Esta é a história de duas mulheres de diferentes gerações que fizeram parte da vida da autora. A primeira, a sua avó, foi adolescente nos «loucos anos 20»; a segunda, a sua mãe, viveu sob o salazarismo. Maria Filomena Mónica, que atravessou as mudanças de Abril de 1974, avalia essas duas mulheres através de recordações, cartas, diários, fotografias e outros documentos.
MARIA FILOMENA MÓNICA nasceu em Lisboa, a 30 de Janeiro de 1943. Licenciou-se em Filosofia na Universidade de Lisboa, em 1969, e doutorou-se em Sociologia na Universidade de Oxford, em 1978. Colabora regularmente na imprensa. Entre outros livros publicados, é autora de «Eça de Queirós» (Quetzal, 2001), «Bilhete de Identidade» (Alêtheia, 2005) e «Cesário Verde» (Alêtheia, 2007). É investigadora-coordenadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
O mundo divide-se entre as tiazocas de quem gosto e aquelas que abomino. Maria Filomena Mónica encontra-se na primeira categoria, bastante restrita, diga-se. Apesar do berço que deixa frequentemente transparecer, aprecio a frontalidade e da audácia dela desde que li “A Morte” sobre a defesa da eutanásia, a propósito dos últimos tempos de vida da mãe.
Quando a minha mãe adoeceu, aos 75 anos, dei-me conta de que a minha relação com ela ficara incompleta. Dizem-me que isto ataca sobretudo os primogénitos, como é o meu caso. Não sei se é verdade. O que sei é ter sido no momento em que lhe foi diagnosticada a doença de Alzheimer que decidi espreitar a sua vida. Esperava, suponho, que depois de me falar da sua infância, me aceitasse tal como sou. Mas era tarde demais.
Aqui, através da correspondência entre Maria Filomena, a sua avó Maria e a sua mãe Margarida, ficamos a conhecer não só a vida da autora desde que nasceu, como também grande parte do percurso dessas “Duas Mulheres” do título.
Ainda pensei resumir as cartas destas mulheres, mas cheguei à conclusão de que era mais interessante dar-lhes o palco, isto é, permitir que os leitores pudessem ter acesso directo à sua “voz”. Num país machista, as mulheres foram sempre tratadas como gente sem importância, uma atitude que pretendia destruir.
Ouvi recentemente um podcast de um jornal em que Maria Filomena, a combater há alguns anos um cancro, contou como o isolamento causado pela pandemia a instigou a escrever muito e também a organizar correspondência e documentos herdados. Foi ao ler alguma dessa papelada e o diário da mãe que descobriu um segredo de família de que nunca suspeitou.
Fiquei a meditar sobre que segredos os nossos pais nunca nos comunicaram, mas sabia que para isto não havia solução. Deles só sabemos o que nos mostram e aquilo que – no meu caso – consegui ver nos papéis que, sobretudo a minha mãe, deixou depois de morrer.
Não irei aqui desvendar qual é porque o interesse desta leitura é acompanhar o trabalho de detective da autora, e mesmo que algum leitor ache que, afinal, é um rato que pariu uma montanha, o acesso às cartas trocadas entre avó, mãe e neta traça um valioso retrato social ao longo de um século. Deixo, por conseguinte, apenas alguns apontamentos que julgo merecerem realce. O primeiro é que o conceito de família não tradicional talvez não seja tão moderno como achamos, organizando-se há muito as pessoas de forma menos habitual consoante as circunstâncias e a mentalidade que as move. Maria Filomena entendia-se melhor com a avó do que com a mãe, o que só pode espantar quem não é progenitor e não sabe que faz parte da lei da vida os filhos demarcarem-se da geração anterior para criarem a sua própria identidade, mas esta senhora era uma verdadeira força da natureza com quem a neta sentia grande afinidade. Tal como Agustina Bessa-Luís, já depois do nascimento de Mena, nos anos 40, também a avó Maria pusera um anúncio no jornal em busca da sua alma gémea. Já com a mãe, a autora teve uma convivência mais conflituosa e fria por terem ideais e personalidades contrastantes, não sendo a comunicação fácil entre ambas. É a reflexão que faz sobre a relação distante das duas que mais me impactou neste livro que, afinal, é sobre três mulheres, sendo as mais velhas as que gravitam em torno do eixo que é Maria Filomena Mónica, a grande protagonista destas memórias.
Compreendi que a ascensão social a que eu fora sujeita – e que mais tarde me permitiria olhar para os ricos com altivez – talvez não tivesse sido possível, caso tivesse sabido de onde provinha. Ou, se o tivesse sabido, ter-me-ia custado mais. Mas senti uma pena imensa de não ter podido conversar com ela sobre a sua infância. Esperava que, ao falar-me do seu passado, me pudesse ter aceitado tal como sou. Que eu lhe tivesse conseguido explicar que, por mais que me esforçasse, nunca teria conseguido ser a fada do lar, a mãe clássica e a católica fervorosa que ela sonhara. Tendo optado pelo segredo, ela impedira essa conversa.
No prefácio diz uma grande verdade : “ sobre heróis, as biografias existem em catadupas. sobre os indivíduos com uma vida “normal “ , poucas. Ora, estas são frequentemente mais capazes de nos revelar uma época do que aquelas.”
Não acho que MFM precisasse de escrever mais sobre a sua vida do que já tinha escrito no “Bilhete de Identidade . Diz que é um livro sobre duas mulheres- a Avó e a Mãe , mas eu acho que este livro é mais uma vez sobre ela própria. Há histórias que repete e as novas não achei que tivessem grande interesse para encherem um livro . A única coisa que me prendeu foi o meu “voyeurismo” e o reconhecer os mesmos tempos que eu vivi, pois a Mena é pouco mais velha que eu . Não fui para Oxford mas andei por cá . O que mais gostei do livro pela forma como sintetiza e como escreve foi do Epílogo . Por isso e porque me entreteve dou as 4 estrelas .
Ao reconhecer aquilo que doutros herdara, tornei-me mais tolerante. Hoje, mãe e avó, tento não guardar segredos em caves acre trás. Sei que nunca dizemos tudo uns aos outros, nem sequer a quem amamos, mas estou pronta a tudo discutir.
Para quem já leu o Bilhete de Identidade, este livro traz muita informação já repetida. E, na verdade, deveria chamar-se três mulheres, dado que se centra muito na vida da própria Maria Filomena Mónica. É sempre interessante ver a diferença tão vincada destas três mulheres e continuo a ter uma franca admiração pela perseverança de MFM. No meu caso, foi inevitável fazer paralelismos com a minha própria experiência familiar. De facto, as mulheres tiveram e têm muita luta pela frente.
Não deixa de ser curioso as cartas entre três mulheres ( não necessariamente duas) permitirem contar uma história de família, revelarem o sentido de liberdade para diferentes gerações e apresentarem a perspectiva de quem teve acesso ao que muitas outras mulheres nunca puderam sequer sonhar.
Acho um piadão à MFM. Muito à semelhança das mulheres das minha vida, é forte, corajosa e desempoeirada. Intelectualmente snob, como a própria admite, mas na medida certa.