“Libras é língua." Foi este o título escolhido para a palestra apresentada por uma linguista em um evento cujo público alvo era o estudante do curso de letras. Uma professora que trabalha na área da surdez, mencionando o título, fez o seguinte comentário: "De novo? Achei que essa questão já estava resolvida!". [...]
O que vemos é que o discurso aparentemente "gasto" faz-se necessário, precisando ser repetido inúmeras vezes para que a constituição social dessa língua minoritária ocorra, ou seja, para chegarmos à legitimação e ao reconhecimento, por parte da sociedade como um todo, de que a língua de sinais É uma língua. (Gesser, 2009, p. 9)
A escolha da autora de começar o livro com essa cena da repetição constante da demanda da legitimação da libras como língua em um discurso acadêmico-político me amarrou de primeira e prendeu ao texto. Li o livro todo animada. Reconheci em mim mesma, como uma pessoa ouvinte, mas ainda assim como uma travesti negra, essa repetição de máximas políticas e demandas ao ponto de que ouço com frequência de pessoas brancas e cisgênero que estão cansadas dos mesmos discursos sobre vidas negras, direitos trans, etc. Essa proximidade entre minha experiência e o tema da luta de pessoas trans em meio a marginalização também se espelha em momentos históricos – como no caso de que ambos grupos foram perseguidos no ápice do discurso eugenista – e no cotidiano vivido de pessoas negras e surdas – como nessa repetição constante de uma máxima básica: “libras é uma língua”, “vidas negras importam”.
Ao mesmo tempo que me chama a atenção as proximidades na marginalização de populações surdas e populações negras, não pude deixar de notar como o esteriótipo racial e nacional do negro brasileiro aparece nas impressões de pessoas surdas estaunidenses – como fica explícito na passagem do diário pessoal da autora sobre sua interação com estadunidenses que pensavam em Brasil como carnaval e samba (Gessei, 2009, p. 49). Desta forma, me parece explícito como pessoas surdas são imbricadas em suas sociedades rodeadas por uma maioria de cultura ouvinte de tal forma que princípios antinegros (Vargas, 2020) e estereótipos nacionais fazem parte das realidades das comunidades surdas. Minha curiosidade epistemológica e minha consciência me levam a perguntar: onde estão as pessoas negras surdas em minha vida?
Voltando para o conteúdo do livro, a introdução introspectiva com o objetivo do livro em desmistificar mitos e crenças incorretas sobre libras, pessoas surdas e a surdez é seguida por três capítulos que destrincham justamente esses três campos. No capítulo 1 a autora trabalha com o tema da língua brasileira de sinais, libras. achei incrível as discussões sobre gramática dentro da libras por meio da distinção entre configuração da mão (CM), ponto de articulação (PA), movimento (M) e orientação da palma da mão (O). No capítulo 2 o tema são as pessoas surdas, suas comunidades e identidades. Fiquei instigada pela forma como o texto articula a temática do impacto das ideologias da oralização para as pessoas surdas no Brasil. No capítulo 3 o tema é a surdez, suas relações com os discursos patologizantes e o tema da socialização e educação de pessoas surdas. Saber mais sobre a história e relações sociais atreladas à surdez me instiga a querer ser uma professora capaz de dialogar com minhas estudantes surdas. Gostei muito de ler o livro como um todo e sinto que a leitura e a disciplina como um todo têm sido um ponto alto de toda a minha formação como professora e pesquisadora. Destaco alguns pontos que chocaram como saber sobre a influência colonial da França no desenvolvimento da libras no Brasil e da ASL nos EUA, o tema da produção de uma grafia de línguas de sinais, a forte atuação dos eugenistas na barragem de direitos de pessoas surdas e na proposta de extermínio dessa população, o caso peculiar de Martha's Vineyard no EUA,e a importância da UFSC no quadro nacional de formação de pesquisadoras surdas e de produção de ciência por/sobre pessoas surdas. É sobre este último tema que me proporei a escrever um pouco sobre.
Eu sou uma pessoa do Mato Grosso que se mudou para Santa Catarina aos 17 anos para fazer faculdade. Lembro-me de ver pessoas se comunicando em libras pelo CCE (Centro de Comunicação e Expressão) da UFSC e pensar que essa era uma realidade da pluralidade das universidades como um todo. Até a leitura do livro, jamais tinha passado pela minha mente que a presença de pessoas surdas em grande número era um diferencial das histórias de luta dentro de nossa universidade. O exemplo da UFSC me fez acreditar que todas as universidades tinham cursos de libras: uma imagem falsa, mas ainda sim um caminho para uma sociedade mais inclusiva e que integra pessoas surdas como cidadãos dignos de direitos.
Por fim, como forma de concluir esta breve escrita, indico que a leitura também me instigou a fazer pesquisas sobre as proximidades entre o ouvintismo e a branquitude (Bento, 2002), especialmente tomando como locus a UFSC, universidade na qual simultaneamente há o curso pioneiro de Letras Libras e se situa em um estado excepcionalmente marcado pela supremacia branca no contexto brasileiro (Klinkerfus, 2025). "Ouvintismo é um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e narrar-se como se fosse ouvinte" (Skliar, 1998, p. 15 apud Gesser, 2009, p. 64), é explicado em uma nota de rodapé do livro e me remete às formas como as representações brancas de populações negras têm feito essas populações negras ao redor da diáspora se olhem e se narrem a partir de uma visão antinegra (Fanon, 2020). A operação de ambas as forças é visível, inclusive, nas produção de autoras negras que ignoram as particularidades de pessoas negras surdos na diáspora, mas também no próprio texto de Gesser, que joga o tema das desigualdades raciais de forma rasa e sem referências (ou com referências também rasas).
O objetivo principal desse livro, conforme a autora, é desfazer preconceitos muito arraigados à sociedade, sobre a Língua Brasileira de Sinais. E é com êxito que ela cumpre com a sua meta. Eu aprendi muito durante a leitura e, ao mesmo tempo, me vi obrigada a repensar algumas concepções que tinha sobre o povo surdo e a língua de sinais.
Livro cumpre seu objetivo de fazer repensar questões relativas à surdez e aos surdos. Bom ponto de partida para quem quer começar a entender mais esse universo e tirar as principais dúvidas sobre o assunto.
Li pra disciplina de Libras na faculdade e na moral muito bom.
Me deu um panorama muito bom sobre Libras, muita muita coisa que nem imaginava fiquei sabendo por aqui. Recomendo a todos, é curtinho e vale muito a pena.