Sheila Fritzpatrick – A Revolução Russa
“Se queres conhecer um vilão põe-lhe um pau na mão”. Ditado popular que se aplica bem à revolução russa, muito em particular à questão de Estaline ser ou não uma continuidade de Lenine. Depois de ler o livro de Sheila Fritzpatrick “A Revolução Russa”, a minha resposta é um claro sim.
Os homens são a sua natureza e as suas circunstâncias. Nunca nenhuma delas de forma isolada. Atribuir a Lenine o dom da oratória em que expressões de “morte aos Mencheviques”, “morte à burguesia”, “morte aos inimigos do proletariado”, negação dos princípios do iluminismo (Liberté, Humanité, Fraternité), imposição de um regime ditatorial (ditadura do proletariado), mais não seriam que metáforas ditas no “calor do discurso”, quando na realidade surgiram como eufemismos do que mais tarde veio a acontecer.
Mas como poderia ser de outro modo, quando Lenine (e Trotsky) foi responsável pelo comportamento do exército vermelho no período da guerra civil (de passagem diga-se em abono da verdade que o do exército branco não primou por uma mais refinada ética de conduta), igualmente responsável pela deriva do regime para uma forma ditatorial (a assembleia constituinte de 2017 foi dissolvida ao fim de poucos meses), por manobras políticas conducentes à eliminação de qualquer opositor durante o X congresso em 1921, no que ficou conhecido como a primeira purga, purga a qual apenas não terminou com a eliminação física dos opositores, tendo no geral sido prenúncio das que lhe sucederam. Com este introito, como não ver apena Estaline como continuidade?
Todas as revoluções têm segundo Crane Brinton (Anatomia de uma Revolução) “um ciclo de vida que passa por um fervor e entusiasmo crescente pela transformação radical até alcançarem um pico máximo de intensidade a que se segue uma fase “termirodiana” caracterizada pelo desencanto, o decréscimo do vigor revolucionário, e as iniciativas impulsionadoras para uma transição gradual para o estabelecimento da ordem e da estabilidade”. A revolução russa passou por estas fases mais do que uma vez, sendo possível identificarem-se 3 destes ciclos.
Liberté, Humanité, Fraternité são palavras de ordem que são usadas como estandartes em todas as revoluções. Todos os revolucionários são fanáticos, sonhadores. Todos fantasiam um mundo novo sem injustiça, e onde a desigualdade do velho mundo não mais terá lugar. Tão imbuídos estão nestas suas convicções que não toleram discordâncias, não aceitam compromissos, e são fascinados por objectivos longínquos nem que para isso tenham que ser violentos e transitoriamente renegarem os valores que apregoam. Tudo se resume a estar com eles ou contra eles. Tudo depois termina em decepção e desilusão.
Na Rússia a revolução surge inicialmente como uma revolta contra um regime autoritário que ainda há pouco tinha dado os primeiros passos para abandonar o regime feudal (Lei dos Servos de 1861 e Revolução de 1905). Ela pode ser vista inicialmente como resultado de uma necessidade de modernização (revolução burguesa de Fevereiro de 1917), para depois se assumir como uma revolução de classe (proletariado) em cuja vanguarda esta o partido bolchevique (Partido Comunista em 1918), numa interpretação liderança vanguardista. O terceiro período inicia-se com a guerra civil. É um período de terror em que os inimigos são sucessivamente eliminados. Mencheviques, Brancos, Burgueses, e todos os outros que de uma forma ou outra se tentaram opor à ditadura do proletariado. Segue-se o que é apontado com a degenerescência “termidoriana” em que se interrompe o período “terror” anterior e se tenta reconstruir. Ainda que como em todas as revoluções, destrói-se mais do que se constrói e o que se constrói é claramente diferente do anterior. Neste período que se terá iniciado em 1921, há a necessidade de se reconstruir um estado para o qual técnicos do anterior regime são utilizados (ainda que com muita desconfiança) e onde a propriedade privada é possível tanto no comercio como na agricultura de subsistência.
Já na era de Estaline em 1927 durante o XV congresso, este vê o seu poder formalmente instituído e reforçado, e o primeiro plano quinquenal com o objectivo da industrialização é implementado. Com este plano entra-se de novo num período revolucionário onde como em qualquer um destes os fins justificam os meios.
Com o segundo plano quinquenal (1933 a 1937) a aposta continuou na indústria pesada, mas houve também um aumento significativo da indústria ligeira de bens de consumo e na produção agrícola foi de novo permitido aos camponeses terem usufruto directo de parte do seu trabalho. Este período de alguma acalmia revolucionária foi interrompido em 1936 pelo que ficou conhecido pela grande purga, período durante o qual o estado de terror retornou e aqui com uma violência nunca antes conhecida pela humanidade.
Sheila Fritzpatrick desenvolve aqui um magnifico trabalho. Consegue de forma isenta e não comprometida traçar-nos, caracterizar-nos e encadear os vários períodos da revolução bolchevique, ficando desde logo claro que os acontecimentos foram o resultado dos homens e das suas circunstâncias.
Sem Lenine nunca teria existido Estaline. Sem Marxismo nunca teria havido Leninismo (bem resumido no documento “Que fazer?” de 1902, onde é reforçada e reiterada a importância do centralismo disciplina rigorosa e unidade ideológica). Sem a criação dos sovietes em 1905, 12 anos antes da revolução de outubro, sem um poder bicéfalo dividido entre governo provisório e sovietes (muito particularmente o de S. Petersburgo, liderado por Trotsky, o profeta armado) , complicado ainda pela existência das Dumas, e dos Zemstvos, estes últimos órgãos não eleitos de administração local), sem o movimento abortado da “contra-revolução” liderada por Lavr Kornilov, sem a existência da Primeira Guerra Mundial, sem um conselho de Sovietes onde Menchevique e Socialistas Revolucionários eram maioritários, mas com uma impressionante inabilidade política e recesso apoio ao governo de Kerensky (que basicamente se opunha ao fim da guerra de forma unilateral e à “entrega das terras aos camponeses sem o envolvimento dos “mir” (aldeia camponesa ou comuna), permitiu ao partido bolchevique assumir o poder não em representação do povo mas em nome do povo.
A revolução russa de Sheila Fitzpatrick, uma magnífica lição de história.