Vamos lá criticar as Cartas sem entrar no mérito de serem verdadeiras ou apenas um artifício literário.
Temos uma freira, num convento, que é visitada por um soldado francês que dá lá umas voltas e depois regressa a França e assobia para o lado. Só este início de relação está todo errado, mas a religião é um tema que dá pano para mangas e os votos de castidade existem na teoria, no entanto, na prática, por vezes a carne vence e aí está o caldo entornado, ou, neste caso, a tinta derramada em cartas de amor arrebatado.
A nossa freirinha foi usada e abandonada, é o que é, mas deixar de escrever ao amado, está quieta, ela escreve não uma, não duas, mas cinco cartas ao soldadinho de chumbo. E, apesar de não termos as respostas dele, dá para perceber que não fez grande caso das inflamadas declarações de amor da Marianinha. Bem, está no direito dele. E ela está no direito dela em insistir em continuar a sujar as mãos com tinta e a gastar penas. Eu, após o primeiro sinal de que a outra parte não queria nada comigo, desistia. Já me aconteceu e não sei, só sei que foi assim. :D
As cartas são bonitas, não nego, e em francês têm um je ne sais quoi que as torna mais agradáveis e envolventes. Acho que já vi em algum lado que o francês é uma língua que se presta ao amor, mas posso estar a delirar. Aqui pelo menos presta-se.
A forma como ela expõe os seus sentimentos é bela, mas ao mesmo tempo que confessa o seu amor e recrimina o objeto desse amor, também o perdoa e coloca um pouco da culpa nela, talvez por amar de mais, não sei. Pareceu-me um bocado estranho e uma espécie de recriminação. Se ela ficou toda enfatuada por ele foi porque também ele lhe deu motivos ou, no mínimo, fez-lhe crer que era recíproco e que iriam viver uma bonita história de amor. E viveram uma bonita história, pelo menos durante o tempo da missão do embuste por terras portuguesas.
Enfim, é uma história de amor unilateral. Gostei desta edição, pois é bilingue, contendo as cartas em português e em francês, tendo servido para eu treinar esta última.
Je resiste à toutes les apparences, qui me devraient persuader que vous ne m'aimez guère, e te sens bien plus de disposition à m'bandonner aveuglément à ma passion, qu'aux raisons que vous me donnez de me plaindre de votre peu de soin.
Resisto a todas a evidências que me deviam persuadir de que já não me amas e sinto-me muito mais disposta a abandonar-me cegamente à minha paixão do que aos motivos que me dás para me queixar da tua falta de atenção.
Je vois bien que je vous aime comme une folle; cependant je ne me plains point de toute la violence des mouvements de mon coeur, je m'accoutune à ses persécutions, et je ne pourrais vivre sans un plaisir que je découvre, et dont je jouis en vous aimant au milieu de mille douleurs
Bem vejo que te amo como uma louca. No entanto, não me queixo de toda a violência dos arrebatamentos do meu coração; e vou-me acostumando às suas perseguições e não poderia viver sem esse prazer que descubro e de que gozo amando-te no meio de mil dores.