Michael S Neiberg - A dança das Fúrias. A Europa e a Eclosão da Primeira Guerra Mundial
Magnífico livro. Escrito numa prosa doce, clara, sem teatralidades, de cuja tentação fugiu, MS Neiberg apresenta-nos um precioso registo vivo da sociedade europeia no início do século XX. Muitíssimo bem documentado, com as referências colocadas em rodapé, vai ficar sem dúvida como um documento incontornável para quem quiser entender o contexto da eclosão e persistência, o grande quadro, do que para história ficou conhecido como a primeira guerra mundial.
Num dos primeiros livros de 2022 – A Grande Guerra de Marc Ferro, pela descrição do autor tinha ficado com a impressão que a IªGM tinha emergido de nacionalismos exacerbados, que a população europeia se tinha atirado para o abismo plenamente convencida que as sua suas razões se sobrepunham às “do outro” e que dos sentimentos nacionalistas emanavam deveres que se sobreporiam a um qualquer conceito de humanidade e civilidade.
Uma posição muito idêntica retirei do romance de George Orwell - História de um Homem Comum, onde pela descrição de uma Inglaterra antes do fatídico agosto de 1914, pairava no ar um entusiasmo que só depois, mas muito rapidamente, se revelou serôdio e maligno.
Como estava errado. Neste livro, Michael Neiberg mostra-nos “ao vivo” e de forma documentada a realidade da europa nos inícios do século XX. Era uma europa de uma nova era. Uma europa da modernidade, da civilidade, das instituições vaga e lentamente democráticas. Uma europa que presava os valores nacionais, tinha orgulho na sociedade e nos seus feitos, sociais, culturais, científicos e tecnológicos. Características estas que não eram apanágio de um qualquer império, mas cujos valores se encontravam embrionariamente difusos a ocidente dos montes Urais. Havia competição entre nações, havia orgulho nacional, mas daqui resultava um nacionalismo assente em ambas as formas de cultura, popular e “alta-cultura”, mas que convivia e coexistia sem ofuscar com os conceitos humanistas da época, o internacionalismo social e científico que então germinava. A europa era guiada por dois nortes, um minoritário sem dúvida ultrarradical, nacionalista e de direita e um outro predominante, e de pendor universalista, solidário e eclético.
Era, como nos bem documenta Neiberg uma europa nada era favorável à eclosão da 1ªGM. Claro que os imperialistas, ainda que minoritários e dispersos pelas quatro potencias de então forçavam sempre os seus governos, exércitos e populações para posições próximas do abismo – crise de Marrocos, Líbia e Balcãs, mas sempre houve o bom senso que pela mão amiga da diplomacia resolveu as contendas antes das “vias de facto” enveredarem por caminhos marciais, emergentes e irreversíveis. Esta era a europa antes da 1ªGM, a europa antes do verdadeiro século XX se ter iniciado.
Quando a guerra eclodiu, as populações continuavam crentes e esperançadas numa solução diplomática que entretanto nunca surgiu. E assim se foram arrastando para a contenda, sem euforia e com uma confiança inicial que rapidamente evoluiu para esperança e depois para súplica, que tudo poderia terminar com um volte-face pacífico. Acreditavam nas suas instituições e líderes. Mas enquanto o tempo tardava e o outono europeu se instalou, a guerra acabou perspectivada e aceite como defesa do território, passou a ser uma guerra defensiva. Uma guerra que defendia um nacionalismo cujo entusiasmo era intrínseco em alguns grupos e intervenientes (muito típico dos “… armemo-nos e ide para a frente de combate …”). Este entusiasmo inicial era minoritário e enquanto posição minoritária podia ser observado em qualquer potencia imperial. Populações citadinas, conservadoras, nacionalistas e de direita tendiam a um maior entusiasmo com a guerra que o observado em populações rurais, proletárias, de pendor socialista e adepta de um internacionalismo transfronteiriço. Mas mesmo nestes grupos mais minoritários, com as primeiras semanas de guerra o nacionalismo e entusiasmo chocou com a realidade é deu origem ao desânimo, descrença, desmotivação e depressão coletiva.
A mobilização para a guerra foi aceite de forma resignada e imbuída de sentimentos de inserção comunitária e reconhecimento pelos pares. “Uma guerra não é para ser saudade, é para ser suportada”; “Numa guerra não há heróis só há vítimas”, “O diabo ria-se da obra dos seus filhos” são expressões que retratam bem os sentimentos dos que se sentiam arrastados pelos acontecimentos.
Com a manutenção da guerra os soldados perderam qualquer resquício de humanidade ou civilidade. A brutalidade tornou-se uma segunda natureza. Se assim não fosse, se não fossem brutais não eram bons soldados. A guerra era então dominada com um misto de desilusão “… se fosse eu que mandasse este ano não havia Natal. Soldado 12/1914 …”, “o que de melhor podia acontecer a um soldado era ser feito prisioneiro”, mas também de omissão, desinformação, mentira e propaganda de que é exemplo a que indicava as condições do campo de batalha “trincheiras com aquecimento central”.
Mas os exércitos não foram as únicas vítimas desta guerra. Na sociedade civil as populações sofreram inicialmente com a desinformação, a mentira, a omissão, mas depois viram os mortos, os feridos, a fome, as migrações, as evacuações, o medo, e o pânico. A sociedade ficou dividida entre velhos, viúvas, órfãos e estropiados por um lado, e noutro por especuladores, oportunistas e parasitas da mais variada taxonomia. Para os que ficam acentuou-se o fosso entre os com posses para resistir ou para fugir e os que por falta de meios não têm como se proteger ou como subsistir.
Em ambos os lados a informação era manipulada. Só se informava conforme o efeito que se pretendia. Nunca era para apresentar a verdade. As más notícias podiam ser omitidas ou deturparas por motivos óbvios. As boas eram igualmente manipuladas para não induzirem euforia. Era o domínio absoluto da propaganda. Se para os mortos eram o fim da incerteza e do sofrimento, com os feridos, a realidade estava à frente de todos. A 12 de setembro mais de 200.000 feridos entraram em Paris após a “vitória” do Marne.
A primeira grande guerra foi uma guerra de gabinete de uma dúzia de homens que por ambição, incompetência ou ambas não souberam parar a tempo e levaram a Europa para um abismo onde morreram 20M e 20M ficaram feridos. Antes de agosto de 1914, não havia ódio entre as nações e conceitos como nacionalismo e chauvinismo eram essencialmente abstratos. Com o início da guerra e a descrição das atrocidades e violência (sempre do outro) instalaram um clima de ódio que incendiou e forneceu combustível para uma guerra de mais 4 anos. E é aqui que se dá uma mudança importante. Se antes se acreditava que o inimigo correspondia aos líderes e elites do inimigo, com o padrão dos horrores descritos por testemunhos e propaganda, e com a própria evolução da guerra, este estereótipo de ódio ao inimigo passou a ser atribuído genericamente a todos, a todo o inimigo, quando antes só era dirigido aos hiper-nacionalistas e classe dominante. O ódio passou a ser generalizado. Era preciso vencer. E a vitória só podia ser total. A guerra tinha de ir até ao fim. Se o ódio não causou a guerra, depressa se instalou e serviu de carburante num ciclo vicioso de um só objectivo, a vitória total! A guerra ganhou vida própria e entrou numa maligna dança de fúrias, título que o autor dá a este livro.