Publicado em 1923, após o sucesso de Urupês, 'Negrinha' compõe um painel que vai da farsa à tragédia, do sarcasmo à compaixão, passando pelo drama pungente da filha de uma ex-escrava. Os personagens destes 17 contos são um retrato da população brasileira das décadas iniciais do século XX. Através deles, Lobato denuncia e desnuda os bastidores de uma sociedade patriarcal que deixa entrever os vestígios de uma persistente mentalidade escravocrata, mesmo décadas após a abolição.
José Bento Renato Monteiro Lobato (April 18, 1882 - July 4, 1948) was one of Brazil's most influential writers, mostly for his children's books set in the fictional Yellow Woodpecker Ranch but he had been previously a prolific writer of fiction, a translator and an art critic. He also founded one of Brazil's first publishing houses (Companhia Editora Nacional) and was a supporter of nationalism.
José Bento Renato Monteiro Lobato (Taubaté, São Paulo, 1882 - São Paulo, São Paulo, 1948) foi um contista, editor, romancista, jornalista e crítico literário brasileiro. Apaixonou-se pelos livros ainda na infância e As Viagens de Gulliver foi uma das suas obras favoritas. Em adulto interessou-se pelas obras de Camilo Castelo Branco, José de Alencar, Machado de Assis e Euclides da Cunha. Monteiro Lobato encontrou o seu maior êxito na literatura infantil. Quem não conhece O Sítio do Pica-pau Amarelo?!! Paralelamente foi escrevendo para adultos e, em 1923, depois do grande êxito de Urupês, escreveu Negrinha. São 17 contos (na minha edição) que retratam os vilarejos decadentes, a população brasileira do início do século XX e os bastidores de uma sociedade patriarcal e com uma mentalidade esclavagista.
A escrita é cuidadosa e simples mas estimula a dúvida, a reflexão e a crítica.
Destaco os contos:
Negrinha – 1920
Negrinha era uma pobre órfã de 7 anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.(…) Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo – não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim – por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida – nem esse de personalizar a peste...”
Fascinação - Pedro Peres, 1909 Pinacoteca de São Paulo
O Jardineiro Timóteo – 1920
“Um preto branco por dentro. (…) Timóteo era feliz. Raras criaturas realizam na vida mais formoso delírio de poeta. Sem família, criara uma família de flores; pobre, vivia ao pé de um tesouro. Era feliz, sim. Trabalhava por amor, conversando com a terra e as plantas – embora a copa e a cozinha implicassem com aquilo.”
Os negros - 1922
A trágica história de amor entre a filha de um fazendeiro e um empregado português. “Nosso crime – que lindo crime: amar! – foi descoberto. E a monstruosa engrenagem de aço triturou-nos, ossos e alma, aos três...”
O paulista, natural da cidade de Taubaté, José Bento Renato Monteiro Lobato (1882/1948) é uma das expressões máximas de nossa literatura. Escritor, crítico de arte e editor corajoso (foi o único no Brasil a publicar Lima Barreto quando quase ninguém nele acreditava), seu nome é quase que automaticamente ligado à literatura infantil, principalmente ao ciclo de histórias ligadas ao “Sítio do Pica-Pau Amarelo” já adaptado para várias mídias além dos livros e um grande sucesso. No entanto Monteiro Lobato, como é conhecido o escritor, tem uma produção que vai muito além de suas inegáveis contribuições à literatura infantil e vale muito a pena conferir o que existe “além do sítio”. Desafortunadamente aquele que considero um dos grandes escritores da literatura nacional em todos os tempos, um esteta do nosso idioma, dono de um senso de humor mordaz, detentor de uma grande capacidade de observação da realidade em que ele então vivia e de um senso crítico que demolia sem dó nem piedade as instituições e tradições da época, encontra-se, hoje em dia, “cancelado” em função de um pretenso racismo que permearia as suas obras. Beatriz Resende, professora titular do departamento de letras da UFRJ, especialista na obra de Monteiro Lobato e organizadora do excelente e obrigatório “Contos Completos”, lançado em 2014 e que reúne os quatro livros de contos lançados pelo autor (“Urupês”/1918, “Cidades Mortas”/1919, “Negrinha”/1920 e “O macaco que se fez homem”/1923) afirmou com propriedade e convicção, na apresentação desse livro o seguinte:
“Basta a leitura de “Negrinha” para compreender toda a tolice que envolve as críticas feitas a momentos de sua literatura em que reproduz o linguajar racista de seus contemporâneos. As falas evidentemente irônicas da boneca Emília, por exemplo, são o eco da sociedade racista, classicista, escravocrata que atravessa o século XX e chega até hoje convencida de que espaços como as universidades não se devem abrir aos pobres, aos diferentes e vêm na ainda tímida política de cotas uma heresia e nas condenações penais por racismo um excesso”.
É uma pena pois aqueles que preferem fingir que o grande escritor que Monteiro Lobato foi nunca existiu privam-se da experiência ímpar que é tomar contato com a grande literatura que ele produziu. E esse “cancelamento” torna-se mais nefasto ainda pois impossibilita até mesmo o debate, a discussão, a contextualização e a avaliação desse pretenso racismo que muitos insistem em identificar em sua obra. Creio piamente que essa “era do cancelamento” vai passar. Até lá paciência! Muita paciência! “Negrinha” é, na minha opinião o melhor dos livros de contos de Monteiro Lobato em função da inclusão de dois contos em particular; o pungente “conto título” “Negrinha” e o tragicômico “O colocador de pronomes”. Interessante como o autor consegue nos tocar em emoções de naturezas diferentes. Como não se emocionar com “Negrinha”?
“Menina órfã, nascida de mãe escrava, “Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”. Ao perder a mãe, com apenas quatro anos “por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés”.[...] “Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão”.[...] “Aprendeu a andar, mas quase não andava”.
Sua senhora, a cristã-mor, pilar da comunidade – Dona Inácia – não se conformava com a abolição:
“O treze de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou das mãos a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo. - Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!.”
Obrigada a ficar imóvel num canto da casa “Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.[...] Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas – um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante[...]”. “Que ideia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo...”
Pois, em função dos caminhos e descaminhos da vida em um belo dia, Negrinha, subitamente e por um certo tempo, foi tratada como gente mas, tão rápido como chegou, esse tempo passou e a menina descobriu-se incapaz de voltar ao que era pois:
“Negrinha, coisa nenhuma, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa – e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!”.
Tente não se emocionar com a íntegra do texto e com o contundente final. Sem dúvida alguma uma das mais belas páginas da nossa rica literatura. O outro conto “clássico dos clássicos” é “O colocador de pronomes” que trata da saga epopeica do destemido e ao mesmo tempo, desastrado Aldrovando Cantagalo, o “apóstolo do idioma pátrio”, um anti-herói tão quixotesco e emblemático quanto o Policarpo Quaresma de Lima Barreto e o Dr. Simão Bacamarte de Machado de Assis. Aldrovando Cantagalo, aquele que “veio ao mundo em virtude de um erro de gramática e morreu, afinal, vítima de um novo erro de gramática”. Inimigo dos “galicismos” e dos “anglicismos” e outros “ismos” que conspurcavam o amado idioma pátrio, Aldrovando dedicou a sua vida à pureza do idioma de Camões chegando a propor em ofício ao congresso leis severíssimas contra todos aqueles e aquelas que atentassem contra a pureza gramatical tanto no falar quanto no escrever. Propôs o “apóstolo”:
“Leis, senhores, leis de Dracão, que diques sejam, e fossados, e alcaçares de granito prepostos à defensão do idioma. Mister sendo, a forca se restaure, que mais o baraço merece quem conspurca o sacro patrimônio da sã vernaculidade, que quem o semelhante a vida tira. Vêde, senhores, os pronomes, em que lazeira jazem...”
“O colocador de pronomes” é hilariante, tragicômico e de leitura obrigatória para quem gosta de histórias bem contadas e personagens marcantes. Mas tem muito mais excelentes contos em “Negrinha”. Confira o dramático “O drama da geada”, o pungente “O jardineiro Timóteo”, os mordazes “A facada imortal” “Os pequeninos” e “A policitemia de dona Lindoca”, e os ótimos contos de terror (isso mesmo meus caros e caras, terror e dos bons) “Os negros” e “Bugio moqueado” além do surpreendente “Barba Azul”. Para finalizar um conselho: “cancele o cancelamento” e leia Monteiro Lobato. Nada menos do que excelente!
Comecei a ler Negrinha sem nenhum tipo de expectativa. Só sabia de Monteiro Lobato que escrevia muitos livros pra crianças, que foi o criador do sítio do Pica Pau Amarelo e que era racista. Longe disso, nada.
Grata surpresa levei ao me deparar com contos tão sumamente interessantes, de fácil entendimento e com um teor crítico e humorístico fora do comum! Realmente desfrutei de cada conto, de cada estorinha agradável encontrada em Negrinha, uma das suas obras para adultos mais conhecidas.
Deixando de lado as polêmicas e censura contemporânea de aspectos da obra do Lobato (da qual não me interessa), penso que esses contos estão mais para causos . Também consegue retratar com cores e linguagem o modo de pensar e agir da sociedade sociedade brasileira da sua epoca, em em especial do sudeste , bem retrógrada, elitista. E os pobres miseráveis da cor que não seja a "bajulada" neste pais continua a penar nas misérias . Parece que nada mudou neste país. Os "Policarpo Quaresma" aqui não têm vez...
Esse deve ser o melhor livro literário do Monteiro Lobato. Os melhores contos na minha opinião, "A geada", "Bugio Moqueado" e "Os Negros", têm até um clima inesperado de suspense ou terror folclórico que é bem interessante. Acho que funcionaria bem no cinema...
Professor de literatura disse q esse conto era a prova q Monteiro Lobato não era racista.
Sinceramente, grande coisa: ele contar uma história como a de negrinha não o exime das outras atitudes, politicamente mais relevantes, como a participação na sociedade brasileira de eugenia.
No conto, óbvio que a tortura, tanto física quanto psicológica, realizada na criança é vista com maus olhos pelo autor e pelo eu lírico do texto. Porém isso não se traduz instantaneamente na visão da pessoa negra como igual em virtudes, qualidades e direitos à pessoa branca.
Odeio fazer essa analogia, mas me parece semelhante a alguém que se posiciona contra os maus tratos dos animais não humanos e ao mesmo tempo não os credita como portadores de dignidade e direitos fundamentais.
Que maravilha de livro! Este volume contém contos e personagens de nos fazer apaixonar. Uma série de aventuras e desventuras sempre com personagens interessantes no papel principal. Um livro que só dá pena de não ter sido lido antes.
Maestral Com crônicas sublimes - o encontro entre o soldado e seu oficial, na pousada dos imigrantes, vem à mente - e aterradoras - ver negrinha definhar por ter sido, por um instante, feliz, e não mais conseguir reduzir-se é dilacerante - Lobato mostra logo que veio. Sem dúvidas um de nossos grandes escritores.
A primeira edição, de 1920 tem apenas 6 contos. Foram sendo adicionados outros e na quarta e definitiva, de 1946 temos 22. Os temas aqui são mais variados que nas outras duas coletâneas mas estão presentes assuntos abordados com frequência os textos do autor como por exemplo a questão do progresso e da forma como as pessoas da zona rural o encaram. Um de meus contos preferidos pertence a esse volume: O Colocador de Pronomes. Também merecem destaque: A Policitemia de Dona Lindoca, Sorte Grande, Dona Expedita e Herdeiro de Si Mesmo.
Histórico de leitura 28/10/2016
95% (202 de 212)
"Herdeiro de Si Mesmo" Nota: 5 excluir | editar 28/10/2016
92% (196 de 212)
"Dona Expedita" Nota: 4 28/10/2016
84% (178 de 212)
"Sorte Grande" Nota: 3 24/10/2016
74% (156 de 212)
""Quero Ajudar o Brasil"" Nota: 2 24/10/2016
67% (142 de 212)
"A Policitemia de Dona Lindoca" Nota: 5 24/10/2016