Memórias de um Gigolô - Marcos Rey
Este é o livro nacional q eu mais li e reli na vida e ele chegou a mim de uma forma bastante inusitada. Um dia, numa aula de literatura do ensino fundamental, a professora comentou sobre este livro por mero acaso. Não é, nunca foi e creio q nunca será um livro canônico (palavra q uso aqui não no sentido religioso, mas no sentido de "canon sagrado da literatura brasileira"). Foi citado 'an passain' numa aula e eu gostei e pedi pros meus pais comprarem pra mim. Isso não era comum, eu não gostava da maioria dos livros "obrigatórios" da escola e normalmente lia autores estrangeiros mais apropriados para um 'teen', Agatha Christie, Julio Verne, Conan Doyle, etc.
O fato é, o livro me fisgou na adolescência e eu venho relendo desde então, quase uma vez ao ano.
A sinopse é bem simples. Ela conta a história de um garoto órfão, q vivia com sua tia, uma cartomante, q após sua morte tem sua vida disputada entre comerciantes vizinhos, cada qual querendo cuidar dele e, ao mesmo tempo, usar seus serviços nas suas atividades profissionais, mas havia uma outra alternativa, insólita e explosiva. Uma das clientes da sua tia lhe deu um cartão no velório da tia com um nome e um endereço e lhe disse pra ir procura-la. Esta era a cafetina de um dos mais famosos bordéis do centro de SP e lá nosso herói vai terminar sua "educação formal". 🤔
A narrativa é espetacular, nas releituras normalmente eu mato o livro numa sentada. Pode parecer um livro de pura sacanagem, afinal um adolescente indo morar num bordel, mas não é nada disso. A história de M (o nome dele só aparece no final do livro, portanto não vou dizer aqui, só darei a inicial) perpassa todo o período dos anos 30-40-50 de São Paulo. Nós temos a formação da vida noturna paulistana, os bairros se formando e consolidando, a sociedade daquela época, o surgimento e a queda de Vargas, o início da industrialização da cidade, etc.
É um panorama histórico da cidade (minha cidade, talvez por isso o livro falou tanto comigo) inserido dentro de uma trama irônica, debochada e muito divertida na figura de M, Lupe (apelido dela) e Esmeraldo, q formam o trio central de personagens. M. é um personagem multifacetado. Ele é ao mesmo tempo um desgraçado pela vida, também um 'bon vivant', um debochado, um parasita e ao mesmo tempo tem lampejos de generosidade de modo que é difícil classifica-lo como herói ou antiheroi. O melhor mesmo é ler o livro e descobrir.
É um livro que, por tudo que já escrevi, dei nota 10 e 5* no Goodreads. É óbvio que em termos de importância e peso literário eu não poderia colocar no mesmo nível de Vidas Secas, Memórias Postumas de Brás Cubas ou Memórias de um Sargento de Milícias, talvez meus três livros favoritos da literatura brasileira "canônica", mas todos eles são nota 10.
Finalizando, houve um filme baseado na obra, estrelado por Edson Celulari com trilha sonora de Chico Buarque. Eu assisti e ele é bem mediano e não faz jus ao livro. O livro é absurdamente melhor e mais rico.