Les amitiés particulières (spoiler)
Acho que o grande mérito deste livrinho é a representação de uma experiência não comum à maioria de nós, plebeus: a de viver e fazer estudos clássicos num internato católico só para meninos. — isso é reservado a uma certa elite, quer na França, quer em qualquer parte do mundo... Peyrefitte, portanto, trata de uma homossexualidade mesmo muito específica: ela é adolescente e é aristocrática. Hoje vemos como o tema tem fascinado as novas gerações, em séries que estão repletas disso: Elite, Young Royals,...
Enfim, retomando o internato em si: ele é colégio e é igreja. É no discurso de um dos padres-professores que surge a expressão: "amitiés particulières" [amizades particulares], como um perigo às crianças, e a exortação de uma busca por "santas amizades". Nas palavras do padre, sensibilidade leva à sensualidade e haveria amizades (não públicas), baseadas na sensibilidade (no carinho, no cuidado, na delicadeza) que poderiam levar ao pecado, claro. Então, deveríamos tomar cuidado com as amizades infantis, porque crianças são anjos, certo; mas os demônios também não são anjos? Anjos caídos... Mas anjos! Esse gênero de observação me diverte... Sensibilidade=sensualidade. Anjo=demônio. Tudo isso não é verdade, afinal?
Com efeito, uma das coisas que me agradou particulièrement foi a identificação de amizade com amor. A fórmula amor=amizade me parece absolutamente doce e intuitiva. Sobretudo um dos poemas, que foi copiado por André e dedicado para seu amigo Lucien é de uma encantadora beleza.
O amante começa usando o vocativo "Amigo,..." E pergunta se o amigo se lembra de um dia de férias que passaram juntos, descreve tudo o que viram. No fim, ele seleciona uma lembrança específica e subverte de maneira inesperada o vocativo: onde escrevera "amigo" no começo, troca por "amor, você se lembra...", no fim. O poema acaba com grande impacto por causa dessa mudança inesperada. Mas é só o doce inesperado que impacta? Não. É também a ruptura abrupta. É o não-dizer-mais e o querer-escutar-mais que fica em nosso espírito. O poema é como um beijo roubado (ligeiro, inesperado e fugidio). É tão charmoso e elegante! Coisa de gentleman! De um amante com A maiúsculo. — alguém que sabe surpreender e encantar! Segue:
Ami, te souvient-il de ce soir éclatant
Où les fleurs du jardin s'étoilaient parmi l'ombre?
Nous avions, au tennis, fait des parties sans nombre,
Sveltes, dans nos costumes blancs.
Le soleil se fanait, la brume était légère,
Nous écoutions en nous murmurer le désir,
Et nos anciens baisers, de leur chaud souvenir,
Parfumaient nos coeurs en prière.
Nous revenions tous deux par une sombre allée...
Amour, te souvient-il de cette sombre allée ?
— Eu acho que todo amante deveria escrever uma versão desse poema para o seu amado! Kkkk Tentemos nossas traduções, cavalheiros!
Acho que Peyrefitte chega, à sua maneira, ao que eu chamo de espiritualização da homossexualidade, isto é, a idealização e a elevação dela.
Podemos ver uma sequência de delicadezas, de verdadeiras surpresas da candura, deixadas aqui e ali por toda a história. Os rituais de namoro que as crianças inventam: Alexandre, o amado de Georges, corta uma mexa de seus cabelinhos louros e dá de presente para o menino mais velho. Alexandre faz um pequeno corte no braço e dá de beber do seu sangue a Georges, que em seguida faz o mesmo. Há as trocas de cartas com poesias e todas as palavras da ternura. Voilà !
Algo que eu achei especialmente interessante é a assimilação do próprio cristianismo nessa espiritualização. A criança mais novinha é comparada a todo o momento com o cordeiro (O Cristo), os santos católicos são usados como espécie de código para elogiar o amado (o dia de São Jorge, o dia de São Alexandre ou Alexis). Ah, claro!, a retomada dos autores clássicos nesse tema, sobretudo Virgílio, nas aulas de tradução.
Por que é importante notar isso? Porque é justamente o que, ao meu ver, falta à homossexualidade; a única maneira possível de superar a má-consciência da homofobia (que é, ela mesma, um discurso que rebaixa a homossexualidade) não é a naturalização da mesma (trazer à Terra), mas a espiritualização dela (levada ao Céu) — essa é uma tese que eu defendo, mas não desenvolverei aqui. Digo apenas que o meio para tanto é, sempre foi e sempre será a literatura. Onde estão nossos poetas e nossos errantes? É a pergunta que eu faço. Claramente, devemos, sem se revoltar contra o cristianismo e seu ascetismo, buscar no Ocidente, agora e antes, a fonte espiritual do amor mais nobre entre todos!
Voltando à história...
O cavalheiro que copiou o belo poeminha é André, rapaz de uma das duas amizades particulares que vamos conhecer nesta história. Ele é cortesão de Lucien, um menino de cabelos negros e olhos azuis, o seu pequeno amado, para quem o nosso poeta dedica versos. Penso que basta para que se tenha André por herói: ele tem bom gosto... Para versos, para o objeto deles...
Por outro lado, há o verdadeiro protagonista do romance: Georges de Sarre. — esse pentelho maudito!
Como se percebe pelo sobrenome do pirralho, trata-se da alta aristocracia francesa... Ele será Marquês, tem 14 anos. Mas embora ele seja, de fato, nobre, eu não gostei desse personagem... Acho-o, ironicamente, snob (sine nobilitate). Por quê?
Eu o achei desleal e traiçoeiro e um amante medíocre (Alexandre é muita areia para seu caminhãozinho).
Ele, logo que chegou no internato, encantou-se, como todos nós, com a beleza de Lucien Rouvère. Tá! Mas qual é o problema? Lucien já era comprometido! Ele amava André!
Não obstante, o maldito Georges, que acabara de entrar no internato, decide entrar também em uma disputa totalmente reacionária com André pelo coração de Lucien. Por que reacionária? Porque ele se convence de que a amizade dele seria melhor para Lucien do que a amizade de André. Porque seria uma espécie de amizade pura (não seria dessas amizades particulares). Sabemos do que se trata! Revolta contra a sexualidade e inveja. — sentimentos do ressentimento.
O problema é que Lucien, pobrezinho, confiou em Georges e mostrou-lhe os poemas que recebia de seu amigo enamorado. Para quê? Georges roubou-lhe um dos poemas e foi caguetar André ao Superior. Tipo? Cara, por que você não morre e deixa os outros em paz? No fim, Lucien perde o amigo — que é expulso —, Georges percebe que não ama Lucien, quando se encanta por ainda outro menino, vindo da classe dos pequenos, o cordeirinho Alexandre. É descrito como uma espécie de anjo mesmo, como o menino mais belo de todo o colégio. Ele tem 12 anos e ajuda o padre Lauzon nas missas.
Aqui começa então a saga da tentativa de George de conquistar essa criança. Ele a espreita, a segue, a observa, a persegue mesmo, esbarra nela, toca nela, sorri para ela, até que finalmente lhe deixa explícito num bilhete suas intenções. O menino corresponde docemente e os dois viram amigos secretos. A partir de então, os dois vivem procurando meios de se encontrar e de fugir da vigília dos religiosos.
O Padre de Trenne
Essa figura curiosa surge a essa altura do romance. O Pai de Trenne é o novo responsável pela vigília do dormitório em que Georges e Lucien ficam. As camas dos dois meninos ficam uma ao lado da outra, o que facilita a conversa dos dois, na madrugada. Eles conversam, claro, sobre suas respectivas amizades, falam sobre amor, sobre poesia (foi numa dessas que Lucien foi traído, sem o saber, por Georges). Enfim...
Numa noite o pai de Trenne começa a importunar os dois meninos. Ele os acorda, os leva até seu quarto, oferece-lhes cigarros. Já podemos adivinhar qual a intenção desse padre... Parece que ele faz isso com vários meninos no colégio. É uma espécie de pescador de adolescentes.
Fato é que ele consegue fisgar alguns, como o irmão mais velho do pequeno Alexandre, Maurice Motier.
Numa dessas noites, Georges, tomado de temor de que o padre se aproxime daquela maneira de seu cordeirinho, decide por termo na situação. Ele espera que um menino seja levado para o quarto do padre (curiosamente esse menino é o irmão de Alexandre) e vai, novamente, fazer o que sabe fazer de melhor: caguetar para o superior. Uma observação: ele cagueta sem dar as caras... É meio ninja... Ele escreve bilhetes, entrega poemas etc, passa por baixo da porta ou deixa em lugar estratégico. Kkkk
De fato, a gente pode pensar que ele agiu corretamente aqui, e que fez mesmo uma jogada inteligente, se foi para proteger seu amado. Porém, é de se pensar que talvez o jovem Maurice Motier pudesse estar se divertindo com o padre... Quer dizer, por mais weirdo que o padre fosse, ele não obrigava nenhum deles a entrar em seu quarto. Maurice foi e permaneceu com ele porque quis, e não se sabe exatamente a idade dele (sabemos que é o irmão mais velho de Alexandre).
Acho que já conseguimos ter uma ideia de como é Georges. Um garoto idealista? Certamente. Ele se imagina um amante superior a todos os demais. Mas no fundo, ele não passa de um moralista, na minha opinião.
De maneira nenhuma a amizade dele é melhor que a amizade de André. Seus sentimentos não são mais doces nem mais puros — são limitados, isso sim. Sua proteção é inexistente. Ele não soube proteger o seu menino do PERIGO REAL. Ele o protegeu de um falso perigo, porque o pai de Trenne, por mais esquisito que fosse, era um espírito, me parece, elegante, e jamais forçaria qualquer coisa com quem quer que fosse.
O Père de Trenne não era um verdadeiro perigo. Pelo contrário, me parece que poderia ser um aliado dos dois. Mas Georges, com seu moralismo, não viu o verdadeiro perigo: o confessor dos dois, o Pai Lauzon, espécie de rato piedoso e ascético.
Eles são descobertos por esse padre e são separados. Alexandre seria expulso do colégio, enquanto Georges permaneceria, depois de ter se confessado com o padreco.
Os dois meninos se desesperam, criam um plano maluco e irresponsável de fugirem juntos durante as férias, mas Lauzon, que agora os tem sob constante vigia, acaba descobrindo. O padre pede a Georges que entregue para ele todas as cartas e bilhetes de amor que recebera de Alexandre, sob a pena de não poder voltar mais para Saint-Claude e, claro, de contar para os pais de ambos o que estava acontecendo. Georges, sem avisar Alexandre — este nada sabe sobre a descoberta do padre — faz o que o padre pediu, raciocinando que, fazendo isso, se submetendo, ele poderia ganhar tempo de alguma maneira. Depois, ele se explicaria para seu menino.
Lauzon, depois de receber todos os bilhetes e cartas de amor de Alexandre, claro, vai até o menino e lhe mostra como Georges desistiu de seus planos de fuga. Como Georges, no fim, o traiu — traiu, inclusive, sua intimidade. Como você entrega seu cadinho, os seus sentimentos mais ternos e escondidos, para uma porra de um padre moralista, que chama seus sentimentos mais elevados de perversão?
O menino se suicida.
Há uma discussão na narração a respeito da sinceridade do amor de Lauzon por Alexandre. Este, de fato, amaria o pequeno, e tudo fez por amor, para salvar sua alma. Para mim, isso é impossível. Amor não constrange, amor não fere, amor não mata. E que Deus é esse que criminaliza e condena eternamente uma falta tão boba? Uma falta que nem falta parece, porque não faz mal a ninguém...
Enfim, fica provado para mim, que Georges falhou com Alexandre. Cabia a ele protegê-lo e não só ele não soube fazê-lo, como levou o cordeiro para o abate. Ele deveria ter sido menos cagueta, menos indiscreto, deveria ter orientado mais o menino. E por que sou tão duro assim? Simples! O menino estava vivo e em paz, seguindo a maturação de sua cabecinha. Por que entrar na vida de alguém, se vai piorá-la? Piorá-la ao ponto de torná-la insuportável? Foi o que fez Georges. É um FDP estúpido! Molequinho desgraçado!
No mínimo, um péssimo protagonista... Quem salva este livro é Loucien Rouvère, é André, é Alexandre. Georges parece ter saído do inferno.