Outono alemão é o resultado de uma reportagem jornalística que Stig Dagerman encetou no outono de 1946 na parte ocidental da Alemanha, em Ruhr e Hamburgo.
Dagerman não se limitou a transcrever as notícias publicadas nos jornais alemães, confortavelmente instalado no seu hotel. Dagerman calcorreou cidades, viajou de comboio, assistiu a julgamentos de desnazificação, falou com camponeses, professores e escritores, refugiados de guerra, visitou caves imundas para falar com crianças, mulheres e idosos. O trabalho que nos apresenta é fruto de investigação séria, observada, experienciada, sempre com a lente limpa e uma mente humanista, empática e sofredora.
“Um jornalista francês, bastante conhecido pelo seu talento e cheio de boas intenções, convidou-me, em nome da objetividade, a ler os jornais alemães em vez de ir inspeccionar os alojamentos alemães e as panelas alemãs. Não será esta maneira de pensar que prevalece numa grande parte da opinião mundial?” (Pag. 23)
Nesta viagem permite-nos ver o lado de dentro da fronteira alemã, a miséria, a imundice, as ruínas, os bombardeamentos, os maus tratos a que foram sujeitos o povo alemão durante a ocupação pelas forças aliadas.
Desmistifica a ideia que todo o povo alemão comunga dos ideais nazis, ou que todo o povo terá servido o partido nazi de forma cruel, bárbaro e abusivo. Stig mostra-nos uma Alemanha pós-guerra dividido e ocupado pelas forças militares francesas, ingleses e americanas, que por baixo do véu dito “democrático” foram tão bárbaros, cruéis, corruptos e sádicos como os nazis que operavam nos campos de concentração.
A preocupação dos aliados era de garantir que o povo alemão não se unisse, dividir para reinar, colocá-los uns contra os outros, permitiam a pilhagem, o ódio a prostituição entre si. Injetavam-lhes propaganda política contra os ideais comunistas para erradicar qualquer tipo de associação, e por isso os submeteram à fome, ao frio, à precariedade, para conseguir que o povo revelasse total obediência ao estado, foi assim que o partido social democrata ganhou as eleições de 1946, perante a indiferença e o medo que o povo tinha das forças aliadas.
Sternberg escreve a este propósito, “Não fora uma revolução alemã que derrubara o regime de Hitler, mas sim a vitória militar dos Aliados, na qual o papel dos EUA se mostrara decisivo. Este último serviu-se do seu novo poderio para impedir que a queda do regime hitleriano “degenerasse” em revolução social e para as camadas que tinham colaborado com Hitler na época em que este tomou o poder, bem como na altura em que se preparava a 2ª guerra, de modo algum perdessem a sua posição económica e social predominante”. (…) Fascismo e democracia são duas formas do mesmo modo de produção. Foi isto que Stig Dagerman perspicazmente deu conta aquando da sua estadia na Alemanha Ocidental.
“Essas pessoas são as mais belas ruínas da Alemanha, mas por enquanto são tão inabitáveis como estas casas demolidas ente Hasselbrook e Landwehr, estas casas que exalam um cheiro áspero e amargo de incêndios extintos, no crepúsculo húmido deste outono.” (Pag. 39)
As forças aliadas levaram a cabo uma chacina na cidade de Hamburgo, matando milhares de civis e poupando a indústria metalomecânica, bélica, o tecido empresarial, assim como as mansões dos altos quadros do partido Nazi.
Como refere o jornalista “Alistair Parker”,
a 27 de Julho, de manhã, bem cedo, um duche de bombas incendiárias ateou fogos no centro da cidade de Hamburgo, que se transformou num impressionante fogo de destruição. Este inferno causado pela mão do homem que aspirou ventos de uma força ciclónica que juntaram os diversos fogos e os transformaram numa tempestade de fogo que cobriu mais de quinze quilómetros quadrados. Entre 40 a 50 mil pessoas morreram esses dias. Tal como descreveu o chefe da polícia de Hamburgo, entre o ruído da tempestade de fogo, os gritos e grunhidos dos moribundos e a queda constante de bombas (…) as crianças foram arrancadas das mãos dos seus pais pela força do vento ciclónico e atiradas para o fogo, As pessoas que pensavam ter conseguido fugir, caiam, aniquiladas pela força devoradora do calor, e morriam num instante(…). Convém lembrar que os ataques aéreos aliados se ocuparam mais das populações civis do que de alvos económicos e militares estratégicos.
O investigador André Piettre também escreveu em 1952 a este propósito (…) “a indústria pesada, base essencial da indústria de guerra, saía do conflito como a menos atingida de todas,…, viu-se que era mais eficaz aniquilar o pessoal, do que o material…Os laços de interesses económicos ou financeiros que passavam por cima das fronteiras (acordos económicos e investimentos) foram alvo de proteção. "
Enquanto “chacinavam civis” os capitalistas exprimiam uma solidariedade sem fronteiras, poupando o material e os seus investimentos. Isto ao mesmo tempo que, num outro plano, o plano público, modelado pela propaganda política e pelos mass média, o único a que os cidadãos têm acesso, se procedia a uma satanização do nazismo, com o objetivo de angelizar universalmente o capitalismo, dando-se ênfase absoluto à forma política que melhor o representa a democracia parlamentar.