A novela camiliana continua a encantar-nos, restituindo-nos um mundo de inocência mas também de violência e dureza nos inícios do século XIX. Centrando-nos em "Maria Moisés", "O degredado" e "A viúva do enforcado", o que nos surpreende sempre, apesar das sucessivas leituras, é a grande capacidade de Camilo, que é ao mesmo tempo conhecimento profundo do seu Minho e do seu Portugal e engenho linguístico e riqueza de vocabulário. As guerras entre miguelistas e liberais, as invasões francesas com o exílio do rei no Brasil, as deportações dos condenados para África, a reduzida mobilidade social, o forte controlo das famílias sobre os filhos e nomeadamente as filhas, tudo isto constitui o pano de fundo destas histórias. E depois, em todas estas novelas, Camilo mostra um olhar sobre a mulher que não se distingue do que era a tónica da ideologia dominante: submissão ao homem, preconceito sobre os seus comportamentos, controlo da Igreja, desconfiança da relação com classes diferentes, penalização das relações fora do casamento, consciência de um papel da mulher muito reduzido na sociedade.