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As Duas Sombras do Rio

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Esta é uma história feita de histórias entretecidas. Histórias de guerra e de sobrevivência, de pequenos sinais de humanidade rompendo da violência como as plantas rompem das pedras. É também uma história de divisõ divisões entre a memória e o presente, entre os deuses e os homens, entre os homens eles próprios. Divisões que crescem no espaço da grande divisão que o majestoso rio Zambeze cavou, separando o mundo da cobra feminina, milenar e sábia, e o mundo do leão masculino, jovem e fogoso erigindo uma fronteira entre o Norte e o Sul. Esta história feita de histórias mostra que talvez os homens encontrem na ilha de Cacessemo, a meio do rio, uma ponte de união entre o mundo da água e o mundo do fogo.

238 pages, Paperback

First published January 1, 2003

3 people are currently reading
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About the author

João Paulo Borges Coelho

26 books16 followers
Escritor e historiador moçambicano, ensina História Contemporânea de Moçambique e África Austral na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo e é Professor Convidado no Mestrado em História de África do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem-se dedicado à investigação das guerras colonial e civil em Moçambique, assim como às questões de segurança regional no Sul de África e à política da memória.
Recebeu em 2004, com o romance As Visitas do Dr. Valdez, o Prémio José Craveirinha da Literatura, a maior distinção literária em Moçambique. Com O Olho de Herzog recebeu o Prémio Leya 2009. A sua obra literária inclui ainda outros quatro romances ( As Duas Sombras do Rio, 2003; Crónica da Rua 513.2, 2006; e Campo de Trânsito, 2007; Rainhas da Noite, 2013), dois volumes de estórias da série Índicos Indícios (Setentrião e Meridião, ambos de 2005; e duas novelas (Hinyambaan, 2008; Cidade dos Espelhos).

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Érica Moreira.
41 reviews4 followers
June 3, 2025
É a 2 vez que leio este livro, mas talvez depois de ler Mia Couto e Agualusa, não tenha sido boa ideia vir ler este... A narrativa é bonita, há partes lindas: “o povo intrigado com aquele esforço vão para apressar o tempo, quanto é sabido até pelas crianças que são os homens que cabem dentro do tempo e não o contrário”, mas não cativa. É maçudo e não flui. Contudo sei que na 1ª vez que o li, o devorei.

Já me disseram que livros seguintes eram melhores, vou dar uma chance.
Profile Image for Miguel.
Author 8 books37 followers
August 17, 2016
O livro é sobre a guerra civil que devastou Moçambique durante os anos 80, e centra-se nas vicissitudes de uma zona da província de Tete, nas margens do imponente Zambeze, ali mesmo naquele ponto em que o país faz fronteira com a Zâmbia e com o Zimbábue.

É um livro amargo, doloroso, muito sombrio como o título indica, que traduz bem todo o sofrimento, mas sobretudo todo o desgoverno e toda a desesperança que a guerra sempre traz às populações. Mas nem por a escrita de JPBC perde a sua característica luminosa, alegre (é isso, mais do que uma escrita bem-humorada, é uma escrita viva, alegre), que faz as personagens e os acontecimentos saltarem de vida à nossa frente.

Talvez que de um ponto de vista narrativo não seja um livro tão coerente como os seguintes. E além disso arrisca uma coisa que é sempre muito difícil: encontrar na nossa língua uma semântica que seja fiel ao universo mágico e religioso, cheio de animismos e intuições, que constitui o sedimento identitário cultural e filosófico das populações africanas. Mas nada disso belisca o prazer e a riqueza da literatura de JPBC, e sobretudo, como já referi, a sua espantosa capacidade de dar vida às palavras e às personagens.

Essa qualidade da escrita de JPBC está muito patente no trecho seguinte. Nem vale a pena contextualizar esta cena, porque é tão eloquente, caracteriza tão bem a situação, dá em duas pinceladas, o perfil das personagens (mesmo que uma delas esteja morta e da outra nem o nome saibamos, apenas a profissão e a condição), que de facto se pode ler até como um conto, tem essa riqueza da síntese e da concisão.

Não é de mais repetir: João Paulo Borges Coelho é um escritor obrigatório! Para quem gosta de ler, para quem gosta da língua portuguesa e da sua literatura, e até para quem gosta de saber mais acerca de nós próprios conhecendo melhor os outros.

«No dia seguinte, o lojista chegou como de costume. Vinha preocupado com um ligeiro atraso e por isso achou estranho que a porta estivesse fechada e as gelosias das janelas cerradas. Hesitou, bateu à porta e acabou por ir sentar-se junto dos outros criados, debaixo do alpendre, aguardando. Era uma situação inédita, aquela, e eles, habituados à rotina e à obediência, não sabiam o que fazer. Comentavam uns com os outros, falavam de coisas pequenas, esperavam. Mas a responsabilidade roía o lojista que não se sentia bem desconversando com o tempo, esperando que as coisas se resolvessem por si próprias. Por isso juntou coragem e deu a volta à casa, espreitando à procura de um sinal. Subiu os três degraus da varanda, do outro lado, batendo as palmas bem alto para pedir licença. Foi então que deparou com a patroa ao fundo da varanda, quieta, olhando o rio.
- Bom dia, patroa. Estamos já lá fora à espera de entrar. Há também alguns clientes.
Teve como resposta o silêncio. Mama Mère desinteressa-se dele, envolvida agora em assunto mais interior e fundamental. Passou a noite naquela mesmíssima posição, a mão esquerda pousada no colo e a direita no cabo do punhal, erecta, olhando o rio com os seus grandes olhos abertos. O xaile descaiu-lhe para a cintura já há muito tempo, o que de restou pouco importa: o cacimbo não molesta os mortos da mesma maneira que molesta os vivos. O sol matinal espalha-se pelo soalho da varanda e daqui a pouco chegará aos pés da congolesa e começará a trepar-lhe pelas pernas, iluminando-a.
O lojista esperou ainda um pouco, respeitoso. Mas intrigado com aquele alheamento, acabou por aproximar-se. Pigarreou primeiro, falou depois, tentando convencê-la a reagir, sem saber que Mama Mère estava já muito longe dali. Deu-se por fim conta de que o mundo desabava (quem depende daquela maneira, como o lojista e os criados, deposita sempre no protector o segredo da ordem das coisas). Deu vários passos na varanda sem se decidir por uma direcção, falou sozinho durante um bocado e acabou por fugir dali, gritando alto. De volta ao alpendre, levou ainda um tempo a fazer-se entender pelos restantes. Desataram então a falar muito alto uns com os outros, lamentando e inquirindo, descoordenados. Uns saíam do confuso círculo e iam espreitar à varanda. Voltavam depois gesticulando e bradando coisas incompreensíveis, como se visão do vulto induzisse a loucura.»
Profile Image for António Ganhão.
Author 2 books28 followers
Read
June 24, 2012
Neste seu primeiro romance, João Paulo Borges Coelho, mergulha na mística africana recordando-nos a impossibilidade de, nesse continente, vivermos simplesmente entre o céu e a terra. Um rio surge-nos como fio condutor de histórias que convergem e divergem sem nunca dele se afastar.

“Muito lá em cima, seguem-nos aves elegantes de bicos compridíssimos, descomprometidas daqueles subúrbios da natureza mas interesseiras quando se lançam velozmente, ziguezagueando por entre as canas para abocanhar num ápice um daqueles solitários e penosos peixes que já deixaram de ser peixes e não conseguiram ser a alternativa que buscavam, num caminho sem retorno. Intrigante é como a natureza permite que aves tão belas e de voo de tão extraordinário alcance possam continuar a sê-lo alimentando-se das criaturas mais feias que há à face da terra.”

O narrador que aqui já ameaça soltar-se do fio da história e tecer os seus próprios apartes, a partir do décimo capítulo ganha uma autonomia e mesmo uma ironia quase Saramaguiana.

“Mas deixemo-nos de divagações que o tempo urge.” Ou, como em: “…matam dois pobres pescadores imprudentes na maneira de enfrentar o seu destino (estando ali quando deviam de estar noutro lugar)…”
Profile Image for DonQuijote.
326 reviews12 followers
January 1, 2013
Me ha encantado, un poco difícil de leer al principio porque aún no dominaba el portugués, pero la historia engancha, entre la magia, el contrabando, la pobreza, las guerras… lo tiene todo, preciosa la historia. Para volver a leerla!!
Displaying 1 - 4 of 4 reviews

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