Giuliano Da Empoli - O Mago do Kremilin
Uma ficção, mas também uma breve “biografia não autorizada” da Rússia pós URSS. Podia ter sido assim! Não anda longe da realidade.
No tarde de 23 de Agosto de 2023 foi noticiada a morte de Yevgeny Viktorovich Prigozhin. Um vídeo apresentado pelas televisões e tomado como credível mostrava o que se supunha ser um avião em queda. Ao longe aquele “ponto” irregular precipitava-se dos céus num desfecho inescapável. Não planava. Apenas caía submisso à gravidade e resistência do ar.
A causa deste acidente não é difícil de perscrutar nos acontecimentos recentes relacionados com o grupo Wagner e a guerra na Ucrânia. Por muito rebuscadas que as teorias da conspiração possam parecer, e há sempre quem se esforce com uma mente fervilhante, aos olhos dos que se não deixam enredar por fantasias, as implicações do Kremlin pareceram óbvias desde o primeiro momento.
Quando em 24/08 Vladimir Putin apareceu a lamentar o sucedido e a descrever Prigozhin como “um talentoso que tinha cometido erros graves”, logo toda a comunicação social, e digo toda porque não li ou ouvi opinião contrária que não fosse “os culpados são a CIA, os Ucranianos, os Africanos, os Marcianos, etc”, surgiu num arrazoado de acusações à integridade de Putin e à forma despudorada como “mentia”. Como são tontos os que têm esta visão da realidade Russa. Talvez se tivessem lido este livro de Giuliano Da Empoli editado em 2022, talvez entendessem a forma como o pensamento e a realidade russa foi construída ao longo dos séculos. Mas este não é o único texto sério de análise da realidade russa. Entre dois fogos de Josua Yalfa ou O futuro é história de Masha Gessen são igualmente dois bons textos que facilmente se podem encontrar nas livrarias.
Neste livro Giuliano Da Empoli, O Mago do Kremlin descreve-nos uma história da Rússia desde as suas raízes culturais até ao que para a história vai ficar conhecida, e disso não tenho qualquer dúvida, como a era de Putin. Sendo Da Empoli um político italiano, especialista nos movimentos populistas e nas suas origens, e tendo tido um cargo oficial de conselheiro do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi e do ministro da cultura Francesco Rutelli, optou para contar-nos a sua interpretação da história da Rússia pela palavra de Vadim Baranov, personagem ficcionada que é aqui apresentada como o conselheiro de Putin desde o seu percurso de funcionário do FSB até ao seu terceiro mandato enquanto presidente da Rússia. Este personagem, Vadim Baranov apesar de ficcionada tem apego à realidade e corresponde a Vladislav Surkov, e efetivo conselheiro de Putin desde a sua apresentação como putativo primeiro-ministro em 1999, e até 2020 altura em que foi colocado em prisão domiciliária com a acusação de desvio de fundos. Vadim Baranov é a única personagem ficcionada neste romance, ainda que aqui funcione como um avatar de alguém bem real, alguém que para história ficou conhecido como a “eminência parda” do regime, o Rasputine do Kremlin. Todas as restantes personagens que vão surgindo ao longo do texto são-nos introduzidas pelo seu nome real, o que transporta este texto do campo da ficção para o de uma biografia não autorizada de Vladislav Surkov e da forma que assistiu ao desempenho de Vladimir Putin no poder.
O quase monólogo inicia-se com a apresentação de uma carta de Yevgeny Zamyatin, o autor de “Nós”, dirigida a Stalin (Iossif Vissarinovitch) solicitando-lhe uma comutação de pena. Impedido de escrever, vem reconhecendo todos os seus erros – a desilusão no regime dos sovietes – mas reafirmando que este seu erro só surge porque agiu segundo a sua razão e livre arbítrio, solicita ao chefe supremo, que não condena nem deixa de reconhecer, que lhe permita retomar actividade de escritor, o que para ele Zamyatin era o equivalente a uma pena de morte.
Este texto é introduzido pelo nosso narrador como um exemplo de alguém que não se arrepende das suas consequências mas que reconhece que têm de ter consequências. É alguém que implora por clemencia, e ao fazê-lo reconhece também a autoridade de quem pode decidir sobre a sua vida. É uma carta de clemencia, não é um libelo ignóbil de arrependimento.
Este momento do texto é importante porque alguns posteriormente vamos ser confrontados com um exilado russo, Boris Berezovsky, um amigo íntimo de Putin, alguém que muito contribuiu para ascensão de Putin, mas que ao ver-se fora da corte do poder, caiu no logro de se voltar contra o regime e o sistema que lhe tinham permitido a fortuna colossal que tinha “aferroado”. Em desgraça constituiu um partido político, foi opositor de Putin. Acabou tendo de fugir da Rússia e no exílio escreveu uma carta a Putin, que Da Empoli usa para realçar as diferença entre quem não de arrepende das opções que tomou e quem verdadeiramente não se arrependendo das mesmas se humilha e rasteja julgando que com isso poderá de alguma forma recuperar o seu lugar entre o séquito e assim reaver o estatuto entretanto perdido.
Giuliano Da Empoli apresenta-nos o seu narrador num exílio forçado, perto de Moscovo, naquela que era a casa de família de Vadim Baranov. Aí, na biblioteca, entre inúmeros livros predominante de autores franceses, Vadia, era assim que era referido pelos amigos, inicia o seu monólogo fazendo a apresentação do depósito cultural aí sedimentado e de que forma este influenciou a vida e o modo de pensar dos antepassados que o mais marcaram. O seu avô e o seu pai. Dois homens de personalidade diferente e de que o autor se serve para enquadrar a história mais próxima da Rússia. O seu avô um aristocrata, de fino humor, que tinha assistido à construção do estado soviético, sem nunca dele ter participado, mas tendo sempre a elegância suficiente para evitar as armadilhas que inevitavelmente lhe devem ter surgido ao caminho. Alguém que tinha escapado por entre pingos da chuva ao regime dos Gulags. Alguém que era um caçador exímio e por isso reconhecido como um poeta no meio de lobos.
O seu pai tinha uma personalidade completamente diferente. Era um homem do partido, um Apparatchik. Alguém que, e apesar das diferenças não poderem ser maiores, era alguém que o autor pela voz de Vadia nos apresenta como um aristocrata. Alguém para quem o dinheiro não conta, pois aquilo que ele pode comprar são bens e mordomias a que se tem direito por nascimento. Não assim grande diferença entre o regime aristocrata do tempo dos Czares e o do tempo dos Sovietes. E foi no meio desta aristocracia que Vadim Baranov cresceu.
A Rússia nunca deixou de ser aristocrática. Durante o final do consulado de Gorbachev e os anos loucos de Boris Yeltsin, a Rússia atravessou um período experimental de neoliberalismo, de um capitalismo selvagem, que o ocidente viu como uma abertura à democracia mas foi um período que permitiu o maior saque das riquezas de uma nação que alguma vez se assistiu. Enquanto as economias ocidentais iam ocupando esse vazio, e porque necessitavam de testas de ferro que conhecessem o terreno, essa classe de vândalos e plutocratas foi-se constituindo e adquirindo as mordomias que julgavam ser suas. Era uma altura em que telemóveis tocavam e eram atendidos no teatro Bolshoi durante uma qualquer apresentação. Tinha-se perdido o respeito pela história da nação, pelas suas riquezas e características culturais. O ocidente viu esta ameaça, mas viu nela uma oportunidade para maximizar os seus lucros. E assim lentamente deixou que a teia ocidental de ridículo com que cobria a sociedade russa fosse acompanhada pela ameaça da intromissão de causas fraturantes que um ocidente decadente gostava de cultivar.
O povo russo não gostava. Não gostava de ver a sua história ridicularizada por estrangeirados que tinham estudado em caras e elegantes universidades estrangeiras, mas que se achavam os portadores de um iluminismo neoliberal do século XXI. Não gostava o povo russo, não gostava a sua aristocracia czarista ou comunista, não gostava o grupo de homens que liderava a espionagem do FSB.
Foi neste caldo que Vladimir Putin emergiu. Oriundo da contra-espionagem via no ocidente e nas suas ameaças um factor de destruição da unidade territorial que ao longo de séculos os vários Czares tinham contruído. Vladimir Putin estava agora no poder, no comando e tinha a responsabilidade de não deixar a sua Rússia resvalar para as armadilhas do ocidente. Não havia uma terceira alternativa. Ou se estava com ele e com o povo russo, ou se estava contra ambos. O povo russo tinha conhecido há menos de cem anos uma guerra civil, e via nos anos de Yeltsin, anos de insegurança, anos de rastilho para o desmembramento territorial da Rússia, o risco de uma nova guerra civil. E se algo há que o povo apoia cegamente é o sentimento de autoridade, uma autoridade que lhes dê segurança e estabilidade. Não importa o quanto autocrática essa sociedade seja, o importante é que lhes garanta segurança e estabilidade.
Segundo Da Empoli e a sua ficção, Vladimir Putin leu bem este anseio do povo e soube rodear-se de homens que tivessem essa leitura do futuro para a Rússia e que não olhassem a meios para cumprir a vontade da autoridade e do povo. É assim que surge Vladislav Surkov (aqui ficcionado como Vadim Baranov). Alguém que vindo do “quarto poder” sabia como o usar para os objectivos principais do consulado de Putin – a coesão e engrandecimento territorial da nação Russa, o afastamento progressivo da cultura ocidental e do seu iluminismo. E o “Rasputine” do Kremlin esteve nos principais momentos de afirmação de independência e não ocidentalização do território e cultura russa. Esteve na luta da Chechénia, foi o responsável pela solução Ramzan Kadyrov, responsável pela resolução da revolução rosa na Georgia, pela organização dos Jogos Olímpicos de Sochi, foi responsável pela constituição e conceito do grupo wagner, foi responsável pela estratégia de ocupação da Crimeia, responsável pela organização da luta no Donbass ucraniano. Responsável pelo conceito – não há Ucrânia, responsável pelo conceito de Soberania Democrática que tentou implementar na Rússia de Putin, alimentado e alienando todos os extremistas – comunistas, vanguardistas, nazis, vândalos tribais. Só deixou de fora desta sua política de apoios centrípetos aqueles que defendiam conceitos e causas fracturantes conotadas com o ocidente.
E deu corpo a todas estas políticas não porque tivesse ordens expressas do Czar para assim proceder, mas antes porque pressentia nas entrelinhas que estes eram os seus desígnios e vontades. Desígnios e vontades que o Czar nunca verbalizava limitando-se apenas a deixar que os seus homens assim intuíssem.
É por isso que quem ouve as palavras de Putin a “lamentar o sucedido e descrever Prigozhin como um talentoso que tinha cometido erros graves”, e vê nestas palavras mentira e hipocrisia, não entende nada da realidade russa e deveria ler esta ficção antes de continuar a encher os média de asneiras e disparates.