Uma obra de Bradbury, é sempre um acontecimento. Ray Bradbury é o mais celebrado autor de ficção-científica - diz-se frequentemente. Não obstante, o aspecto científico, sem ser puramente negado, não é fundamental no seu trabalho. Os outros mundos, os progressos da tecnologia - mais do que os da ciência -, são simultâneamente o pano de fundo e a mola real dos problemas humanos que ele analisa com um toque de poesia jamais igualado. Muito Depois da Meia-Noite - a versão portuguesa de Long After Midnight - contém 22 histórias, versando temas tão inesperados como o da Garrafa Azul do planeta Marte, até ao da barra de chocolate abençoada pelo Papa, bem guardada numa igreja, não se sabe onde... Histórias bizarras, sem dúvida. Histórias pungentes, algumas. Histórias de Bradbury, todas elas. E, como tal, magistrais. Por razões técnicas, Muito Depois da Meia-Noite será dividido em dois volumes. Eis como se inicia a presente colectânea:
Os relógios de sol tinham-se tornado em pedrinhas brancas. As aves do ar voavam agora em velhos céus de rocha e areia, enterradas, as suas canções paradas. Os fundos do mar morto eram atravessados por correntes de poeira que inundavam a terra quando o vento decidia reviver uma velha lenda de absorção. As cidades estavam no fundo de celeiros de silêncio, onde o tempo era armazenado e mantido, lagoas e fontes de quietude e memória. Marte estava morto. Então, da grande calma, de uma grande distância, veio um som de insecto que se tornou maior entre as colinas cor de canela e se moveu pelo ar queimado pelo Sol até a estrada tremer e a poeira ser sacudida e cair num murmúrio, nas velhas cidades. O ruído cessou. No silêncio tremeluzente do meio-dia, Albert Beck e Leonard Craig estavam num velho carro de superfície, olhando uma cidade morta que não se movia sob o olhar deles, mas aguardava o seu grito: - Olá! Uma torre de cristal caiu numa chuva de poeira fina. - Quem está aí? E outra tombou. E outra e mais outra abateram-se, quando Beck gritou por elas, chamando-as à morte. Em voos estilhaçantes, animais de pedra com grandes asas de granito mergulharam para chocar contra os pátios e as fontes. O grito dele chamou-os como se fossem bestas vivas, e os animais deram resposta, roncaram, estalaram, ergueram-se, rebolaram, trémulos, hesitantes e, depois, cortaram o ar e mergulharam com a boca num esgar e os olhos vazios, com dentes afiados e eternamente esfomeados, subitamente imobilizados e atirados como metralha sobre os mosaicos. Beck aguardou. Não caíram mais torres. - Agora estamos em segurança. Podemos sair. Craig não se moveu. - Pela mesma razão? Beck moveu a cabeça afirmativamente. - Por uma maldita garrafa! Não compreendo. Porque é que toda a gente a quer? Beck saíu do carro. - Aqueles que a encontraram, nunca o disseram. Mas... é antiga. Antiga como o deserto, como os mares mortos... e ninguém faz ideia do que ela contém. - É o que diz a lenda. E como ninguém sabe o que ela contém... bem, isso desperta a fome de um homem. - A tua e não a minha - notou Craig. A sua boca mal se moveu; tinha os olhos meio-fechados, um pouco divertidos. Espreguiçou-se. - Vim somente pelo passeio. É melhor observar-te do que estar aí ao calor.
Contos: A Garrafa Azul Uma Primavera Intemporal O Papagaio que Conheceu o Papa O Homem Ardente Um Pedaço de Madeira O Messias G.B.S. - Tipo V O Assassínio Absolutamente Perfeito Castigo Sem Crime Passando o Domingo de Algum Modo Beba Tudo: Contra a Loucura das Multidões
Ray Douglas Bradbury was an American author and screenwriter. One of the most celebrated 20th-century American writers, he worked in a variety of genres, including fantasy, science fiction, horror, mystery, and realistic fiction.
Bradbury is best known for his novel Fahrenheit 451 (1953) and his short-story collections The Martian Chronicles (1950), The Illustrated Man (1951), and The October Country (1955). Other notable works include the coming of age novel Dandelion Wine (1957), the dark fantasy Something Wicked This Way Comes (1962) and the fictionalized memoir Green Shadows, White Whale (1992). He also wrote and consulted on screenplays and television scripts, including Moby Dick and It Came from Outer Space. Many of his works were adapted into television and film productions as well as comic books. Bradbury also wrote poetry which has been published in several collections, such as They Have Not Seen the Stars (2001).
The New York Times called Bradbury "An author whose fanciful imagination, poetic prose, and mature understanding of human character have won him an international reputation" and "the writer most responsible for bringing modern science fiction into the literary mainstream".
Voltei-me para Bill e disse-lhe: - Não compreendes! – gritei. – Brincas, corres e comes, durante todo esse tempo estão a enganar-te e a levar-te a pensares de uma maneira diferente e a actuares diferentemente e a pensares de outro modo. E subitamente virá o dia em que deixarás de brincar e começarás a preocupar-te! - Uma Primavera Intemporal -
Com a excepção de três contos em que o universo mais rebuscado da ficção-científica ou do surrealismo fizeram o meu cérebro desligar-se, “Muito Depois da Meia-Noite”, o terceiro livro de contos de Ray Bradbury que leio, veio comprovar que o autor é de facto um mestre, sobretudo em matéria de nostalgia, melancolia, sonhos desfeitos e pesadelos inesperados. “Um pedaço de madeira”, “O assassínio absolutamente perfeito”, “Uma primavera intemporal”, “A garrafa azul” e o “Papagaio que conhece o Papá” são pequenas obras-primas. Um homem decide matar outro 36 anos depois devido à forma como o tratou aos 12; um soldado inventa uma máquina chamada Ferrugem que desfaz todas as armas; um jovem pensa que os pais estão a envenená-lo; e numa mudança radical de registo, Ray Bradbury encarna um detective típico de Dashiell Hammett, para recuperar o papagaio que vivia no bar que Hemingway frequentava e que foi raptado porque julgam que este escritor lhe ditou o seu último inédito.
- Que fariam vocês, os oficiais, e que faríamos nós, o que faria o mundo se acordássemos todos amanhã com as armas arruinadas, a caírem aos flocos? (…) – Rearmar-se-iam tão depressa quanto possível. - E se pudessem ser impedidos disso? - Então bater-se-iam uns aos outros com os punhos. Se se chegasse a tal. Grandes exércitos, com homens armados de luvas de boxe com espetos de aço reunir-se-iam nas fronteiras nacionais. E se lhes tirassem as luvas usariam as unhas e os pés. E se lhes cortassem as pernas cuspiriam uns nos outros. - Um Pedaço de Madeira -