Comecei a ler este volume 1 de "As mil e uma noites" no início de julho, sem saber bem o que esperar, porém com muita curiosidade. A única coisa que eu sabia sobre o livro era a respeito do enredo do casamento de Sherazade, que para evitar ser morta pelo sultão Shahriar, lhe conta histórias todas as noites, sem nunca terminá-las.
Acontece que "As mil e uma noites" é uma coletânea de contos de tradição árabe e de autoria desconhecida, originalmente contados de forma oral, tão antigos que não há certeza de onde exatamente podem ter vindo - se criados por uma só pessoa ou por várias, se originados em países diferentes, etc. A versão que podemos ler aqui no Ocidente, porém, foi traduzida, organizada e selecionada por Antoine Galland, um estudioso orientalista francês, que não apenas escolheu as histórias que considerava mais interessantes, como também retirou delas algumas passagens explicitamente sexuais ou ofensivas para cristãos e judeus. Essas informações são apresentadas nos textos introdutórios do início desta edição. Apesar disso, as histórias ainda conservam bastante misoginia e violência contra mulheres, e são comuns as passagens que falam de agressões, espancamentos ou assassinatos de mulheres.
As histórias de "As mil e uma noites" são as mais diversas possíveis. São histórias de aventura, de crimes, de amor, de fantasia, viagens, traições, vingança , brigas e mágoas familiares, encontros e desencontros. Seus personagens são mercadores, viajantes, sultões, seus conselheiros e suas amantes, príncipes e princesas, pais e filhos, animais, e também seres fantásticos como fadas e gênios. Me surpreendeu ver que, ao contrário do que somos levados a acreditar devido à popular história de Aladdin adaptada pela Disney, os gênios, em "As mil e uma noites", não são seres de todo bons. Muitos gênios mencionados nessas histórias são vistos como seres ruins, maliciosos, assustadores ou monstruosos. Perceber isso foi uma coisa curiosa para mim.
As histórias contadas por Sherazade não têm a estrutura lógico-narrativa de início, meio e fim que somos acostumados a ver em histórias modernas ocidentais. Muitas delas não tem lógica ou sentido, acabam de forma repentina, ou mesmo numa acabam, porque no meio de uma, o personagem se encontra com outro que, por sua vez, também começa a contar sua própria história. Por causa disso, é possível até mesmo confundir as histórias ou os personagens. Mas isso se deve ao artifício de Sherazade de permanecer entretendo o sultão, sempre começando a contar uma nova história e interrompendo-a na parte mais interessante para continuar apenas no dia seguinte. Mas a falta de lógica é o que torna os contos mais interessantes: tudo pode acontecer! E por causa disso, algumas histórias são surpreendentes. Os contos das viagens de Simbad, por exemplo, são impressionantes.
A riqueza dos contos de "As mil e uma noites" é tão grande que cheguei a identificar até mesmo uma história muito semelhante à de Édipo Rei, com um protagonista que recebe uma previsão de seu futuro e tenta a todo custo evitá-la, mas na tentativa de fugir de seu destino, acaba causando aquilo que tentava evitar. Essa história foi uma das minhas favoritas. Também gostei muito de uma história sobre três gerações de uma família que estava dividida devido a uma briga de irmãos, e que se reencontra e se une novamente graças ao acaso de alguém experimentar uma torta que tinha uma receita especial. E a última história, por fim, foi a que mais me encantou: é sobre um príncipe árabe e uma princesa chinesa que não queriam se casar com ninguém, até que magicamente se encontram um com o outro. Esse conto é repleto de encontros e desencontros e eu torci muito pelo casal. O livro termina interrompendo essa história para que seja concluída no volume 2, e estou louca para saber como termina!
Li o livro no formato físico, um exemplar em capa dura vendido em um box de dois volumes. É uma edição muito bonita e cuidadosa, com notas de rodapé explicando termos e tradições tipicamente árabes ou islâmicos. Gostei muito da primeira parte e estou curiosa para continuar com a segunda. Apesar de ter feito uma leitura lenta, foi uma leitura riquíssima.