Em uma grande brincadeira com a linguagem e a língua portuguesa, os leitores vão conhecer alguns dos poemas inventivos que Manoel de Barros fez para o público infantil, em uma edição com ilustrações inéditas. Neste livro, os leitores vão conhecer um menino curioso, conhecedor da língua das crianças e das aves. E também vão conhecer a Lógica da Razão, uma dona nem um pouco bem-humorada que acha que Língua de brincar e Língua de Faz-de-Conta não passam de bobagens de criança. Será que o garoto vai conseguir fazer a Lógica da Razão entender toda a importância da Língua de brincar ? e da poesia? “Idioma infantil é só de olhar, de pegar, de ver, de cheirar e de comer. As palavras não saberiam informar. Não saberiam nem o nome das letras que carregam. As palavras não saberiam se têm sílabas; nem saberiam que têm vogais. E que as vogais nas sílabas servem para produzir encantamento. Dialeto infantil era brinquedo com palavras para não dizer nada ? como um canto.” ? Manoel de Barros em seu caderninho de rascunhos do livro Poeminha em língua de brincar. Capa 40 páginasCompanhia das Letrinhas; Ediçã 1 (20 de maio de 2019)Português8574068535978-8574068534Dimensões do 30 x 16,8 x 0,6 cmPeso de 399 g
Manoel Wenceslau Leite de Barros is a Brazilian poet. He has won many awards for his work, including twice the Prêmio Jabuti, the most important literary award in Brazil. Today he is renowned by his critics as one of the great names of contemporary Brazilian poetry, and by many authors he has been considered the greatest living poet from Brazil, like the poet Carlos Drummond de Andrade recognized Manoel de Barros as the biggest poet of Brazil.
Ele tinha no rosto um sonho de ave extraviada. Falava em língua de ave e de criança.
Sentia mais prazer de brincar com as palavras do que de pensar com elas. Dispensava pensar.
Quando ia em progresso para árvore queria florear.
Gostava mais de fazer floreios com as palavras do que de fazer ideias com elas.
Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria de rir.
Contou para a turma da roda que certa rã saltara sobre uma frase dele E que a frase nem arriou.
Decerto não arriou porque tinha nenhuma palavra podre nela.
Nisso que o menino contava a estória da rã na frase Entrou uma Dona de nome Lógica da Razão. A Dona usava bengala e salto alto.
De ouvir o conto da rã na frase a Dona falou: Isso é Língua de brincar e é idiotice de criança Pois frases são letras sonhadas, não têm peso, nem consistência de corda para aguentar uma rã em cima dela
Isso é língua de raiz continuou É língua de Faz-de-conta É língua de brincar!
Mas o garoto que tinha no rosto um sonho de ave extraviada Também tinha por sestro jogar pedrinhas no bom senso.
E jogava pedrinhas: Disse que ainda hoje vira a nossa Tarde sentada sobre uma lata ao modo que um bentevi sentado na telha.
Logo entrou a Dona Lógica da Razão e bosteou: Mas lata não aguenta uma Tarde em cima dela, e ademais a lata não tem espaço para caber uma Tarde nela! Isso é língua de brincar É coisa-nada.
O menino sentenciou: Se o Nada desaparecer a poesia acaba.
E se internou na própria casca ao jeito que o jabuti se interna.