LUÍSA BELTRÃO nasceu a 13 de Junho de 1943, em Lisboa. Romancista e professora no ensino secundário, é formada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Dedica-se activamente ao apoio de pessoas com deficiências profundas, tendo sido nomeada directora executiva da Associação Nacional de Famílias para a Integração da Pessoa Deficiente (AFID) em 1990, cargo que exerceu até 1992. Com participação regular em conferências e congressos internacionais sobre reabilitação, é a representante portuguesa na Comissão de Trabalho para a Uniformização das Condições e Estruturas de Apoio às Pessoas com Deficiência do Conselho da Europa em Estrasburgo.
Professora efectiva na Escola Secundária Fernando Lopes-Graça, na Parede, estreou-se nas letras em 1994 com a publicação do romance Os Pioneiros, primeiro volume da tetralogia «Uma História Privada». O livro mereceu de imediato o aplauso da crítica, tendo sido galardoado com o Prémio Revelação Máxima. Os restantes volumes, Os Impetuosos, Os Bem-Aventurados e Os Mal Amados, foram publicados, respectivamente, em 1994, 1995 e 1997. Todos Vulneráveis mostra-nos uma escritora preocupada com os mecanismos de desestruturação da personalidade, a que não será alheio o seu interesse pela formação Grupanalítica.
Em Setembro de 2000, publicou o livro de ensaio O Desafio da Cidadania na Escola, em co-autoria com Helena Nascimento, o qual suscitou uma reflexão e um debate incontornáveis: começarão os problemas de ensino por ser um problema de cidadania participativa? Em entrevista ao jornal Público (23.09.2001) Luísa Beltrão, a propósito do tema do referido ensaio, afirma sem rebuço: «Os professores não ensinam programas, muitos nem os leram, nem se preocupam se os conteúdos servem para o desenvolvimento cognitivo dos alunos. Ensinam manuais. E os alunos decoram.»
O seu último romance, Uma Pedra no Sapato, foi o vencedor da 13ª. edição do Prémio Máxima de Literatura, em 2005.
Cheguei ao fim desta tetralogia, com o subtítulo "Uma história privada". A curiosidade de conhecer o destino daquelas personagens, cujos antepassados e história conhecemos nos volumes anteriores, suplantou a impaciência com que fui lendo as últimas páginas, em particular alguns diálogos. Se os anteriores volumes, em particular os dois primeiros, Os Pioneiros, Os Impetuosos, tinham a graça de entrecruzar a história pública e privada, sem suscitar outras reações que não fossem o interesse e a curiosidade, devido à distância temporal, enquanto lia o terceiro, Os Bem-Aventurados, fui sentindo que se tratava de uma leitura muito pessoal da autora, Maria Luísa Beltrão, que não se preocupou nunca em rodar a objetiva com que ia escrevendo, e ver as coisas com os olhos dos outros. Acresce que a proximidade com os factos aqui narrados impede também a isenção do leitor que os viveu. E este desconforto aumentou neste último volume, cujo título, Os Mal-Amados, já indiciava esta perspetiva monolítica da sociedade portuguesa nos primeiros anos depois do 25 de abril. Curiosamente, a família não foi molestada, nem foi sequer mal-amada em consequência da revolução, pelo que me surpreendi com o título que, ao contrário dos anteriores, não me pareceu adequado. O propósito da autora, Luísa Beltrão, foi o de contar a história de uma família portuguesa, a partir do século XIX, e fá-lo com imensa desenvoltura, mas quando carrega para a história a vida política, social e económica do país, deveria ter tido um olhar mais abrangente ou pelo menos não tão conservador. Como escreveu Luíz Pacheco, depois de ler os dois primeiros volumes de que gostou: “(…) o fundo histórico é-nos transmitido com laivos de evidente conservadorismo. E receio que à medida que esta crónica privada se aproxima do nosso contemporâneo, tal tendência se não acentue. Prevejo isso mesmo quase inevitável e não apenas nas recordações da macróbia Tia Graça que saltou o choque das gerações, numa força feita de memórias e uma dignidade fruto da resistência à morte. Ser também assim, quem dera!” Esta perspetiva conservadora sobre os momentos vividos e as personagens que na vida política tinham peso e notoriedade, segue em paralelo com a apreensão que a geração mais velha sente com a perda de valores e da capacidade de traçar ou guiar os destinos dos filhos, terminando por acontecer na geração mais jovem uma morte por overdose e uma tentativa de suicídio e, na geração precedente, alguns afastamentos familiares e divórcios. Curiosamente, um neto, que cresceu afastado da família e cuja mãe se divorcia e casa pela segunda vez, aproxima-se depois da família e é um jovem exemplar, levando a avó a questionar as suas convicções. Nas gerações anteriores já tinha havido algumas personagens, sobretudo masculinas, falhadas, vivendo isoladas, sem trabalhar, mas estas vivências eram feitas na intimidade das famílias e das casas, não gerando qualquer sobressalto ou inquietação de maior. N’ Os Mal-Amados assistimos à entrada das mulheres da família no mercado de trabalho, por necessidade ou vontade apenas, e já não apenas em situações excecionais como acontecera nas gerações precedentes, e às consequências desse facto, como a liberdade e independência que passam a usufruir, alterando em muitos casos a relação com o marido e com os filhos. Apesar da perspetiva conservadora, é uma história familiar que nos faz percorrer os dois últimos séculos portugueses, com alguma leveza e em que aqui e ali, nos vamos lembrando de partes da nossa história ou, mais recentemente, de certas vivências, e até de personagens que nos aparecem perfeitamente delineadas. Os Mal-Amados acaba de forma curiosa. Não terá sido fácil pôr um ponto final na história e por isso, por ocasião da celebração dos 100 ano da Tia Elisinha, todos os familiares desaparecem e explicam-lhe que nunca existiram porque eram personagens de romance e que ela é a Tia Graça. O epilogo é dedicado à Tia Graça que morreu um ano depois e que ainda teve tempo de escrever uma carta a Luíz Pacheco comprovando a sua existência porque ele – na crónica acima referida -, a tinha apelidado de macróbia.
Os membros da família, que entretanto crescera, atravessam agora as convulsões do 25 de Abril. Subitamente o mundo que conheciam desapareceu e um novo mundo surgiu, gerando em cada um deles uma mistura de sentimentos: excesso, ausência, desencontro, mágoa, com os quais tiveram de apreender a lidar. “Os filhos da revolução”, como a autora, lhes chama viram cortadas as pontes que conheciam e tiveram, cada um à sua maneira, de construir novas pontes para continuar a viver. É uma história forte e empolgante que prende o autor desde a primeira página.