"Abaixo ao Grão-duque!"
Pequeno-burgueses, sinônimo de classe média, são àquela camada de não ricos e não pobres, que possuem uma certa dependência financeira variável à ordem econômica. Não estando na base, nem no alto da pirâmide social, favoráveis ao protecionismo de patrimônio, longe de serem donos dos meios de produção, portam-se como se assim o fossem. No coração desta teratologia, a depender do esforço lucrativo dedicado somente à meritocracia do trabalho inversamente proporcional à saúde, obtêm-se na anemia popular o principal sintoma, cujos efeitos colaterais se convertem paradoxalmente nos status de posse. Em graus diferentes, a perda do senso coletivo de humanidade se espelha no modelo dominante da educação moral burguesa, que afastada do povo, e ao sabor das oscilações de mercado, capital e trabalho, tem-se por política oculta ver vantagem em situações de conluio, conspiração e conchavo. Não acompanhando o espírito do seu tempo, mais do que se apegar ao passado hegemônico, grande parte de tais grupos se apegam às desigualdades que os privilegiam. Desatentos ao problema abstrato da luta de classes entre a base e o topo da pirâmide social, geralmente são contrários às diferenças filosóficas, sociais, democráticas, culturais, antropológicas e existenciais. Sua tolerância se nivela a partir da cópia bem sucedida do capital simbólico da classe dirigente. Tudo o que foge a essa tendência de homogeneização do sujeito, torna-se alvo de especulações, julgamentos e perseguições, não apenas na expressão das ruas, ou nos gabinetes de negócio, mas principalmente, dentro do seio familiar, onde as discussões podem ser mais pesadas do que as questões de Estado.
Ao traçar este perfil entre as quatro paredes no contexto da classe média russa de 1900, desde a publicação até os dias de hoje, as reflexões contidas nessa peça teatral pouco se desatualizaram. De enredo quase totalmente preso ao cenário fixo dos interiores do casarão da família Bessemenov, todas as cenas se ligam a partir do velho patriarca, que anteposto ao viés oblíquo de personagens secundárias e terciárias, o autor tensiona o conflito de gerações quando a instrução como forma de conhecimento pode atrapalhar a ordem vigente das relações entre pai/filho(s), patrão/empregado(s), igreja/devoto(s) e professor/aluno(s). O segredo do teatro de Gorki ser popular talvez esteja em personagens que no subtexto trabalham como emissários metalinguísticos da reflexão social. Distante do simplismo proselitista, o antagonismo invisível da família Bessemenov é a própria catarse do espírito do tempo pregresso na plateia. A grande ironia é que no imóvel vivem inquilinos pelos quais a família Bessemenov depende do aluguel. Para ainda acirrar mais o tempero dos conflitos, também há agregados familiares moralmente cobrados por não atenderem as vontades tradicionais do pater familias. Além disso, há o sarcasmo implícito de todas as personagens orbitarem mais em torno da propriedade do que ao redor dele. Confrontado pelo seu afilhado adotivo, de classe operária, um tanto anti-intelectualizável por sentir-se pouco inclinado a assuntos filosóficos, como pivô da história, cita Marx sem o sabê-lo, da mesma forma, que hoje, muitos trabalhadores precários citariam Margaret Thatcher e/ou Ludwig Von Mises. O que de fato revela o quanto não estamos exatamente controlados pela consciência ideológica, mas sim, pela hegemonia ou quebra de paradigma semiológico do tempo que vivemos.
Como demonstrado no espetáculo, o niilismo político agrada e imobiliza descontentamentos de esquerda e de direita, por mais que, na maioria das vezes, a ordem das coisas não mude, em uma das cenas do último ato, quando os párias românticos da família saem definitivamente da casa Bessemenov, neste momento, percebe-se a construção emergente de uma sociedade justa cuja fé simbólica seria depositária da revolução comunista dezessete anos mais tarde. Enquanto isso, a vida seguiria, o velho se preocuparia ainda mais com a perda venal do seu capital político, em detrimento da filha suicida a qual não teve seu amor correspondido pelo afilhado apaixonado pela sobrinha. Sua esposa continuaria crédula e submissa. O filho herdeiro provavelmente não terminaria os estudos, com os mesmos preconceitos do pai tiraria proveito da jovem inquilina, viúva de um carcereiro, cujos objetivos eram libertar simbolicamente o garoto para o benemérito de seu próprio alpinismo social. O inquilino e cantor niilista permaneceria endividado no aluguel e na bebida. Seu irmão prosseguiria como um lunático caçador de passarinhos. A doméstica receberia as mesmas ordens parcimoniosas. O colega universitário do filho, o amigo e a colega de trabalho da filha continuariam esperançosos com alguma mudança política sonhada. As pessoas da rua fariam novas fofocas sobre o que acontece na casa. A filha provavelmente voltaria a ser uma apática professora do ensino infantil. E conforme sinalizado nas falas do texto, o povo russo cada vez mais se instruiria nesse tipo de teatro.
Grande mosaico de situações multilaterais, este drama familiar, precursor do teatro sociopolítico, influenciou plenamente o que se conhece hoje pela técnica dramatúrgica de aplicar o materialismo dialético ao drama social moderno. O espetáculo sofreu tesouradas da censura czarista, assim como, os sessenta mil exemplares vendidos, mas, nem por isso, Gorki deixou de participar da montagem. Durante a estreia, no Teatro de Arte de Moscou, com a cavalaria imperial na porta, pouco antes do espetáculo, a pedido do diretor Stanislavski, o elenco disse para a plateia conter os ânimos para que o autor continuasse escrevendo. Em outras palavras, sugeria que todos poderiam sair penalizados pelo regime czarista. De sucesso, sem precedentes, Pequeno-burgueses continua sendo um marco na história do teatro moderno.
(Yuri Ulrych)