Ok isto vai ser um bocado longo, por isso não terem paciência é uma posição bastante válida. No fundo, isto é só uma forma de eu refletir sobre estes três livros.
Em primeiro lugar, a história é totalmente cativante. Os sítios, as personagens, os acontecimentos, tudo dá vontade de ler mais e mais.
A mim interessou-me muitíssimo, acima de todas as outras personagens, o Carlos. o Carlos é um homem que pensa muito sobre as coisas, pensa a toda a hora, disseca a realidade com o cérebro, e é verdadeiramente cativante e interessante ver como ele se deixa quase que de parte dos acontecimentos, de fora, apenas a espectar. Ele tem um prazer imenso em apenas estudar os acontecimentos, as atitudes e ações das pessoas, e a partir dai compreende-las e perceber como elas se sentem (achei isto mesmo interessante porque também gosto de fazer isso). contudo, o Carlos tem dois problemas (problemas no sentido da própria personagem na história, e não erros do autor, antes pelo contrário): primeiro, ele é algo parecido a Fernando Pessoa, na medida em que também ele pensa muito sobre as coisas, tritura a realidade com o cérebro, e acaba por se perder no meio do seu pensamento. isto leva a que o Carlos consiga sentir muito pouco ao longo da história. Sempre que sente alguma coisa, isso tem de ser mediado pela razão, tem de ser pensado, tem de ser analisado, e de tão dissecado que é, acaba por se perder. por isso é que poucas vezes sabemos qual é exatamente o seu estado de espírito e o que sente em relação ao que o rodeia, e por isso é que só ao fim de 1400 paginas é que ele finalmente vai viver com ela, e mesmo assim, ainda que seja bastante percetível, em nenhum momento ele lhe diz que gosta dela, nem o narrador nos diz que o Carlos está apaixonado. quase que é impossível para o Carlos estar apaixonado, porque para isso seria preciso que ele se deixa-se reger por uma emoção e não pela razão, algo que ele não consegue nem sabe fazer.
segundo problema: o facto de ele pensar tanto sobre as coisas, de querer tanto perceber tudo, e de, consequentemente, se perder no pensamento, acaba por fazer com que este não parta para a ação, nem o deseje fazer. O Carlos tem o destino de Pueblanueva nas mãos várias vezes, e poderia de facto ter mudado as coisas, mas não o faz. Algumas coisas são feitas por ele ao longo do livro, mas apenas para ajudar alguém específico de quem ele gosta mais. Ele nunca tenta verdadeiramente lutar contra o poder do Cayetano, algo que podia perfeitamente ter feito, e com sucesso (tanto que no fim a cidade fica na mesma).
Outra coisa que me interessou muito foi a forma como o autor abordou a religião, no caso a cristianismo. há muito que se pode dizer sobre isso, mas em específico achei bastante interessante a forma como uma das personagens, D. Baldomero, olha para um quadro de cristo pintado por um frade. este afirma que o Cristo nele pintado fala como ele e acusa-o dos seus pecados (ele literalmente ardeu com a igreja toda porque não aguentava mais aquilo). pareceu-me mesmo estranho isto, ao início, mas depois fez me todo o sentido. aquilo que o autor nos pretende mostrar, é que ao olhar para Jesus crucificado, podemos sentir-nos acusados, por que de facto ele está ali apenas por nossa culpa. Aquilo que D. Baldomero sente é que Jesus lhe aponta o dedo, como se lhe dissesse: "vês? tu fazes a asneira toda, e quem paga sou eu. Eu, que nunca fiz nada mal, que sou perfeito, entrego-me e sofro isto tudo por causa dos teus pecados. A culpa disto é tua". jesus não diz nada, obviamente, porque é um quadro, mas ao ver aquela imagem, D. Baldomero é de tal forma impactado por esta realização de que Jesus se entrega e sofre por causa da sua baixeza, que até pensa que consegue ouvir Jesus a acusá-lo. Que forma diferente do normal, mas simplesmente impressionante, de olhar olhar para Jesus na cruz. É por estas e por outras que eu adorei estes três livros. ´
No geral, é um livro que nos ensina como é que são as pessoas, como é que elas funcionam, e, honestamente, só isso quase que já é suficiente para criar uma masterpiece.
OK POR FIM FRASES FAVORITAS:
-"Não sei se alguma vez sentiste a dor de gostares apaixonadamente de alguém que já não respeitas" pg 53
-"[cristo] Olha para mim, D. Carlos! Olha para mim e acusa-me! chamou-me assassino!" pg 138
-"Como poderíamos nós viver se tivéssemos em conta essas coisas, essas e outras? "Aquele que Me seguir não caminhará nas trevas"... Mas quem poderá segui-Lo? Essa é que é a questão" pg 139
- "sentia o coração desfalecido, mas em paz" pg 213
- "porque, na verdade, que faço eu senão destruir-me, dia após dia? Tu sais de ti próprio, encontras mentiras que te satisfazem, entregas-te a elas e destróis-te ignorando o que fazes. porque, se não o ignorasses, não sentirias desejos de te destruir ao veres-te perante a tua própria verdade". pg 75
Só bangers, como podem ver. se alguém chegou até aqui, recomendo a 100%.