"Até que tudo enfim se cancelou para sempre: as aulas, os bons serões do convívio; Cipriano, Paula, os filhos e essa evidência de harmonia que os justificava a todos e se exprimia na música de Paula; Guida e o seu agudo sonho de comunicar; Rebelo, Armando e a tenaz e derradeira esperança de estarem certos com a vida e consigo; Matos e o seu sarcástico e nervoso desespero; o Mira-Adamastor e a sua pequena e abjeta ambição de "legislar"; Cidália e a sua última esperança, a de um filho; o Félix e a sua "bonomia". Caminhos vários da procura, da alegria, do combate. Mas na dispersão de todas as forças elementares, no momento da desagregação, na memória desolada de tudo o que falhou e que mentiu, nas horas do cansaço, da amargura, da inquietação, unira-os a todos ou os chamara uma força final maior do que todos esses impulsos, mais profunda e mais alta, como pretexto e convicção, como valor que se assume ou se combate, ponto de referência, refúgio ou meio de acesso a outra realidade primeira, antiga e divina, lugar de reunião de tudo o que na terra excita e relembra, eco derradeiro de um apelo sagrado - essa força que estremecia obscura no apelo de Cidália e de Felix a um filho, e se revelava, nos instantes de milagre, plena e definitiva, numa tela de Mário à hora mortal de uma casa deserta, no rasto incendiado de uma Elsa que passa, na paz longínqua e inquietante e quase dolorosa da música de Paula. Uma vida profunda, misteriosa e universal aparecia assim em raros instantes de fulgor, esses em que o homem atinge o que há de verdade primitiva em si e que tão cedo e tão facilmente se esquece. Os pequenos sonhos, as pequenas alegrias levavam o homem até onde tudo era ainda miragem e distância. Mas a voz do fundamental ecoava, relembrava. Atingir o âmago, a aparição de uma qualidade divina, despojo dos deuses fáceis, ingénuos e tranquilizadores, frémito que vibra no silêncio e na noite, voz infatigável, imperecível!
Mas se um filho se reconhecia na perene e oculta elaboração do universo, a arte era a evidência original de tudo o que é vivo e verdadeiro, era assim a sagração do próprio acto do criador: o que havia num filho, e no amor, na promessa e na amargura - a aparição inicial do alarme e do sangue - a arte o evidenciava e corporizava e transmitia; mais do que qualquer outra forma de acesso ao profundo frémito da vida, à sua última vibração, ela fundia o homem a si próprio, na vivência absoluta dos instantes de privilégio. Mundo das formas indistintas, mundo de graça e do milagre, mundo original - um sinal único irradiava dele assim, redescobria-se no sonho de perenidade, na surpresa da morte, na alegria da música que vibra entre as estrelas de um fim de tempestade, na solidão de um mundo despovoado, na fúria e na aflição, na procura angustiada, no apelo fraterno, na interrogação e no alarme - sinal da aparição de uma verdade profunda, antiga, antiga, sinal da transfiguração, do limiar de uma memória que não finda...."