La vida en todas sus formas, las anécdotas de infancia y el recuerdo de amigos desaparecidos, una calle de Lisboa, un árbol en el jardín familiar, un viaje a Italia, una noche en un hotel de Munich, la entrega de un premio literario, la inspiración, la dificultad de escribir... La vida de António Lobo Antunes en todos sus aspectos conforma el universo de las crónicas que el autor portugués viene ofreciendo desde hace años en distintas publicaciones periódicas de todo el mundo. Estas crónicas, y las que se publicarán en sucesivos volúmenes, representan lo más parecido a la autobiografía de uno de los escritores cruciales del panorama literario mundial.
At the age of seven, António Lobo Antunes decided to be a writer but when he was 16, his father sent him to medical school - he is a psychiatrist. During this time he never stopped writing. By the end of his education he had to join the Army, to take part in the war in Angola, from 1970 to 1973. It was there, in a military hospital, that he gained interest for the subjects of death and the other. The Angolan war for independence later became subject to many of his novels. He worked many months in Germany and Belgium.
In 1979, Lobo Antunes published his first novel - Memória de Elefante (Elephant's Memory), where he told the story of his separation. Due to the success of his first novel, Lobo Antunes decided to devote his evenings to writing. He has been practicing psychiatry all the time, though, mainly at the outpatient's unit at the Hospital Miguel Bombarda of Lisbon.
His style is considered to be very dense, heavily influenced by William Faulkner, James Joyce and Louis-Ferdinand Céline. He has an extensive work, translated into several languages. Among the many awards he has received so far, in 2007 he received the Camões Award, the most prestigious Portuguese literary award.
Um belíssimo livro. Não são crónicas, são portas entreabertas que nos permitem ver a (sempre fascinante) vida dos outros, que é tão nossa também. Viemos todos do mesmo nada e vamos para o mesmo nada, mas neste entretanto que é a vida conseguimos amar e desiludir, ser derrotados e vencer. O livro é feito destes "entretantos" --
Natureza morta com senhora
Desde a morte do marido e desde que os filhos saíram de casa alugava em setembro um rés-do-chão minúsculo na praia onde dantes tivera uma vivenda enorme. O rés-do-chão ficava espremido entre dois prédios, diante do talho, numa rua em que não se via o mar. E passava as tardes numa cadeira de lona, no meio dos móveis que não eram seus, voltada para a parede fronteira, na qual um prato de loiça azul se pendurava de um prego (...). À hora do jantar aquecia no fogãozito duas almôndegas e uma colher de arroz que comia sozinha, numa mesa de toalha de oleado, diante das notícias do televisor sem som. (...) Não acendia a túlipa cor-de-rosa do tecto que tingiria o compartimento de um hálito pálido que piscava: permanecia assim a escutar as ondas ou nem sequer a escutar as ondas, a escutar nada. O retrato do marido morto, sobre uma espécie de cómoda, não se interessava por ninguém. No compartimento ao lado uma cama quase de criança onde suponho que dormia. Dormiria? No compartimento ao lado uma cama quase de criança onde presumo que continuava a fumar à espera da manhã. Aos oitenta anos, perguntava-me eu, que manhã se espera? (...) Em Setembro as gaivotas deixavam a praia e gritavam nos telhados, assustadas com a maré-viva do equinócio. (...) O frio de outubro era uma das raras coisas que vinha. No rés-do-chão espremido entre dois prédios, numa rua em que não se via o mar, o cigarro nos dedos não se consumia nunca. (...) Costumava visitá-la ao fazer uma pausa no meu livro. Descia lá de cima, quase na Tomadia, batia à porta aberta e entrava. Havia uma segunda cadeira diante da cadeira de lona e eu sentia-me amargo e desiludido com o meu trabalho Apoiava o braço na toalha de oleado e sorria-lhe. O sorriso com que me respondia assemelhava-se a uma fenda num muro gasto. (...) Tinha pena de a deixar na cadeira de lona, diante do prato de loiça azul pendurado no prego. Que podia eu fazer? Impedir outubro e as gaivotas aos gritos nos telhados? (...) Apetecia-me esquecê-la e à sua porta aberta por causa do fumo, ao jornal no colo que parecia não ler. Esquecer as almôndegas e a colher de arroz. As notícias do televisor sem som, onde um peixe de casaco abria e fechava a boca de mistura com incêndios e ministros. De forma que dizia - Até amanhã e, cá fora enfiava as mãos nos bolsos. Enfiava o mais que podia as mãos nos bolsos, fechadas com tanta força que ao pegar na caneta dava conta que as articulações me doíam. Mas não fazia mal: massajava-as a verificar os meus papéis e dali a nada estava capaz de recomeçar. Apenas tinha de esquecer a fenda de muro gasto do seu sorriso. Mas isso, graças a Deus, a gente esquece. Não é?
"....Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:..." (António Lobo Antunes)
aos vinte anos julgava que o tempo lhe resolvia os problemas: aos cinquenta dava-se conta que o tempo se tornara o problema.
mais uma compilação de deliciosas crónicas publicas em jornais e revistas.
nesta viagem, lobo antunes deixa-nos espreitar através de pequenas janelas que poderiam ser da vida da maior parte de nós, faz-nos rir por se rir de si próprio e, mais uma vez, se prova como observador e apreciador da essência portuguesa.
"…porque o segredo não consiste escrever, consiste em corrigir e corrigir e despir os fatos de que vestimos as estátuas das primeiras versões, pavorosas gravatas de adjetivos, bonés de metáforas medonhas, o mau gosto das alpacas dos gestores que só não querem ser Deus por que ganhariam menos."
Será que eu conseguiria incentivá-lo a ler esse escritor? É certo que não conseguirei. Conseguirei, talvez, incliná-lo a apanhar qualquer obra dele, em qualquer instante, e daí por diante você não mais o largará seja lá qual for o motivo. Perdão; só o largará quando já se sentir em estado de convalescença.
As sombras da vida e a solidão e apatia adjacentes à idade adulta e velhice ganham vida em cada crónica; todos os casamentos se iniciam para colapsar em indiferença ou rancor, todos os dias nascem acompanhados de melancolia e crises existenciais, todas as pessoas e animais que amamos abandonam-nos, eventualmente. Assim senti a soturnez de cada página, como se Lobo Antunes me olhasse de cima, julgando a minha felicidade e ingenuidade perante a vida.
Este livro não me prendeu... Achei a grande maioria das crónicas repetitivas, tanto em estilo como em conteúdo. Não há grande variedade de temas, numa grande fixação com a morte, aqueles que já não estão entre nós, e sobre estar no presente refém do passado. Muitas crónicas são também demasiado vagas, e achei abusivo sempre o mesmo estilo de orações enormes com demasiadas vozes à mistura.
Mais uma bela colecção de crónicas algumas das quais publicadas em livro pela primeira vez. Se me dão licença, estou tentado a distinguir uma: O Umbigo do Umbigo do Umbigo. Hilariante!