Manuel da Fonseca conhecia o Alentejo, as suas gentes e as suas histórias. Não embelezou nenhuma delas; antes pelo contrário. Sentimos em cada momento que aquelas histórias só podem ter sido reais, em lugares e tempos reais, atravessados por personagens de carne e osso. Há marcas de uma autobiografia e ecos longínquos de um Dostoievski, de um Tolstoi (as imagens que se foram formando na minha cabeça foram muitas vezes as de filmes de Bela Tarr, sobretudo de «O cavalo de Turim»; aquela paisagem e aquele drama podiam ter tido lugar no interior do Alentejo). E, no entanto, é radicalmente diferente de qualquer um deles. De um tema considerado «menor» (o espaço rural de uma região tantas vezes desprezada) Manuel da Fonseca retirou o pitoresco e o anedótico: ficou a aridez da paisagem, a têmpera das gentes, o cante, o trabalho, a miséria. O Alentejo não é só isso, mas ali era isso. E aqui nenhum desses aspectos é lugar-comum onde se caia ingenuamente. Não há exagero, fantasia, eufemismo. Os fios que habilmente ligam os diferentes contos estão lá para marcar uma certa realidade, como se fôssemos reconhecendo velhos companheiros.
Habituei-me, enquanto alentejano, a que a paisagem que conheço desde sempre e as suas histórias fossem tipificadas, remetidas para a caracterização burlesca, menorizadas perante olhares estrangeiros. Aqui não. Orgulhosamente não.