O terceiro volume da coleção Obras de Eugénio de Andrade reúne os livros «Coração do Dia», publicado pela primeira vez em 1958, e «Mar de Setembro», de 1961. Esta edição respeita escrupulosamente a fixação do texto feita ainda em vida, pelo poeta, e conta com um prefácio do Professor Fernando J.B. Martinho, que nos diz, dos dois conjuntos de poemas que compõem este «A limpidez, a luminosa simplicidade que nos oferta, em ambos estes conjuntos, há que aceitá-la como uma graça de que só a grande poesia é capaz.» DESPERTAR É um pássaro, é uma rosa, é o mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, canto na ave, água no mar. Coração do Dia - Mar de Setembro de Eugénio de Andrade
The Portuguese poet Eugénio de Andrade, pseudonym of José Fontinhas, is revered as one of the leading names in contemporary Portuguese poetry. His poetry is most striking for the depth of his short poems. One of Eugénio de Andrade's most known poems is his Poem to Mother. In 2001, he received the Portuguese award Prémio Camões.
Os amigos amei despido de ternura fatigada; uns iam, outros vinham; a nenhum perguntava porque partia, porque ficava; era pouco o que tinha, pouco o que dava, mas também só queria partilhar a sede de alegria - por mais amarga.
Um livro de poesia belíssimo; pode ser porque é o primeiro contacto que tenho com a poesia de Eugénio de Andrade, mas fiquei completamente seduzido. Abaixo deixo um dos meus poemas favoritos:
Passo e amo e ardo Água? Brisa? Luz? Não sei. E tenho pressa; Levo comigo uma criança que nunca viu o mar.
A primeira e última pergunta que sempre se me coloca: como classificar poesia? Decerto que se pode falar do estilo, da forma ou da coesão do texto, da pertinência da rima ou de qualquer outra insignificância menor. Mas como qualificar as palavras escritas a uma mãe falecida, sentir com um coração nosso a dilacerante perda de outrem? Sempre uma tarefa difícil e ingrata...
Porque as minhas palavras em nada se podem comparar às de Eugénio de Andrade, deixo aqui um dos mais belos e comoventes poemas que se escondem entre as páginas deste pequeno volume:
Sem ti
E de súbito desaba o silêncio. É um silêncio sem ti, sem álamos, sem luas.
O ano mal começou e eu já estou certo de que estou diante de dois dos melhores livros de poemas que li em 2024. A poesia de Eugénio de Andrade é bela, sensual, marcada por memória, desejo e luto (no caso de Coração do Dia). Do Mar de setembro, permecerá gravado em minha memória "Que voz lunar":
"Que voz lunar insinua o que não pode ter voz?
Que rosto entorna na noite todo o azul da manhã?
Que beijo de oiro procura uns lábios de brisa e água?
Que branca mão devagar quebra os ramos do silêncio?"
"Com que palavras ou beijos ou lágrimas se acordam os mortos sem os ferir, sem os trazer a esta espuma negra onde corpos e corpos se repetem, parcimoniosamente, no meio de sombras?"
Quase quase quase nas cinco estrelas, ficou a faltar um danoninho. A primeira parte, Coração do Dia, dedicado à mãe, tem imenso potencial mas fraqueja um pouco quando passa ao Mar de Setembro.