Maria não vai lá nada bem em sua relação de amor e ódio com o amante gigolô – e com o meio-irmão dele, e a ilusão de virar diretora desmorona quando descobre que a empresa acaba de falir. Para piorar, Maria se vê entre as promessas maliciosas de sua ex-chefe e os planos surreais do sindicato para salvar a firma. E é depois de algumas noitadas em um clube de tiro com as amigas que ela resolve brigar pelo que é seu. Absurda ao melhor estilo tarantinesco, “Maria dos Canos Serrados” é uma história engraçada, desaforada e crítica de uma mulher que decide, à sua maneira, que não vai mais levar desaforo para casa.
Nascido em Luanda mas criado em Portugal, Ricardo Adolfo é um dos nomes mais reconhecidos na atual safra de novos autores portugueses. Autor de seis livros, esta foi a sua primeira obra lançada no Brasil, lançada pela coleção Gira da Editora Dublinense. Maria dos Canos Serrados é uma fantasia de revolução e vingança com pegada pop pendendo ao nonsense e ritmo de filme de ação, mas que ainda encontra oportunidade de ser uma sátira mordaz ao Portugal recente, embalado por grandes sonhos de prosperidade mas afundado em uma recessão econômica paralisante.
O autor que me perdoe mas estas histórias urbanas, sem grande história além do ambiente (no caso da linha de Sintra) não aguentam muito tempo o meu interesse (senti algo parecido ao ler 'Essa Gente' de Chico Buarque).
Há méritos neste livro: a escrita é leve, vernácula e divertida, mas uma forma com pouco conteúdo depressa se esvazia e foi com algum esforço que levei a leitura até ao fim. Nem posso dizer que não estivesse motivado aquando do início da leitura mas simplesmente não me encheu as medidas. Fosse um livro maior e teria desistido.
De qualquer modo, entendo a razão dos elogios a Ricardo Adolfo. A escrita, não sendo dificil, é de facto diferente e esse é um mérito (que não é pequeno).
A capa e o título deste romance de 2013 de Ricardo Adolfo (que há muito os meus amigos me recomendavam que lesse), é suficientemente explícita. Maria é uma mulher jovem, desabrida e desbocada, das periferias de Lisboa, muito lixada (ela diria noutros termos, como o faz no início deste livro 😆) que envia mensagens a um amante ausente em jeito de desabafo e lamento.
Uma animação ler tanto palavrão, bem enquadrado, e terapeutico, numa escrita escorreita e veloz sobre o estado de alma desta mulher que, não consegui deixar de gostar a rir. Maria no plural ainda me confundiu mas tanto sarcasmo e ironia também pode ser assim. "Ambas" se impõe(m) e corre qualquer macho que a afronte à cacetada ou a tiro.
Nandos é um bar original. Um bar em Mem Martins ou algures ali perto com, imagine-se, uma carreira de tiro, à imagem da que Adolfo conheceu em Amesterdão. Aqui Maria pode disparar de rajada para aliviar o stress e não só, da mesma forma com que escreve de rajada as páginas deste quase diário.
É em jeito de cartas na primeira pessoa que mostra a sua vida. De arma em punho e peito inchado mostra como uma galdéria vulgar pode ficar destemida para enfrentar o desemprego ou o seu namorado gigolô.
Mas desenganem-se os que pensarem que as rajadas do livro se ficam pelas paredes do Nandos. Logo nas primeiras linhas: "Velhinho, Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho". Aviso! Estas rajadas são para manter.
A inspiração para esta história vem da falência de uma grande empresa, ocorrida em Portugal nos anos 90 mas cuja a actualidade se mantém intacta. Talvez neste aspecto resida o maior encanto da escrita de Ricardo Adolfo, a sua capacidade transmitir o que se passa no seu país. Mais ainda se atendermos que é emigrante desde 1999. Possui uma escrita vernácula, original e cheia de vivências do autor.
"Achamos curioso estarmos em greve se estamos todos despedidos. Não sabíamos que era possível estarmos no olho da rua e ao mesmo tempo protestarmos pela falta de condições de um trabalho que não existe. É que nem estamos a protestar contra os despedimentos, estamos ainda na fase das reclamações contra os salários em atraso. Se calhar esta empresa vive em fusos horários diferentes e a doutora, como sempre, já vai muito à frente, já vai no próximo ano. No último plenário, ainda confirmámos com o grande líder se não era preciso termos trabalho para podermos reclamar a falta de pagamento. Disse-nos que isso eram detalhes técnicos irrelevantes e que o que interessava eram os direitos dos trabalhadores. mas quem não tem trabalho tem direitos sobre o trabalho que não tem?"
Maria é uma moça de má rês, um rameira com carências. Carências de amor e carinho que o amante preto não lhe pode dar. Carências de uma prometida e sempre adiada promoção no emprego que a doutora insiste em dizer que não pode dar. Carências de uma vida melhor que persiste ser difícil.
Este é um livro de sensações contraditórias. Valter Hugo Mãe diz que "a nova literatura portuguesa tem de passar obrigatoriamente por aqui". Eu reconheço valor à obra e à forma original da escrita. Mentiria se dissesse que me apaixonou.
Ricardo Adolfo continua a dar cartas no mundo da nova ficção nacional. O autor de Mizé – Antes Galdéria do que Normal e Remediada e Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas apresenta-nos o romance de uma anti heroína de vinte e poucos anos residente na zona da Linha de Sintra.
Maria, uma rapariga que estudou numa faculdade de Lisboa, vê-se no desemprego, com salários em atraso, a partilhar uma casa com uma raparigas da má vida e ardentemente apaixonada por Velhinho, um gigolo profissional que anda pelo Algarve a fazer turistas. Ricardo Adolfo escreve capítulos curtíssimos e em conformidade com a rapidez e o calão que as suas personagens debitam na narração e diálogos, iniciando cada novo capítulo em forma de um diário onde Maria regista os seus pensamentos e sonhos; são sempre dirigidos ao tal Velhinho:
«Velho verme,
Estamos com um ódio canídeo à tua pessoa e ao resto do mundo. Estamos prestes a ir ao Nandos comprar uma fusca que te desfaça a carapinha e o nariz empinado em milhares de bocadinhos pequeninhos».
Perante a corrupção da empresa onde acaba de ser despedida, a inoperância dos sindicatos e a falta de resposta por parte da Segurança Social, Maria vê-se obrigada a safar-se como pode no país do “desenrascanço”. Como distracção, Maria e as amigas vão a Rio de Mouro ao Bar e Salão de Fogo Nandos, um espaço localizado no terceiro andar de um prédio, onde os fregueses podem disparar armas de fogo contra a parede. À medida que a nossa protagonista fica expert na arte de disparar e a sua vida pessoal e mercado de trabalho caminham para o precipício, Maria deseja ardentemente adquirir uma Baikal de canos serrados para entrar no mundo dos criminosos.
Repleto de vernáculo e linguagem popular, esta Maria dos Canos Serrados retrata fielmente a realidade de muitos jovens portugueses que frequentaram o ensino superior sem porém terem argumentos e oportunidades no mercado de trabalho que lhes estava destinado; a corrupção no mundo empresarial português é igualmente visado sob um olhar extremamente irónico, como aliás o autor nos tem habituado.
Irrepetível. Parece impossível conseguir escrever tão bem com um registo tão assumidamente marginal. A recriação perfeita de um universo social e discursivo tão fascinante quanto repugnante, uma mulher (e um contexto) absolutamente inesquecíveis. Do melhor - e mais original - que li nos últimos anos!
Apesar das excelentes críticas que li acerca do novo livro de Ricardo Adolfo, não consegui lê-lo até ao fim.
E não se pense que não gostei do livro pelos milhentos palavrões que fui lendo. Nada disso.
Apesar de escrito quase como um diário, andei um pouco perdida no meio dele, achei que apesar da ideia ter sido engraçada, não consegui prender-me a nenhuma das personagens.
Um punhado de gente famosa – Lobo Antunes e valter hugo mãe são alguns – se rasga em elogios na capa de Maria dos Canos Serrados, do angolano Ricardo Adolfo, e até que eles estão certos. Já li uma boa cota de romances portugueses e de ex-colônias, e acho que nenhum é igual a esse. É algo doido, meio tarantinesco, mas com uma pegada de cunho social.
Composto de forma epistolar, a protagonista é a Maria, jovem desempregada, que divide o quarto com uma prostituta, e escreve cartas e mais cartas por um gigolô por quem é apaixonada. Ela perdeu o emprego e está sem rumo e dinheiro na vida – o Seguro Social não sai – ela passa o tempo dando tiros numa espécie de clube popular, e sonha em comprar uma Baikal para resolver sua vida.
O grande feito de Adolfo aqui, além de mostrar uma juventude presa num abismo social onde não há empregos nem qualquer outro tipo de oportunidade, é seu uso da linguagem. O autor dá, realmente, voz a uma periferia, e escreve da maneira como seus personagens falam, eis que surgem então palavras como “atão”, “tamém”, “quíamos fazer”, entre outras. Esse é um pequeno grande romance sobre a juventude no Portugal do presente, num momento de crise social, econômica, política, e aqui se faz com sagacidade e humor.
Encantada. Ricardo Adolfo é um dos melhores autores da actual ficção nacional.
Os trabalhadores unidos vão ser todos despedidos.
O homem do sindicato voltou com a conversa dos direitos. Foi decidido em plenário ignorarmos a doutora e continuarmos a ir trabalhar todos os dias. Sim, agora as reuniões passaram a plenários. A gente pequena está eufórica. Sentem-se a melhor classe operária do mundo. Coitados. Até lhes começamos a achar graça. Sentados, muito direitos, muito atentos, a tentar processar, com os dois neuroniozinhos que Deus lhes deu, os palavrões dos direito e da luta que o homem do sindicato e os amigos que apareceram para animar a revolta vão gritando dos fundos do refeitório. Pela primeira vez alguém lhes dirige a palavra e não é para lhes dar uma piçada. Vivem momentos históricos. Os trabalhadores unidos vão ser todos despedidos. (…) Achamos curioso estarmos em greve se estamos todos despedidos. Não sabíamos que era possível estarmos no olho da rua e ao mesmo tempo protestarmos pela falta de condições de trabalho que não existe. É que nem estamos a protestar contra os despedimentos, estamos ainda na fase de reclamações contra os salários em atraso. (…) No último plenário ainda confirmámos com o grande líder se não era preciso termos trabalho para reclamar a falta de pagamentos. Disse-nos que eram detalhes técnicos irrelevantes e o que o que interessava eram os direitos dos trabalhadores. mas quem não tem trabalho tem direitos sobre o trabalho que não tem? os trabalhadores têm sempre direitos E quando não têm trabalho também são trabalhadores? São, pois, são trabalhadores oprimidos. oprimidos por quem? por quem os despediu e isso não faz deles desempregados? um trabalhador de verdade nunca está desempregado e quando tá sem trabalho? está a ser injustiçado pela classe patronal, que só pensa no lucro, mas nem por isso deixa de ser quem é, quem nasce trabalhador morre trabalhador é como se fosse uma deficiência, atão.
O autor sempre me despertou curiosidade pelos seus títulos muito originais, depois de o folhear na Bertrand fiquei ainda mais curioso com a sua maneira hábil de introduzir o Português falado nos subúrbios de Lisboa na escrita.
A história deste livro é em todo ficcional e intencionalmente banal. Temos portanto Maria ( a dos canos serrados) figura principal do livro que tem uma história muito comum de precariedade laboral numa empresa que comercializa cartões de tempo que vai à falência. O quotidiano gera revolta num crescendo que termina com tiros.
Em paralelo com o quotidiano precário de Maria temos a sua obsessão/amor com um "velhinho" que faz mulheres em Armação de Pêra para conseguir viver. O processo de escrita do livro é engraçado, porque todos os capítulos são curtos e redigidos sob a forma de carta, meio de comunicação privilegiado que Maria usa para contar aos seus acontecimentos ao "Velhinho".
É sem dúvida um livro que recomendo, embora também não o venere ou o ache extraordinário.
A primeira coisa que fizemos assim que chegámos ao local de desemprego foi googlar se a falta prolongada de orgasmos pode ter efeitos nocivos. A lista de maleitas é infinita. Isto está a tornar-se um caso clínico crónico. Tem de haver uma droga legal para este tipo de doença. Se não há, o que é que as farmacêuticas andam a investigar? Imagina tomares uma pastilha e a seguir começares a orgasmar. É a ideia do milénio, só pode."
Achei um espanto a obra "Mizé", mas lamento ter de atribuir uma classificação tão baixa a esta. O livro não está mal escrito, nem quero comparar, pois cada obra tem o seu lugar, mas...tive dificuldades em identificar as personagens, além de que falta qualquer coisa que me tivesse permitido "entrar" na obra.