Natália de Oliveira Correia foi uma escritora e poeta portuguesa. Deputada à Assembleia da República (1980-1991), interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago (Prémio Nobel de Literatura, 1998), Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). Tem uma biblioteca com o seu nome em Lisboa em Carnide.
A novel whose characters, predominantly female, denounce a patriarchal ideology in recession in favour of a more peaceful system in terms of gender. Innovative writing for the time. The emergence of the feminist movement in Portugal, which appeared at that time, was an event that left no one indifferent.
Um livro que faz lembrar "A cidade e as serras", do Eça de Queiroz. Aqui, a personagem principal também se divide entre a casa de família, na ruralidade portuguesa, e a vida intelectual em Paris. E há igualmente uma insatisfação, uma impossibilidade de encontrar um lugar, uma incapacidade em definir uma identidade. Branca vive entre o cosmopolitismo de um tédio pantanoso, feito de cinismo e desencanto, numa Paris que regurgita festivamente as suas contradições e a rude mesquinhez de Briandos, com o seu zeloso moralismo e a sua bruta incompreensão do tamanho do mundo exterior. Tenta sentir-se viva na liberdade que lhe proporciona a vida parisiense, na grandeza dos sentimentos, na descoberta do amor e do ciúme, e do que é ser mulher e do que são os homens. Tenta reencontrar-se, e às suas raízes, em Briandos, numa ideia telúrica e ingénua, de animalidade e coisas primordiais. Procura apaixonar-se, sentir-se amada, viver de forma derradeira.
Este romance foi publicado em 1968, ano em que o mês de maio se tornou tão importante. Ano em que Sartre ficaria do lado dos estudantes, durante as revoltas estudantis. Seis anos antes do 25 de Abril. É um livro portentoso, com uma escrita fluída, vibrante, ao mesmo tempo erudita e profana, delirante e lúcida. É um arremesso feminista à sociedade, mais emocional e intuitivo do que argumentativo, mas ainda assim cheio de pertinência. Muito do que é a concepção da castidade, da fidelidade, do ciúme, do amor, do feminino e do masculino é aqui abordado de forma intensa e implacável. Há um universo que Natália Correia aqui torna vivo e aceso, que estilhaça completamente o que Betty Friedan tinha chamado uns anos antes, em 1963, de Mística Feminina. Fica demonstrado não é possível conter o que uma mulher é num conceito de feminino, num conjunto de coisas, restritas e bem delimitadas. Numa Mística. Natália Correia, com a sua narrativa surpreendente e uma escrita fulminante, abre caminhos, coloca questões, destrói mitos, põe o dedo em feridas e cura males. Volta a baralhar tudo e segue, em grande aceleração com assomos surrealistas. Dá voz a uma personagem que sabe que o seu lugar no mundo não é de mais ninguém. Por mais dificuldade que tenha em perceber tudo o que se está a passar consigo, faz as perguntas e procura, e quer sentir. E é capaz de por o mundo todo do avesso. O seu mundo.
Que livro. A partir do momento em que comecei a ler não consegui parar de pensar nele. Deitava-me a pensar no que tinha acabado de ler e quando acordava só pensava no momento do dia em que ia pegar novamente no livro para o ler. Apesar de já ter lido alguma prosa de Natália Correia nada se compara a este livro. Que montanha russa (literalmente)! Não consigo pensar no impacto que o livro terá tido em 1968, tocando em temas que questionavam o papel da mulher na sociedade, a consciência do corpo e a descoberta da sexualidade, que para mim foi acolhido com bastante normalidade, mas que devem ter tocado profundamente as mulheres daquela época. Natália Correia foi uma lufada de ar fresco no nosso pequeno país e tenho-lhe uma admiração (e atrevo-me a dizer um amor) enorme. Aproveitei o centenário da escritora para adquirir e ler a maioria das suas obras e até agora só tenho sido surpreendida.
“Rimo-nos às bandeiras despregadas e esse riso soava como os guizos de um encontro saudável das nossas almas.” ❤️
A MADONA - Natália Correia . O romance "A Madona", publicado pela primeira vez em 1968, foi o livro escolhido para o Clube de Leitura da Biblioteca Municipal da Amadora, a propósito do centenário da escritora Natália Correia.
Ainda não tinha tido a oportunidade de a ler, mas conheci um pouco da sua vida quando li a biografia da Filipa Martins. Conhecia alguns poemas, mas este foi o primeiro romance que li. O livro "conta-nos a história de Branca, filha única e jovem herdeira de uma certa aristocracia feudal, incentivada pela mãe a estudar e a conhecer o mundo. Através desta personagem e das suas vivências, a autora expõe as convenções sociais, nomeadamente relativas ao papel da mulher e do que é, afinal, o amor."
Natália Correia foi uma rebelde e procurou as liberdades públicas e privadas durante toda a vida e essa busca está presente neste romance. Branca cresceu no seio de uma família conservadora numa aldeia no interior de Portugal e quando o pai morre na cama de uma prostituta, a mãe envia-a para estudar em Paris porque não quer que a filha fique "presa" a uma vida doméstica. Encontramos sempre alguma insatisfação nesta mulher, uma procura constante por um lugar, por uma identidade. Nem sempre sabe o que está a acontecer ou a sentir, mas não se coíbe de procurar e experienciar. Natália fala-nos de amor, ciúme, liberdade pessoal, identidade e convenções sociais. Existem pedaços da história que vão buscar algum surrealismo e que são deliciosos.
A história aparece-nos em fragmentos, com sobreposições temporais que nem sempre ajudam ao entendimento do enredo. Dei comigo, muitas vezes, a voltar atrás e a questionar-me sobre quem era quem. A escrita é extremamente bonita, com uma linguagem rica e poética, onde o despudor está muito presente, o que não era habitual no mundo editorial português dos anos sessenta.
Tão bom! Como é possível que este livro tenha sido escrito em 1968? Tive que me lembrar dessa data a mim própria várias vezes porque dava por mim a imaginar esta trama na atualidade. A escrita é absolutamente sublime! Adorei! Não é dos livros mais fáceis de ler. Tem muitos saltos temporais, nem sempre explícitos, o que fez com que tivesse de voltar a trás várias vezes. Mas o resultado final é excelente! É narrado pela sua protagonista, Branca, uma herdeira de uma propriedade rural que após a morte do pai é "empurrada" pela sua mãe a ir estudar para Paris. As suas vivências, os seus amores e as suas experiências são narradas de forma apaixonante. Prende até ao fim! E deve ter sido uma grande pedrada no charco na altura em que foi publicado. Muito atual ainda hoje!
"Felizmente o teu pai deixou-nos bastante dinheiro. As mulheres precisam de dinheiro para serem pessoas, mais que simples mulheres. Acima de tudo estimo que sejas uma pessoa."
"São uns porcos. Essa história das mulheres honestas foram eles que a inventaram porque é cómodo ter em casa uma mulher de quem não se goste. De quem eles gostam é das outras, das leviana, e tu hás-de ser leviana porque antes isso do que ser uma mulher de quem não se gosta. "
Adorei. No início um pouco confuso pois salta no tempo tanto pra trás como pra frente, sinto que me deixou mais com mais vontade de o ler para perceber. Bastante atual apesar de ter sido publicado há 57 anos, baseia-se na perspectiva da personagem principal, Branca, e nas suas relações amorosas com homens, trata temas como o papel da mulher e do homem na relação de um ponto de vista feminista, tendo uma escrita super descritiva e até poética, mesmo sendo uma prosa, sendo escrito durante o Estado Novo, demarca se pela inovação e narrativa feminina, recomendo bastante.
Foi extremamente interessante ver em um livro de 1968 uma escrita tão bem construída, com temas tão universais, mas ao mesmo tempo novos para época. Ter a oportunidade de ter contato com esse livro foi um grande ganho na minha vida. Indicar não parece a melhor coisa para esse livro, queria era poder obrigar todos a lerem! Fiquei sem palavras por diversas vezes, tem um plot twist melhor que o outro te deixando sem ar, literalmente. Leitura OBRIGATÓRIA!
Vem comigo! É obsceno contrariar a direcção do sangue.
Não posso amar o que me é inferior. Isso condenar-me-ia à solidão da superioridade.
Via estas imagens como bocados de um espelho partido que em cada fragmento me reflectia.
Mas tudo o que eu via era uma Françoise pateticamente solitária, esgravatando um sentido útil para o seu drama.
Estas tiradas, ingenuamente sinistras, declamadas junto do caixão, as quatro tábuas mal aparelhadas dentro das quais a tua carne de instante a instante afrouxa como um balão que se esvazia (...)
Nós, os que não temos uma religião, criamos a necessidade de nos atormentarmos - disse. - Não sei que raio de deus perseguimos com essas penas que infligimos a nós próprios.
Sinto que algo de mim se misturou nas orgias sangrentas da noite remota que escorria nos cílios da Grande Mãe. Mulheres que numa agitação convulsiva, corriam pela floresta perseguindo a túnica esvoaçante da deusa, com corços mosqueados nas nucas, crias de lobos nos braços, serpentes cingindo-lhes a cintura, os cabelos em desordem, coroados de hera e salsaparrilha em flor, fazendo as montanhas, os rios e as feras participar do seu transe, uma tempestade com unhas, dilacerando efebos para com a sua gordura alumiar as lâmpadas do altar da deusa.
Eu subia uma escada cujos degraus eram feitos de crocodilos. Sentia sob os pés nus a viscosa carapaça dos répteis e isso correspondia a um esforço sobre-humano para atingir um ponto.
Via-se na tua expressão que estas palavras, nas quais eu procurava ser o mais primariamente verdadeira, não atravessavam a membrana espessa da tua compreensão, concentrada na expectativa de um sim ou de um não, a única linguagem que os teus sentimentos entendiam.
«— Vem comigo! — decidiu numa voz abafada. — É obsceno contrariar a direção do sangue.»
«Como se a verdade fosse não dizer mentiras!»
«— Não és uma verdadeira mulher. Se o fosses saberias que és mais velha que o homem.»
«— A tua limitação é pensar que só existe uma forma de amor. É por isso que nunca amarás verdadeiramente. Eu acredito numa coisa melhor. Que os homens precisam de nós e que cada vez que nos estreitam é para esmagar uma dor.»
Para mim seria um 3,5. No entanto, e apesar da leitura não ser a mais fácil, se não nos esquecermos que o livro foi escrito por uma mulher, em 1968, em plena ditadura, então a classificação terá de ser 5 estrelas.
Natália Correia foi uma grande mulher. Mas ‘A Madona’ não é, na minha opinião, um grande romance. A linguagem é demasiado carregada, cabendo ao leitor esse esforço desmedido de a transportar ao longo de todo o livro, sem uma aerodinâmica que favoreça a levitação. O defeito não advém, como é óbvio, do uso de um estilo poético por si só. Há inúmeros exemplos de poetas que conseguem usar, em prosa, uma linguagem poética de forma mais singela e parcimoniosa – mas Natália é, talvez por natureza, excessiva; outros há (raros, é certo) que conseguem sustentar esse excesso verbal, por uma qualquer combinação alquímica de ritmo e furor. A narrativa segue também um caminho tortuoso, sem que daí resulte nenhum prémio para o leitor, apenas dificuldade. Não quero com isto dizer que os livros tenham de ser fáceis. Mas a dificuldade deve ter uma razão e um prémio. Senão é mera coqueteria intelectual.
Em termos históricos é compreensível a importância deste livro. Em 1968, Portugal, uma voz feminina que se articulasse nestes moldes, não poderia deixar de agitar águas estagnadas ou arejar o mofo de sacristia. A forma como fala do sexo e do desejo como aspetos matriciais da experiência humana é ainda extremamente atual. A este respeito vivemos ainda de forma paradoxal, numa sociedade em que a ideia de sexo é pervasiva, mas não declarada, obsessiva, mas pouco consequente. Uma sociedade cada vez mais atomizada, em que tudo é uma excrescência dessa falta de consequência: talvez nunca se tenha falado tanto e feito tão pouco. A moral católica continua a exercer uma força espectral: o sexo e o desejo não são assim tão importantes. Como a água, que encontra sempre o seu caminho, também a energia sexual é impossível de conter; e as ditas excrescências dessa contenção tomam formas perfeitamente pavorosas e inesperadas, procurando uma libertação por outros meios. É por essas e por outras que as paixões simples não têm nada de banal.
Eu não sei explicar o quão simultaneamente homoerótico e homofóbico este livro é e sinceramente nunca cheguei a perceber se é sequer algum dos dois mas adiante. Completamente louco, bizarro, macabro.
Conhecemos a Natália Correia como sendo uma mulher intelectual de personalidade exuberante e excessiva que se debatia convicta e vigorosamente na bancada parlamentar. Sabemos também que teve um papel activo de confronto com o Estado Novo e que viu muitas das suas obras censuradas. Conhecemos alguma da sua poesia, e ouvimos falar das suas famosas tertúlias, que resultavam a maioria das vezes em vigorosas discussões, promovidas em sua casa ou no Botequim, à Graça. E da sua prosa? O que conhecemos?
Confesso que 𝑨 𝑴𝒂𝒅𝒐𝒏𝒂, editado em 1968, foi o primeiro romance que li dela. E li-o agora porque a biografia 𝑶 𝑫𝒆𝒗𝒆𝒓 𝒅𝒆 𝑫𝒆𝒔𝒍𝒖𝒎𝒃𝒓𝒂𝒓, de Filipa Martins, me deslumbrou e convenceu. Em boa hora o fiz. Não foi uma leitura fácil, e esta narrativa não linear, centrada nas memórias e num percurso espiritual da protagonista, complica a compreensão inicial do enredo, mas a sua escrita, num estilo grandiloquente e erudito, é muito poética e irónica. O que me apraz sobremaneira.
Neste romance, Natália Correia conta-nos a história de Branca, filha única e rica, que é incentivada pela mãe, após uma tragédia familiar, a estudar no estrangeiro. Branca instala-se inicialmente em Paris. Aí é confrontada com uma mentalidade intelectual e moralmente comprometida. Vive excessos. Procura acompanhar as diversas manifestações de feminilidade. Abandona-se a paixões. Conhece pessoas inquietas e perturbadas. Conhece mulheres que vivem o amor livremente. Ilude-se com as suas emoções. É Infeliz. Duvida de si, da sua beleza, da sua capacidade de amar. Facilmente compra um “bilhete para a solidão.” Regressa à aldeia em busca de soluções.
Numa sociedade patriarcal, onde os desejos e as práticas sexuais livres eram censurados pela moral vigente salazarista, Natália Correia retira Branca da sua aldeia provinciana e preconceituosa, dominada pelos homens e onde as mulheres levam uma vida de submissão, e coloca-a primeiro a viver em Paris, e mais tarde a viajar pela Europa, para lhe dar a conhecer novas formas de viver e de pensar. “Estúpida civilização que não percebe que definha porque atrofiou o sentimento.” (p. 165)
Natália Correia põe assim em destaque a mulher em busca da liberdade sexual, em busca de uma liberdade interior. Afinal o que está em causa é sobretudo o respeito pela mulher, pelas suas escolhas, pela sua liberdade.
Publicado em 1968, A Madona é um romance da escritora açoriana Natália Correia. O tempo da narrativa apresenta-se cindido, dependendo dos espaços da acção, ora uma aldeia arcaica de Portugal, Briandos, onde o tempo pertencia, na verdade, a uma era já desaparecida da Europa, ora Paris, e também Londres, o apogeu da contemporaneidade. A obra é cruzada por diversas tensões que lhe conferem densidade e permitem diversas dialécticas que compõem a sua complexa dimensão semântica. A primeira tensão é entre o arcaico e o contemporâneo, onde se inscreve a oposição entre um Portugal rural e o mundo cosmopolita representado pelas grandes capitais europeias. Uma segunda tensão é a que opõe senhores e servos. A terceira liga-se à dialéctica entre norma e desvio. A quarta tem o seu núcleo dinâmico na relação entre o feminino e o masculino. Todas estas tensões têm como pano de fundo um mundo em escombros. Os escombros das relações quase feudais ainda existentes em Portugal e os escombros de uma certa ordem burguesa e puritana que se desenhava na Europa...
“Eu não vou ser assim - dizia-me (…) - eu não vou ficar como elas, amarelecida numa fotografia de piquenique, antepassada de mim mesma. Eu não vou ficar estupidamente feliz num retrato de casamento, um único momento de glória, ao lado de um homem que não conheço, que nunca conhecerei mas que me vai fazer muitos filhos e mandar-me calar quando eu disser asneiras. Eu vou ter as ancas magnéticas, os seios livres, (…) transmitindo o chamamento da minha sede de ser amada e amar na vertigem de ser amada.” - p.41
Esta foi, para mim, uma leitura muito desafiante, na qual senti a forma apaixonada com que Natália Correia defendia as suas convicções e a sua verdade, onde se percebe não só a defesa do feminismo mas também a sua própria feminilidade. Vezes houve em que me senti incapaz de acompanhar a sua genialidade, para logo de seguida compreender a incompreensão do génio. Através da história de Branca, Natália Correia "dança" entre as várias dimensões do mundo, da vida, revelando a sua inquietude de espírito e desconstruindo, não só padrões como o próprio leitor.
qualquer defeito que encontremos neste livro é mera ignorância do leitor. tenho a certeza que se fosse intelectualmente do patamar da Natália Correia iria gostar muito mais deste livro. no entanto, como não o sou senti dificuldades na linguagem utilizada e em acompanhar alguns raciocínios sendo este livro de difícil leitura. mesmo assim, acabei por me habituar ao tipo de escrita da autora e no fim gostei de ler esta obra
O livro foi uma autêntica montanha russa para mim. Houve partes que eu adorei e outras que detestei (menos frequentes) A escrita da autora é espetacular. Ótimo livro
História contada por Branca, última descendente de uma nobre família, da sua emancipação nomeadamente sexual, e os dramas dos seus amantes: o sofisticado Miguel, e o brutamontes manuel, sendo que este caba por se suicidar. História passa-se em Briandos a terra onde está o solar de família, mas também frança. anos 60 - tempo de emancipação. também a estranha personagem, o anjo, um dinamarquês, que parece muito ingénuo e depois se revela cheio de vício.