Nesta peça de renome internacional, o autor narra o emocionante calvário do simplório Zé-do-Burro: para cumprir promessa feita a Iansã, pela cura de seu burro, ele divide seu sítio com os lavradores pobres e carrega pesada cruz de madeira no percurso de sessenta léguas, com o objetivo de depositá-la no interior da igreja de Santa Bárbara, em Salvador.
Ao contrário do que acontece com muitas obras teatrais de qualidade, que se iniciam com ímpeto e às vezes o mantêm até certa altura para nos frustrar no final, esta peça de Dias Gomes é um todo completo e acabado: o seu final não resulta em frustração, mas em plenitude. E para isso é preciso que se reúnam, na realização da obra, aqueles fatores imponderáveis que dão nascimento à verdadeira obra de arte.
. Autor das as aclamadas peças O rei de ramos, O santo inquérito e O bem amado.
· Nova identidade visual, orelhas assinadas por Ferreira Gullar.
· Título de enorme sucesso no Brasil e no mundo, serviu de tema ao filme do mesmo título, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1962.
Alfredo de Freitas Dias Gomes, mais conhecido pelo sobrenome Dias Gomes, foi um romancista, dramaturgo, autor de telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras.
Gênio. Na caracterização das personagens, nas sutilezas das falas e ações que vai desenvolver uma obra completa. Vi o filme quando era menino, e a cena da incompreensão do padre com o motivo da promessa me impressionou. Pois voltei a encontrá-la quando li o texto, tal e qual havia sentido. Talvez não haja texto dramático que tenha lido que supere O Pagador de Promessas.
Zé do burro precisa cumprir uma promessa, levar uma cruz nas costas até uma igreja de Santa Bárbara. O Padre não permite, porque a promessa foi feita em um terreiro ao invés de uma igreja. O destino de Zé do burro é ficar plantado com sua cruz em frente a igreja sem desistir da promessa, decidido a honrar com a própria palavra diante da santa escolhida para a graça alcançada. Esta peça tem uma sensibilidade ímpar a respeito da condição brasileira. A intolerância religiosa, o sincretismo, o oportunismo do comércio em lucrar com o sofrimento alheio, a força policial impotente e subjugada pela igreja, além da falta de empatia da mídia ao registrar a história a história de Zé do burro de forma sensacionalista. Há um pequeno "cheiro" de realismo mágico aqui, já que o único elemento que poderia ser considerado mágico de verdade não aparece na história, é apenas citado pelo protagonista. Há muitas nuances em tão poucas páginas. Dias Gomes é um dos dramaturgos mais celebrados da história brasileira. Após ler O pagador de promessas, entendo a razão.
The book “O Pagador de Promessas” (Bertrand Brazil) written by Dias Gomes who was born in Salvador, BA, in 1922 and died in São Paulo, SP, in 1999 was written in 1959 and published in 1960. The story took place in front of Saint Barbara’s Church, interior of Salvador. The story tells all about the life of Zé-do-burro (Donkey Jack), a naive and humble man who has to face the Catholic Church to fulfill the promise he made in an area of Candomblé (afro Brazilian religion). His promise was a very unusual one. He promised to carry a heavy cross from his house to Saint Barbara’s church in order to save his injured donkey’s life. However, along the way, he met some people who tried and succeeded taking advantage of him. The topics/subjects presented in this book may include Catholic Church’s intolerance when it comes to Brazil’s religious miscegenation. It shows the conflict between a simple man who lives in the countryside, played by Zé-do-burro (Donkey Jack), and a man who lives in the city that treats Zé-do-burro as an ignorant. I do not like books such as this one, but as incredible as it may seem, I found this book very entertaining, the dialogues are quick, it is easy to read and the story catches your attention. However, the only reason why I read it, it’s because this book is required for an assignment at college.
Um livro gostoso, rápido, realista, divertido, triste, tudo em uma obra só. Vale muito a pena, já que em pouco menos de duas horas esse livro pode ser lido. Os personagens são simples e rasos, como eu acredito que deva ser numa peça teatral. Apesar disso, o autor soube como me envolver com cada um deles já que cada um tem sua característica marcante.
adorei!! uma peça curtinha mas que carrega muitas nuances e referências a nossa cultura brasileira. muito divertido e dinâmico. me escangalhei de rir nas referências a reforma agrária e a insinuação de que o Zé do Burro fosse um ''agitador social'', um revolucionário. diz muito sobre o momento político e social em que o livro foi produzido (pré ditadura militar), em que muitos líderes de movimentos sociais agrários já estavam sendo perseguidos, vigiados e presos.
De uma promessa feita à Iansã/Santa Bárbara para salvar o seu melhor amigo, o burro Nicolau, o pobre Zé do Burro conhece a tragédia. E a tragédia não vem de sua promessa, mas das mãos e mentes dos homens que veem naquele homem com um cruz feita a de Cristo, com a sincera vontade de cumprir sua promessa, meios de alcançar seus objetivos. Assim, temos o padre que fé nenhuma tem, mas está cheio de teologia sem fundamento; do dono da venda que vê no tumulto criado pela aparição do pobre Zé do Burro em uma fonte de renda com o aumento do movimento ao redor de seu estabelecimento; de Bonitão, um cafetão egocêntrico e que não perde uma oportunidade de se utilizar da atração que exerce sobre as mulheres; do jornalista, que altera a história a seu bel prazer para fazer manchete de jornal, etc. Num meio corrupto e amoral, ganha quem joga pelo interesse pessoal.
É interessante ver que Rosa, esposa de Zé do Burro, apesar de se deixar cair nas tentações lançadas por Bonitão, e não esconde a verdade do esposo ao mesmo tempo que lhe impõe a culpa de ser cabeça dura e não aceitar a dificuldade de cumprir a promessa, impedida pelo padre.
A palavra por si só já não basta. E já não basta faz tempo. Nossas relações e leis prezam pela desconfiança. É preciso provar que se é sincero, que a palavra dada tem valor.
Concordo com um amigo que disse que a peça tem seu ar panfletário e de personagens alegóricos. Escrita em 1960, no auge de diversas discussões e movimentações políticas no país, não poderia ser de outra forma. Mas além de serem representativos de um determinado momento, é de se perceber também que a trama se repete em nosso país de tempos em tempos, às vezes também com personagens bem caricatos.
Fiquei muito impressionada com os contrastes. As cores das peles definem posições sociais, marca essencialmente baiana na literatura. Espelha com grande clareza mais de 50% do país.
Os brancos representam instituições que vieram de um outro mundo, da Europa que globaliza, que pasteuriza. O padre representa a religião crista, o guarda, secreta e o delegado, as muitas hierarquias que dominam uma teia nas grandes cidades. Os negros na peca também representavam instituições que vieram da Africa, a religião e comida na presença da tia, a dança & luta com o Coca. Zé e Rosa sao mamelucos, enquanto bonitão e Marli mulatos. O fato crescente no livro, as vezes pingado, de que Iansa é santa Barbara soava pra mim o mesmo que dizer, branco é igual a negro. Apesar de ser igual, tem gente que descorda, só pelo papel da separar.
Nao, nenhum momento eu simpatizo com o protagonista. Pra mim ele é tao "imsipatizavel" como seus antagonistas (Bonitão, Secreta & Padre). As figuras todas em volta deles que são simpáticas, que sao atraentes, que melhor nos espelha e sentimos compaixão. Poxa, que leitora eu seria, se nao tivesse pena do que Marli sofre, que leitora eu seria se nao torcesse pra que o Cospe rima voltasse em cena com suas tiradas, imagine no teatro ver o espetáculo do Coca e seus comparsas, e ainda quem nao queria ter um avó coma minha tia? Quem nao comete erros como Rosa jogue a primeira pedra.
Escrito em três atos, “O Pagador de Promessas” foi encenado pela primeira vez em 1960. Levada também par ao cinema, dois anos depois a obra foi premiada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes - único filme brasileiro a conquistar essa honraria, até hoje.
Em “O Pagador de Promessas”, Dias Gomes confronta a fé e a ingenuidade de Zé do Burro com a intolerância religiosa e o autoritarismo. Acompanhado de sua esposa, Rosa, o lavrador carrega uma pesada cruz por mais de quarenta quilômetros para colocá-la aos pés da santa e cumprir sua promessa, mas encontra as portas da igreja e as mentes fechadas.
O autor cria uma forte tensão à medida em que a simplicidade de Zé do Burro entra em choque com o preconceito. Ao mesmo tempo, as pessoas começam a se dividir frente à evolução do episódio, enquanto outros personagens vão sendo envolvidos. Zé do Burro é alvo da imprensa sensacionalista, e Rosa é assediada por um gigolô.
Traços da cultura brasileira são retratados com maestria pelo autor. A culinária, a capoeira, o sincretismo religioso. Um texto curto, mas de profunda crítica social.
Alfredo de Freitas Dias Gomes, better known by his last name Dias Gomes, was born in Salvador, Bahia, on October 19, 1922, and died in an automobile accident on May 18, 1999. Dias Gomes was a novelist, playwright, author of novels and member of the Brazilian Academy of Letters.
As I’m a student of Languages – Portuguese/English, I’ll try to describe the play "O Pagador de Promessas”. This play is the most important and the most famous play written by Dias Gomes. In 1962, it was adapted to the big screens by Anselmo Duarte. The film won many national and international awards. It was a smashing success.
The play can be easily understood. It’s clear, but at the same time it’s dense and a bit obscure. It portrays the story of a man known as Zé-do-burro (Donkey Jack). He is humble and touches us by his ingenuity and fidelity to the values he believes.
“Dias põe em evidência um fator fundamental que, de uma maneira ou de outra, está na própria raiz do conflito que põe em campos diversos e inconciliáveis o cabloco ignorante e o padre convicto de sua fé: a necessidade que cada um temde afirmar a verdade dos valores que abraçaram e que os definem como seres humanos. Como cada pessoa se constitui essencialmente desses valores, negá-los ou aceitar que alguém os negue equivale a negar-se a si mesmo. Por isso é tão difícil, para a maioria das pessoas, admitir opiniões ou atitudes que se oponham às suas.” - Ferreira Gullar Gaphic Novel extraordinária!
(Lido em português) A minha releitura dessa obra foi muito boa: a peça é muito agradável e não propõe nenhuma dificuldade, a narrativa é super divertida e a mensagem por trás é impactante. Escrita por Dias Gomes em 1960, a peça de teatro conta a história de um simples camponês, Zé do Burro, que promete a Iansã (deusa pagã oriunda de culturas africanas, cultuada por meio do sincretismo religioso nos famosos terreiros de candomblé, muito populares em Salvador BA) que na verdade também é Santa Bárbara, que, se seu burro que está à beira da morte se curar, ele carregaria uma cruz com o mesmo peso da de Jesus até a igreja da santa.
É com essa proposta que Dias Gomes narrará a trágica aventura de Zé do Burro, onde o leitor testemunhará junto ao protagonista o espectro da maldade humana, movida pelo sistema na qual se encontra.
Em O Pagador de Promessas, o autor denuncia a engrenagem capitalista que move todos nós e que, sob o pretexto de liberdade, acaba nos destruindo. Zé do Burro, um homem teóricamente livre, deparando-se com o mau humano, percebe que na verdade não é tão livre assim: Padre Olavo, visto como a figura malévola da história, incarna o abuso de autoridade, um personagem movido por crenças imutáveis e a convicção de que têm o direito de privar os outros daquilo que é universal; Bonitão, personagem movido pelo mais puro egoísmo, comprometendo-se com o prazer inconsequente e a certeza de que dinheiro lhe trará felicidade; O Repórter e o Galego, personagens oportunistas que ignoram a dimensão humana do problema do Zé do Burro, buscando apenas o lucro, criando mentiras e manipulando para conseguirem o que querem.
Como estudo de caso, Dias Gomes decidiu usar o exemplo da ainda muito presente intolerância religiosa, que assola o mundo até os dias de hoje. Basta olhar para o Oriente Médio: berço da civilização humana sendo destruído por guerras sem real motivo. Porém o autor faz questão de lembrar-nos que esta obra tem um alvo maior, aquele que inclusive amplifica todos os males humanos: o capitalismo, no qual vence aquele que têm a maior ganância, e se torna um "grande" humano aquele que tem menos humanidade. Sua crítica é tão universal, que durante minha leitura até consegui traçar ligações com obras como Antígona de Sófocles, que por meio de outro contexto, também critica o conformismo e o abuso de autoridade.
Adiciono finalmente, que a adaptação às telas do diretor Anselmo Duarte é tão boa quanto a obra, e faz muito jus ao trabalho de Dias Gomes, sendo o único filme brasileiro na história a ganhar a Palma de Ouro do festival de Cannes. Deixo então para os interessados, a minha parte favorita do livro: ZÉ, gritando alucinadamente : Padre, é preciso que me ouça, padre! Abre-se de súbito a porta da igreja e entra o Padre. O Sacristão atrás dele, amedrontado. Grande silêncio. O Padre avança até o começo da escada. PADRE : Que pretende com essa gritaria? Desrespeitar esta casa, que é a casa de Deus? ZÉ : Não, Padre, lembrar somente que ainda estou aqui com a minha cruz. PADRE: Estou vendo. E essa insistência na heresia mostra o quanto está afastado da igreja. ZÉ : Está bem, Padre. Se for assim, Deus vai me castigar. E o senhor não tem culpa.
Dias Gomes gives us a lucid rendering of the immanent conflict between church and faith. Zé-do-burro's burning, unstoppable, yet simple faith does not conform to any religious creed or system of belief, being a folk infusion of Candomblé and Roman Catholicism, and when his vows come into conflict with the rigidity of the Catholic Institution, a battle of wills ensues between orthodoxy and the true spirituality which it ever struggles and fails to put in a box. Gomes weaves a colorful tapestry of humorous and streetwise characters who observe and comment on this conflict. Many of them twist Zé's words to promote their own doctrines. In this way, Gomes renders Zé as a type of the Jesus of the biblical historical criticisms that were so influential in his day. The germans originally popularized a reading of Jesus as an earnest, mortal humanitarian whose words were manipulated into the cornerstones of the several churches and creeds that each profess their selective interpretation of his edited and redacted utterances. I digress; Gomes' narrative moves along at a wonderful clip and is never boring or insubstantial. The shocking ending is one of the most effective rhetorical flourishes I have ever read in a play.
Mais um da saga: livros perdidos na minha estante. pequena peça teatral, o pagador de promessas (Dias Gomes) apresenta Zé do Burro tentando cumprir uma promessa após Santa Bárbara ter curado seu burro, Nicolau. A peça é muito bem escrita, de forma cômica até que nos empolga a ler o livro. Mas, mais importante que isso, Dias Gomes critica a intolerância religiosa que a própria Igreja Católica tem com religiões de matrizes africanas, ignorando o sincretismo que aquela mesma provocou durante a colonização portuguesa no Brasil. Importante e engraçada, a obra foi um achado em minha estante para passar a tarde lendo :)
gostei muito de como o autor fala sobre a distorção de ideias para que se encaixem melhor na narrativa que cada um escolhe contar e também da maneira como mostra o desconhecimento por parte de religiões cristãs de tudo que as faz se manterem de pé hoje e das origens de tudo que seguem. gosto de imaginar que se banshees de inisherin fosse brasileiro seria essa história, não por serem exatamente parecidas, mas por transmitirem quase a mesma vibe durante a maior parte do tempo.
fiquei curioso a respeito do trabalho do dias gomes, vou procurar mais sobre o autor.
Um rapaz faz uma promessa para Iansã e quando tem seu desejo atendido vai cumprir levando uma cruz por sete léguas até a igreja de Santa Bárbara, chegando lá o Padre o proíbe de entrar e cria-se uma comoção na cidade em torno dessa situação.
O filme de 62 é o único brasileiro até hoje a ter recebido a Palma de Ouro e foi o primeiro filme da América do Sul indicado ao Oscar, vale MUITO.
Texto fácil e rápido, mas a mensagem não me parece sobre a fé. Pode-se fazer uma leitura social e política da situação, identificando figuras que variam entre a inocência e a safadeza, num plano de fundo capitalista e conservador. Uma pequena dose de Brasil. Em tempo: nota zero pra edição da Bertrand Brasil que contou toda a história no prefácio. Desrespeito com o leitor. Deixem spoiler para o posfácio!!
Pela primeira vez na minha vida, eu li uma peça nacional que me fez ter vontade de ir ao teatro. O livro é curto, mas intenso, e ainda não entendi muito bem como o autor conseguiu colocar tantas coisas em um livro tão curto, mas eu senti cada impacto. Meu terceiro 5 estrelas do ano, recomendadíssimo!
Nessa tragicomédia magnífica, Dias Gomes examina as curiosas relações do brasileiro com a religião e o sincretismo. Me chamou a atenção o esmero que o autor tem na construção e introdução dos personagens. É bem claro que pra muitos personagens, ele tinha uma imagem bem mais completa do que um simples nome e caricatura para preencher o elenco.
Bom. Aborda o sincretismo religioso. Acho que o texto poderia ter sacaras mais bem humoradas. Talvez esteja projetando uma aura do ariano suassuna, o que seria injusto. Mas realmente é uma boa peça de teatro, com tensões, elementos da cultura popular e um ar tipicamente brasileiro. Vale