Memórias sentimentais de João Miramar é uma obra de Oswald de Andrade que mergulha na complexidade das emoções, da identidade e da busca de sentido em um Brasil em transformação. A narrativa, que se passa no início do século XX, critica as contradições da sociedade brasileira da época, ao mesmo tempo em que explora as aspirações individuais em um contexto marcado pela modernidade e pelos conflitos internos. Através do personagem João Miramar, o romance aborda temas como a solidão, a nostalgia e a constante luta do indivíduo para se encontrar em meio à pressão social.
Desde sua publicação, "Memórias sentimentais de João Miramar" é reconhecido pela sua escrita inovadora e pela forma como captura as tensões emocionais e existenciais do personagem principal. Sua análise das relações humanas, do sentido da vida e das dificuldades do ser humano frente à sociedade continua a ser uma obra fundamental para compreender os dilemas culturais e sociais do Brasil. A riqueza de seus personagens e as complexas narrativas que se entrelaçam oferecem uma perspectiva única sobre a natureza humana.
A relevância duradoura do romance reside na sua habilidade de iluminar as complexidades da vida emocional e as questões éticas que surgem na busca de mudanças e autorrealização. Ao explorar os conflitos internos e externos de João Miramar, a obra convida os leitores a refletirem sobre as escolhas individuais e as profundas conexões que definem a sociedade brasileira, em um momento de grande transformação histórica e cultural.
José Oswald de Andrade Souza (January 11, 1890 – October 22, 1954) was a Brazilian poet and polemicist. He was born and spent most of his life in São Paulo. Andrade was one of the founders of Brazilian modernism and a member of the Group of Five, along with Mário de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral and Menotti del Picchia. He participated in the Week of Modern Art (Semana de Arte Moderna). Andrade is best known for his manifesto of Brazilian nationalism, Manifesto Antropófago (Cannibal Manifesto), published in 1928. Its argument is that Brazil's history of "cannibalizing" other cultures is its greatest strength, while playing on the modernists' primitivist interest in cannibalism as an alleged tribal rite. Cannibalism becomes a way for Brazil to assert itself against European postcolonial cultural domination. The Manifesto's iconic line is "Tupi or not Tupi: that is the question." The line is simultaneously a celebration of the Tupi, who had been at times accused of cannibalism (most notoriously by Hans Staden), and an instance of cannibalism: it eats Shakespeare. Born into a wealthy family, Andrade used his money and connections to support numerous modernist artists and projects. He sponsored the publication of several major novels of the period, produced a number of experimental plays, and supported several painters, including Tarsila do Amaral, with whom he had a long affair, and Lasar Segall. His role in the modernist community was made somewhat awkward, however, by his feud with Mário de Andrade, which lasted from 1929 (after Oswald de Andrade published a pseudonymous essay mocking Mário for effeminacy) until Mário de Andrade's untimely death in 1945.
Romance num estilo inovador, com fragmentos de uma história contada de modo cronológico , mas muitas vezes com duas ou mais linhas narrativas , numa mistura de poesia , prosa, cartas, diários e citações; tudo para contar a história de João miramar que luta com a ajuda de Célia, sua esposa , para fazer parte da elite da época. Foi um livro difícil para mim mas também muito proveitoso.
"Antônio Cândido dá-nos esta expressiva síntese do livro: “Memórias Sentimentais de João Miramar, sobre ser um dos maiores livros da nossa literatura, é uma tentativa seriíssima de estilo e narrativa, ao mesmo tempo que um primeiro esboço de sátira social. A burguesia endinheirada roda pelo mundo o seu vazio, as suas convenções, numa esterilidade apavorante. Miramar é um humorista pince sans rire, que procura kodakar a vida imperturbavelmente, por meio duma linguagem sintética e fulgurante, cheia de soldas arrojadas, de uma concisão lapidar”. (página 19)
"A casa de Higienópolis sossegava preguiças tropicais por entre a basta erva do jardim aquintalado até outra rua com árvores e sol lembrando a longe Fontainebleau de minha sogra. Os domingos eram grávidos de sono." (página 69)
Um baita livrinho difícil, mas de leitura extremamente fascinante e peculiar. Toda a construção de narrativa de Oswald é em certo ponto estranha; fora jogado em uma estória de um “tal” João Miramar sem avisos prévios ou ponto de início; as escolhas capitulares de Oswald deveras curiosas: com misturas de cartas, relatos, notícias, poemas, diálogos, narrativas, e ponto de vista, o livro traz-nos uma estória riquíssima com uma escrita de luxúria a nível de Oswald. Todavia reitero, é um livro de demasiada dificuldade, já que o conhecimento linguístico e os neologismos de Oswald são impressionantes; além de seu sagaz conhecimento por literatura em geral.
Não escafede-se, e leia esta espécie de magnum opus do modernismo brasileiro.
quando foi publicado deve ter sido muito aclamado por ser um retrato muito bom do modernismo brasileiro, as viagens e descrições do Miramar são os pontos altos do livro na minha opinião, eu amei ficar pesquisando as localidades que ele mencionava e me imaginando lá também!
do meio pro final tudo parece mais monótomo e um pouco cansativo, sinto que o Oswald usou palavras mais complicadas e fragmentárias de propósito e demanda um grande esforço pra entender alguns trechos (talvez por isso tenha sido um livro que tive que ler na faculdade né hahahaha).
e o último fragmento do livro foi genial pra mim, a maneira que foi descrito e a espontaneidade das últimas falas de João representam e fecham com maestria esse conglomerado de trechos que formam essa obra.
“Mil outros trechos de mil outros escritores convencer-vos-ão, senhores, que o mundo de hoje anda não só pior que o mundo debochado de Péricles e Aspásia, mas pior que o mundo ignaro do Medioevo trevoso e pior até que o mundo das utopias científicas e revolucionárias da Revolução Francesa! Nessas intermitências de progresso e regresso, círculos de princípios que formam a base de novas babéis, novas confusões de línguas e novos rebanhos voltando a velhos apriscos, só uma lição nos assoberba, a lição severa da História!”
Tive dificuldades extremas para entender a obra. Captei elementos soltos, trechos que me fizeram assimilar o todo da obra, a intencionalidade, mas por muitas vezes voltei na página, reli, cansei, pulei, arrependi, suspirei, "¡ah, agora sim!" e prossegui. Enfim, cansei-me com Oswald. Talvez em outro momento, um pouco mais amadurecido na escrita oswaldiana, consiga sintonizar melhor com o escritor.
Esta obra é um traçado autobiográfico do personagem Miramar, contido em 163 capítulos e condensado em imagens da infância, adolescência e idade adulta. São tomadas-relâmpago que contemplam o cotidiano familiar, amores, amizades, desafetos, negócios, aventuras, excursões pelo Velho Mundo, flagrantes do Rio de Janeiro e o dia a dia da cidade de São Paulo, onde mora o protagonista.
Esse livro deveria receber o nome daquele filme "Fragmentado". Detalhe, o livro é literalmente todo fragmentado, com cada fragmento atendendo a um estilo de escrita. O tema é o retrato "cubista/fragmentado/vários estilos" de uma vida de família burguesa tradicional. Chato pra caramba ter quer ler esse livro só porque ele se propõe ser inovador em sua essência "cubista" de ser.
Vanguardista é o mínimo que se pode das Memórias sentimentais. Oswald de Andrade, como aponta Haroldo de Campos no prefácio do livro (que se tornou praticamente um capítulo da obra) e Antonio Candido, fragmenta e destrói a narrativa, o romance à sua forma mais basal, para reconstrui-lo desses cacos absorvendo uma viagem sentimental. Acredito que Oswald (silencioso quanto às suas leituras e seu conhecimento) tenha tomado muito de um Sterne e de um Xavier de Maistre, além de um Brás Cubas para escrever as suas memórias sentimentais; título que evoca tanto o romance de Machado quanto o do inglês do séc. XVIII; além do conteúdo evidentemente ser de uma viagem de um João Miramar, que olha para o mar, olha para a viagem e para o retorno ao Brasil; tema esta que já fora profundamente buscado em seu Pau Brasil. Por essa montagem e remontagem de fragmentos, pictogramas, fotogramas, poemas, imagens, observações, cartas, takes, notas de jazz, é difícil de algum modo simples entrar nas Memórias sentimentais; contudo, me parece que o hermetismo é uma das marcas centrais do modernismo, do dadá. Já foi colocado outrora (por Mário de Andrade, se não me engano) que Oswald não era dadaísta, mas profundamente brasileiro: sim, claro, como qualquer outro grande escritor brasileiro, como José de Alencar também não foi romântico como Chateaubriand ou Victor Hugo, mas bem aos moldes brasileiros. O que quero dizer é que Oswald foi dadá emoldurado no Brasil, e acho difícil argumentar o contrário, especialmente pela sua forma caótica, que, ao invés de propor uma ordem, propõe a desordem. Como comentei anteriormente, isto está muito longe de ser uma novidade: basta ler a Viagem sentimental ou as Opiniões de Tristram Shandy de Sterne; contudo, o valor de Oswald está na sua redescoberta do Brasil no começo do século XX, além de sua forte verve moderna que tende a misturar ficção e confissão, algo que será levado ao máximo, talvez, por Graciliano Ramos alguns anos depois. O romance de Andrade é experimental, algumas vezes afetado, mas com certeza é uma das prosas mais ousadas que já houve na literatura brasileira.
É uma leitura bastante difícil, principalmente devido à estrutura do livro... Que também é a parte mais interessante da obra! 'Memórias Sentimentais', ao invés de ser um livro tradicional, divido em capítulos, é composto por 163 fragmentos. Poemas, cartas, mini-narrações, e, as vezes, uma única linha (ex.: 75. Natal - "Minha sogra ficou avó"). Os neologismos, a não preocupação com pontuações ou regras gramaticais também complicam a leitura em alguns momentos. Contudo, não deixa de ser uma obra extremamente divertida e "quebradora de tabus", ainda mais quando pensamos no contexto do Modernismo. O enredo faz suas críticas à burguesia hipócrita de São Paulo, comenta o adultério, apresenta uma separação (o que eu acredito que tenha sido bastante polêmico para um livro lançado em 1924)... Foi, sem dúvidas, um livro inovador. E ainda é um livro único e, no mínimo, extremamente interessante em sua composição.
As três estrelinhas se devem à minha dificuldade pessoal com este livro, responsável por uma leitura árdua. Foi a primeira vez que li um romance de Oswald de Andrade, só tinha lido poemas esparsos. É um livro enxuto, mas muito complexo. Cada capitulinho varia entre cartas, poemas, notícias ou relatos do narrador, contando a história de vida de João Miramar, através de uma irônica crítica social burguesa. Gostei muito.
Por muito tempo pouco apreço tive pela obra do Oswald. Convenhamos, do Modernismo, mesmo na primeira fase, vários de seus contemporâneos são de leitura muito mais prazerosa até hoje. "Marco do modernismo, o romance de Oswald de Andrade não envelheceu uma vírgula", diz o texto de apresentação aqui. Mentira. Envelheceu tão rápido quando saiu da máquina de imprensa. É um livro datadíssimo....
E mesmo assim ...
Voltei-me a Oswald e sua obra em anos recentes devido as aulas que comecei a dar sobre o período e, após muito insistir em suas cabriolas estéticas, percebe-se que há um brio fino por trás de cada obra.
Memórias Sentimentais de João Miramar nos desafia (nem sempre no bom sentido) para ser entendido. Mas quando fazemos, podemos ver, nos pequenos detalhes, nos mais cotidianos momentos, uma poeticidade muito além de um texto sem vírgulas ou mistura de subgéneros: na saudade de João em querer voltar para o Brasil, nas piadas de seu primo e cunhado, no amor de Célia pela sua cria.
De fato, em alguns momentos Oswald prefere a parafernalha linguística a se ater ao projeto sentimental de seu protagonista. É onde o autor derrapa. Convicto. Mudando a história da literatura. Mas derrapa.
Quando não o faz, porém, e nos acostumamos a essa estranha língua falada não no começo do século XX, mas só pela poética endiabrada de Oswald, o texto brilha.
Proposta de nova linguagem estética assegurada por Antônio Cândido como segunda fase do escritor junto a "Serafim Ponte Grande", "Memórias Sentimentais de João Miramar" iniciou o que o crítico literário pormenoriza de "prosa cubista". O texto pós Semana de 22 traz 163 fragmentos de cartas, diários, poemas, notícias e memórias. A ordem descontinuada desse retalho misturado em pedaços provoca ao leitor a montagem híbrida das peças do quebra cabeça que é a vida de João Miramar, com as pistas dadas, somente muito mais tarde, este descobriu-se pseudônimo do autor. Fusão autobiográfica da realidade sócio-histórica imersa na ficção, Oswald de Andrade (1890-1954) dá codinomes a pessoas de sua infância, juventude e vida adulta. Sátira a vida artisticamente estéril da burguesia paulistana, quanto a linguagem, transforma substantivos em verbos, adjetivos em substantivos, justapondo uma nova morfologia gramatical ortográfica, registra as qualidades coloquiais e poéticas da oralidade popular.
Se o leitor deseja relacionar biograficamente o livro é recomendável anteceder a leitura da biografia pela pesquisadora de Oswald de Andrade, livre docente e pós-doutorada em Estudos Brasileiros na USP, Maria Augusta Fonseca.
Esse livro supera sua fama de experiência formal. Enxuto, parece uma mistura estranha de poesia em prosa, Ulysses e ironia modernista. Não é só sátira, não é simplesmente debochado, tem coração. Bárbaro, engraçado, um tanto cruel, leve. Muito bonito.
"A tarde suicidava-se como Petrônio. Serpentinas explodiam ao nosso lado na extensão toldada de bandeiras e asfalto. Famílias iam por quatro filas de máscaras carruagens, estandarteando longes vultos onamentados e confusos de caminhões caminhantes. Dominós agitavam-se como bandeiras amarelas. No enroscamento dos bonecos rodantes em roda dos maços fofos com guirlandas elétricas de papel, os carros tinham lentidões de rabos. Rolah ria como um animal espancado e fazíamos regressar as repentinas vindo voando".
Que maluquice de livro. Por um lado fico encantado com a experimentação estilística de Miramar, com seu punhado de passagens geniais e momentos de trocar nossos olhos por estrelas; por outro, vejo uma tentativa alucinada que, em grande parte, pisa em falso e segue claudicando. Ler sobre esse livro foi mais divertido do que efetivamente lê-lo. Sinto que ele tem muito a oferecer, estudá-lo a fundo deve ser uma experiência de outro mundo, contudo o que tenho é minha leitura e ela... Oswald, todo respeito a você, mas não colou. Que loucura.
Ah, no es un libro fácil. Una especie de bildunsgroman fragmentario, necesariamente fragmentario, como la memoria. Y si pensamos en el título y que son memorias sentimentales, entonces también se justifica la simultaneidad que es una constante en la novela.
Aunque, como dirían en mi pueblo, es cansado de leer, vale la pena ejercitar el músculo cubista con Oswald de Andrade.
Devo confessar que fiquei incomodada com a forma como o autor se utiliza da linguagem. Entendo e respeito a liberdade do artista, mas algumas coisas eu não consigo compreender. De qualquer forma, é uma leitura no mínimo intrigante, bem característica do período literário em que se insere.