtude dos outros; sensatos e não tolos em nossos julgamentos; conscientes de nós mesmos, capazes de nos corrigir, conscientes de nossos limites e merecedores de nossa liberdade. Se é da natureza humana que nunca possamos ser perfeitamente bons, é também da natureza humana que a própria nobreza que nos esforçamos para alcançar resida no esforço.