“Ó Lisímaco, mas seria terrível uma coisas dessas – não aceder em colaborar para tornar alguém melhor! Se, de facto, nas conversas anteriores eu me tivesse mostrado sabedor e estes dois não sabedores, seria justo chamar-me a mim de preferência para este trabalho. Mas, neste momento, estamos todos caídos em aporia. Como poderia alguém dar preferência a algum de nós? O que me parece a mim é que a nenhum. Mas já que assim é, ponderai que vos parece o meu conselho. O que eu afirmo, com efeito, meus amigos – e nem uma palavra saia daqui para fora – é que precisamos, em comum, nós todos, de procurar o melhor mestre que houver, mas para nós próprios, que bem precisamos, em primeiro lugar; em seguida, também para os rapazinhos, sem poupar dinheiro ou seja lá o que for. Deixarmo-nos ficar como agora estamos, é coisa que não aconselho. Se alguém zombar de nós por, em tal idade, julgarmos conveniente ir à escola, parece que teremos de nos escudar em Homero, o qual diz: ‘a vergonha não é uma coisa boa para um homem necessitado’. Também nós mandaremos passear quem disser alguma coisa, e em comum assumiremos a preparação de nós próprios e dos nossos rapazes.”
Mais um exemplo de um debate interessante que acaba por ter como objetivo definir o próprio conceito de coragem. Apesar de não se chegar a nenhuma conclusão é sempre engraçado ver Sócrates gerar um discurso e ver a interação dos intervenientes, neste caso Laques e Nícias, que acabam por ter visões opostas e se lançam num “conflito intelectual” sobre o tema, cheio de indiretas. Todo um drama que finaliza com a conclusão de Sócrates de que ninguém ali teria conhecimento suficiente sobre o assunto para poder realmente chegar a uma definição de coragem, só talvez de uma parte do seu significado, mas nunca do conceito completo, e de que para realmente conseguirem chegar ao conceito precisavam de investir tempo e recursos em si mesmos para se educarem nessa situação.
Fica aqui definida a coragem para aceitar de que nem sempre se sabe tudo, ou até mesmo de que nunca se sabe realmente nada, e a coragem para procurar suporte de quem sabe um pouco mais, não aceitando à partida o que é dito como certo, mas questionando sempre as suas origens. Ou seja, aplicar o método socrático de forma sensata e constante também pode por si só ser um exemplo de coragem interior, uma vez que admitir que estamos errados é algo por vezes contrário à natureza humana, como é demonstrado no conflito entre Nícias e Laques. Já Sócrates, mantendo-se como juiz do discurso acaba por possuir uma posição neutra que lhe permite observar as várias perspetivas do debate sem comprometer o seu objetivo de alcançar alguma sabedoria no assunto.
Como sempre, adoro ler estes episódios descritos por Platão que, apesar de por vezes serem discursos circulares com finais incertos, são muito estimulantes para quem queira desenvolver algum nível de retórica.