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104 pages, Paperback
Published January 1, 2011
A afirmação "Um livro é as palavras que o compõem" corre o risco de parecer um axioma insípido. Mesmo assim, todos tendemos a acreditar que existe uma forma separável do fundo e que dez minutos de diálogo com Henry James nos revelariam o "verdadeiro" argumento de Outra Volta do Parafuso. Penso que talvez não seja verdade; penso que Dante não estava mais informado sobre Ugolino que o que está dito em seus tercetos. Schopenhauer declarou que o primeiro volume de sua obra capital consiste em um único pensamento, e que não encontrou modo mais breve de transmiti-lo. Dante, ao contrário, diria que tudo o que imaginou sobre Ugolino está nos debatidos tercetos.
No tempo real, na história, toda vez que um homem se vê diante de várias alternativas, opta por uma e elimina e perde as demais; o mesmo não acontece no tempo ambíguo da arte, semelhante ao da esperança e ao do esquecimento. Hamlet, nesse tempo, é são e é louco. Na treva de sua Torre da Fome, Ugolino devora e não devora os cadáveres amados, e essa ondulante imprecisão, essa incerteza, é a estranha matéria de que é feito. Assim, com duas possíveis agonias, sonhou-o Dante e assim o sonharão as gerações.