Livro denso. Por se tratar de história muitas passagens tiveram de ser breves ao ponto de dificultar a compreensão de alguns fatos para o leitor razoavelmente leigo em história internacional (meu caso).O autor se preocupa bastante com a busca por um sistema de governo representativo.
Narra fatos que podem ter influenciado o despertar liberal (também no sentido social) no Brasil, como a revolução americana e a francesa. É acentuada também a influência do Marquês de Pombal, com seus ensinamentos passados pela Universidade de Coimbra, no pensamento brasileiro posterior.
Passa pelas figuras de Hipólito da Costa, do Correio Braziliense, Silvestre Pinheiro Ferreira e Visconde do Uruguai, relevantes na defesa de um "governo representativo", típico da ilusão democrática.
Percorrendo um pouco mais a cronologia e adentrando no Brasil pós independência, interessante as reformas mais liberalizantes propostas pela Câmara desde 1831, e infelizmente não resultou na independência das províncias, com o fracasso do Ato Adicional. Narra conflitos políticos da época, após a abdicação de Dom Pedro I, acerca do sistema político pretendido pelas partes. Fala sobre o Poder Moderador, que abria brechas para dissolver e controlar os outros poderes.
Interessante o breve comentário à postura de Melo Freire indicando a absurdidade do "contrário social". Paim exalta o segundo reinado como época de grande estabilidade política e liberdades, perdidas com a entrada da República.
No próximo capítulo foca-se em Rui Barbosa e seu empenho e experiência como jurista para lutar por reformas liberalizantes, ainda que em diversos pontos sejam ainda piores, como concentração da magistratura, com irredutibilidade de vencimentos e vitaliciedade. Outro ponto negativo é prezar para que não haja "guerra fiscal" entre os estados, de forma a não gerar "desigualdades", além de ser ferrenho defensor dos "direitos trabalhistas".
João Arruda melhora um pouco o panorama mas ainda professa um Estado-Providência para os mais necessitados, querendo também reduzir as desigualdades sociais, ao passo que pensa que o interesse social sempre é o interesse individual, em condições normais. Já sob o Estado Novo, Paim louva Armando de Sales Oliveira como grande liberal, mostrando nos seus discursos o amor pela democracia e ressalta, para ele, a importância de partidos políticos (como se fosse o ápice da representatividade). Milton Campos também faz uma análise desastrosa do liberalismo, para ele supostamente o liberalismo se perdeu por falta de ordem regulamentar e interesses egoísticos.
Adentrando para o movimento de 64, busca-se aparentemente corretamente enquadrar esse momento como autoritarismo instrumental, resgatando-se discurso de 1920 onde Oliveira Vianna dizia que para a sociedade se tornar liberal era necessário primeiro mudanças autoritárias para chegar ao liberalismo, algo talvez as avessas de Marx com capitalismo-socialismo. Concordo no ponto que Vianna diz que não há estado liberal sem sociedade liberal, visto que caso as pessoas não sejam liberais haverá clamor para a volta do estatismo.
Pós 1985 analisa-se a constituição de 88. Delongas à respeito de qual é o melhor sistema eleitoral, distrital, lista fechada, etc. O que ao meu ver é uma discussão sem fim, baseada em um sistema antiético que não terá solução que seja legitimamente representativa, como Paim deseja. Paim também diz que o PSDB promoveu uma "distribuição de renda bastante justa". Como uma distribuição forçada de renda pode ser justa é fora da minha alçada lógica.
Ao comentar obras ao longo do tempo publicadas pelo Instituto Liberal e outras que mereciam uma tradução. Ele diz que a visão austríaca a respeito do liberalismo face ao estado de bem-estar social não parece ser a mais feliz. Ora, provavelmente o autor não leu as obras que ele mesmo citou relativas à Escola Austríaca ou chegou a alguma conclusão que desafia a lógica aprioristica e que não está em livros.
Paim saúda José Guilherme Merquior em suas análises da função do estado como coisa positiva para remover obstáculos aos autodesenvolvimento humano, citando Thomas Hill Green. Segue para Migue Reale e sua distinção entre Social-Democracia (de cunho mais estatista) e Democracia Social (que supostamente preza pela liberdade individual, aqui certamente problemas insolúveis sobre "justiça social" entrariam em cena de qualquer maneira). Gostei dos breves comentários de Alberto Oliva, acerca da dispersão do conhecimento na sociedade, uma postura mais hayekiana, confluindo para ideias negativas de liberdade, justiça e estado, também tem boa conclusão de que há algo como uma hipóstase quando os sociólogos se referem ao o holismo.
Lamentável as palavras de Roberto Campos: "Keynes racionalizou a intervenção governamental para manipular a demanda agregada, com vistas a curar recessões e garantir o nível de emprego". Basta olhar o histórico de keynesianismo e o que temos hoje. Paim ainda critica a Escola Austríaca por só se preocupar com atividades econômicas, talvez fosse aqui interessante Paim ter lido um pouco mais de Rothbard, Hoppe, etc. Austríacos, mas com tratados sobre ética e praxeologia.
Finaliza com um apanhado contemporâneo de alguns liberais mais conhecidos, como Bruno Garschagen e Marcel Van Hattem e obras sugeridas. É um valioso livro, vale a pena a leitura.
Livro muito bem escrito. De maneira didática, mas sem perder a profundidade, o autor traça um panorama intelectual das ideias liberais no Brasil. Gostei especialmente dos capítulos sobre o período Imperial.
Paim faz um percurso histórico da tradição liberal no Brasil. É um livro fundamental e essencial para entender o pensamento liberal dentro de um país que tem um Estado gigantesco. Muito bem escrito e bastante esclarecedor.