Dei uma pausa da sequência de seis livros de literatura brasileira com a minha autora favorita: a nigeriana Buchi Emecheta. Não tinha lido sua primeira narrativa longa, então foi ela a escolhida.
O livro teria recebido 3 ou 4 estrelas se eu não tivesse lido antes “Cidadã de Segunda Classe” (seu seguro livro) e especialmente “As Alegrias da Maternidade” (seu quinto e último livro). Já em No Fundo do Poço ela define os temas que são centrais em toda a sua obra: maternidade, opressão de gênero, imigração/xenofobia e desigualdade social. Mas a escrita dela evolui a passos largos à medida que publica novos livros, é realmente algo que eu adoraria que tivesse passado batido, mas não passou.
Ainda assim, esta obra é espetacular à sua maneira. Addah é uma mulher nigeriana, divorciada, mãe de cinco crianças, e que quer construir novas possibilidades para si e para seus filhos na Inglaterra. Deixa as crianças sozinhas em casa, umas cuidando das outras, como é comum entre famílias de classe baixa e média-baixa de todo lugar, enquanto trabalha como bibliotecária e faz seu Mestrado à noite. Alertada por uma assistente social sobre ser proibido deixar crianças desassistidas, ela deixa seu emprego e passa a viver do pequeno seguro provido pelo governo.
O “fundo do poço” é como ela se refere ao conjunto residencial onde mora, um lugar para onde o governo manda todas as “famílias-problema”. O lugar me lembra O Cortiço de Aluísio Azevedo, na multiplicidade de personagens e conflitos que, de alguma forma, também encontram jeito de ser um povo só. É interessantíssima a trajetória de Addah, do “não pertenço a este lugar” ao “não quero mais ir embora daqui”. Dois trechos desse arco me marcam: “Sua socialização estava completa. Ela, uma mulher africana com cinco filhos e nenhum marido, sem emprego e sem futuro, estava como a maioria de seus vizinhos: desocupada, desenraizada, sem direito a reivindicar nada” e “Prisioneiros, depois de uma longa estadia, costumam achar a vida fora mais exigente”.
A forma como a autora articula habilmente tantos temas em uma única narrativa coerente e coesa é preciosa: existem tantos “otherness” em uma história só. A mãe de cinco filhos, a imigrante, a pobre, a marginalizada, a desempregada, a não pertencente. E, sobre eles, existem o governo, a seguridade social, seus agentes.
Dois pontos são minhas ressalvas em relação à obra: 1) Senti falta de um final; o livro não termina no ar, ele termina como uma frase incompleta; 2) algumas cenas me parecem inverossímeis (provavelmente por ignorância de como funciona a seguridade social na Inglaterra), como aquela em que ela rejeita três diferentes realocações mas segue conseguindo propostas melhores.
Ainda assim, recomendo a leitura para quem nunca leu Buchi, é uma boa introdução. Definitivamente menos violenta para o leitor que suas demais obras.