Para mim, há uma escrita muito clara de Lygia Fagundes Telles, minha escritora brasileira preferida. É um jeito de se contar uma história como alguém que está do meu lado fazendo uma confidência de um episódio da vida de outra pessoa. É quase como se fosse sussurrado, contado sempre com humor – muitas vezes cínico, muitas vezes irônico – com um sorrisinho discreto no canto da boca. Ao mesmo tempo, essas histórias estão sempre no meio-fio do grotesco, e, não raras vezes, pula para o outro lado. Pode ser um pulo rápido, um bate-e-volta, ou ficar lá de vez. Nessa coletânea de contos não é diferente.
Há, em especial, dois textos que formam uma espécie de díptico, e, talvez, não por acaso, vêm na sequencia: Emmanuel e O Noivo. No primeiro, uma jovem inventa um namorado para não parecer aos amigos e amigas uma pessoa desinteressante e solitária, e a mentira vira uma bola de neve. No outro, um idoso se prepara para seu casamento, mas não se lembra quem é a noiva, e também não tem coragem de perguntar a ninguém. Em ambos, um final surpreendente e em suspenso. A tensão romântica – do namoro e do casamento – é substituída por algo até cômico, mas profundamente triste. É nesse lugar que está a obra de LFT, no que pode haver de engraçado – ou inusitado – no meio da tristeza. As pessoas parecem sem invariavelmente tristes, mas os lampejos de humor é o que faz delas mais humanas.