Quando estamos em crise, procuramos uma válvula de escape e, sem que a gente perceba, podemos nos afundar nesse escapismo. Bem, essa fragilidade que todos os seres humanos possuem, acontece com o personagem Homem de Ferro. Tony Stark se encontra muito estressado por conta de sua atual vida conturbada, além do fato de que antes ele tinha uma vida sossegada e agora por ser o "segurança" do Stark, sua identidade secreta, ele se tornou mais uma pessoa irritada e cansada do seu trabalho.
É (o que elaborar a partir daqui?), a forma que o Stark usa para lidar com toda a consternação da sua vida dupla é se entregar ao álcool, primeiro uns goles para desparecer, depois uma garrafa completa para esquecer de si mesmo. Ele se vê cercado por inúmeros problemas a sua volta, a SHIELD quer tomar conta da sua indústria, sua armadura está com vários "defeitos" que ele não sabe como resolver e o fato dele nunca ter sido tratado como um "empregado" antes se choca com tudo que ele viveu.
Acho que as coisas atingem outros marcos quando, por um mal funcionamento suspeito da armadura, um político (ou empresário, não lembro) muito importante é assassinado pelo Homem de Ferro em uma conferência fodona lá, bem na frente das câmeras. Por sorte, não prenderam o vingador dourado, mas apreenderam sua armadura e iniciaram uma investigação. Depois de uma sucessão de eventos na história, com um vilão fodão por trás e tal, tudo se resolve e o Homem de Ferro é inocentado, mas ainda assim a consciência de Tony o assombra. O Homem de Ferro tenta entregar um ursinho para uma garotinha e ela foge de medo dele, dizendo que ele é o monstro que matou o homem na televisão. Isso só se torna uma fagulha para Stark adentrar nas bebidas ainda mais (mais que antes), Tony em seu escritório entra em um momento de intrusão contemplação e reflexão (tudo bêbado, óbvio).
Tony finalmente acredita ter achado a causa para todos os seus problemas, Anthony Stark. Desolado, ele diz que nada do que ele enfrentou foi algo para o Homem de Ferro, todas as suas desgraças são coisas dele mesmo. Então, ele bebe, bebe para esquecer, bebe para fugir, bebe para deixar de ser ele. E ele, num momento de epifania, decide se tornar integralmente Homem de Ferro.
Mas, depois de uma tentativa frustrada de tentar salvar o dia bêbado e estragar tudo, Tony volta para sua cobertura percebendo que os problemas ainda vão estar lá não importa o quanto ele tente escapar deles. Só que, novamente, ele e o álcool ficam em uma bela dança. Tony relembra da noite do dia anterior, onde ele, por estar alcoolizado, destratou o seu mordomo de uma forma extremamente agressiva. Stark se arrependeu logo depois, mas seu ego falou mais alto e ele não se desculpou. Isso tudo acarretou no pedido de demissão de Jarvis, o mordomo, a quem Stark estimava muito, pois estava lá a mais de 20 anos.
Bem, acho que depois de recontar boa parte da história (ainda vou contar a conclusão), eu deveria pontificar e elaborar meus pensamentos ao ler a HQ. O vício é algo que nos assola negativamente, sim, somente negativamente, pois o vício é excesso, o vício e extremo e tudo que é extremo ou diminuto repercute negativamente em um humano. Porém, vícios muitas vezes fazem com que a gente consiga não desabar (ou também são a causa que levam ao desabamento), uma forma de sair da realidade por uns instantes, algo que, sem notarmos, nos sustenta. Todos nós temos vícios de diferentes tipos, todos nós sabemos, ou não totalmente, o que estamos passando, mesmo assim não queremos admitir porque é difícil, não queremos lidar porque é difícil. Não queremos contar para alguém por acreditar não existir solução, ou até queremos, mas não conseguimos contar por ter algum segredo muito íntimo nosso envolvido, como o Tony Stark não poder contar suas razões da bebedeira para a sua amiga porque era preciso falar sobre a sua vida dupla como Homem de Ferro.
No fim, todos temos um mal que nos persegue, um receio. Estamos tão estressados com as coisas em nossa volta, tudo coincidentemente aparenta convergir para que fiquemos aflitos e olha só! Funciona perfeitamente. As pessoas estão doentes e ficarão mais doentes e ficarão mais doentes com o passar do tempo, o número de transtornos mentais cresce a cada dia e continuará crescendo até o ponto em que nem saberemos mais se continuaremos a chamar isso de "trastorno" ou só algo padrão (se é que não já chegou a esse ponto). Não há razão para se questionar o porquê de tudo isso se a resposta já é evidente, todos sabem o quanto o sistema em que vivemos nos molda. Porém, por algum motivo, continuamos alienados, talvez por ser cômodo, não tem como mentir, ou talvez sejam outros fatores diversos, mas eu não quero transformar essa resenha em uma crítica rasa ao capitalismo, quero desenrolar a temática do vício até me satisfazer. (Talvez essa minha última consideração caía na hipocrisia do vício, pois como humanos, somos eternamente insatisfeitos. Agora, não acho mais que seja um "talvez").
Tá, mas como seríamos capazes de sair de tudo isso? Eu não sei, se soubesse estaria livre dos meus. Só acho que nem dá pra estar totalmente livre de fato, não depende só de fatores internos, mas também acho que isso não é algo que nos impeça de tentar. A história do quadrinho mostra isso muito bem na sua conclusão, Tony Stark aceita a ajuda de seus amigos e parte numa busca para lidar com seu eu, com várias dificuldades e uma quase recaída no caminho, Stark continua e talvez(talvez²) continuará seguindo e lutando para o resto da vida. Então, sei que é meio clichê, mas a frase de Camus casa como uma luva para esse final: "É preciso imaginar Sísifo feliz".